Causa consternação a ocorrência dessa semana que se encerra aqui em Cuiabá: um brutal caso de violência, em que um estudante, pedindo dinheiro, após esbarrar numa mulher, numa pizzaria próxima à Universidade Federal, foi vítima de espancamento por um empresário, esposo da referida moça, e por mais dois policiais militares.

Segundo as narrativas que me chegaram, já caído, o rapaz continuou sendo surrado pelo empresário e pelos policiais, até o ponto de lhe provocarem traumatismo craniano e o conduzirem à morte!

O caso ganha ainda mais tons de dramaticidade:

1) o estudante Toni Bernardo, de pouco mais de 20 anos, era proveniente da África, mais precisamente de Guiné-Bissau, e chegara ao Brasil participando de um programa de intercâmbio das universidades brasileiras com os países da África;

2) o estudante, negro obviamente, fora desligado do programa de intercâmbio no final do ano passado, por ter se envolvido com o consumo de drogas;

3) uma colega de trabalho informa que ele havia estagiado na Secretaria de Planejamento do governo do estado do Mato Grosso e que, neste período, se revelara um jovem dedicado e trabalhador;

4) os policiais militares participantes dessa monstruosidade possuíam também pouco mais de 20 anos de idade e teriam, segundo ouvi dizer, recém sido aprovados no curso de formação e no concurso público;

5) se o incidente aconteceu em lugar público, me pergunto sobre o comportamento dos presentes: como foi possível permitir que agredissem o rapaz sem reagir, vendo tudo acontecer de forma passiva?

Penso que, por vezes, parecem ter sido em vão todos os esforços empreendidos para promover mudanças sociais no Brasil, para que deixássemos de viver sob a barbárie da ditadura militar e para avançar na estruturação de uma rede de políticas sociais que minimizasse a desigualdade social no país. Porque estas lutas só encontram verdadeiro significado quando enraizam-se numa lógica de valorização da pessoa humana e de seus direitos.

Para aceitar tacitamente a violência e a imposição da brutalidade não se requer nenhum esforço: basta agir de forma egoística e narcisista, desatento a quaisquer princípios éticos.

Nosso empenho cotidiano, diversamente, tem de ser na direção do cultivo da interioridade, dos valores da paz, do bem e da justiça, do respeito pela expressão alheia e pela sua integridade física, da valorização do diálogo e da cooperação.

Este caso, por sua gravidade, tem que merecer atenção constante de todas as pessoas de bom senso, como se o estudante africano integrasse nossas famílias, para que seu desfecho se dê com a afirmação da justiça e a penalização dos seus algozes. Mas, há que reverberar em uma revisão profunda das instituições da segurança pública no Mato Grosso, que necessitam urgentemente recuperar a primazia dos direitos humanos na formação dos seus integrantes e na lógica de seus procedimentos.