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Apesar de já ter lido uma quantidade bastante razoável de material e de livros sobre o período da ditadura militar no Brasil, ainda não tinha ouvido falar de Henning Albert Boilesen, que conheci ontem, por meio dessa série de vídeos que estão disponíveis no Youtube.
Henning Boilesen era dinamarques, nascido em 1916, e chegou ao Brasil ainda jovem, casado com uma brasileira que conhecera na Dinamarca, quando tinha 22 anos de idade. Logo adaptou-se ao Brasil, começou a trabalhar em empresas na capital paulista e em 15 anos, numa ascensão meteórica, chegou à presidência do grupo Ultragás, que dirigiu até sua morte, em 1971.
Segundo os relatos estampados no documentário Cidadão Boilesen, Henning era um homem inteligente e carismático, detentor de grande capacidade de comunicação e liderança, qualidades que explicariam sua chegada à direção de uma das maiores empresas brasileiras daquele período.
No ano de 1964, segundo o documentário, ele foi agraciado com o prêmio de melhor relações públicas do ano, ao que parece pela Associação Comercial de São Paulo.
Esta sua condição de liderança empresarial impôs a Boilesen se envolvesse com as discussões sobre a agenda política nacional, impelido tanto pela importância da própria organização que ele presidia, a Ultragás, quanto por demais empresários que preocupavam-se com os rumos do governo João Goulart, apoiador declarado dos movimentos de reformas de base, como se sabe.
Com a deposição de Jango e a implantação da ditadura militar, o empresariado explicita seu apoio aos militares golpistas e aprofunda seu relacionamento com eles, inclusive tendo em vista conquistar oportunidades de negócios mediante acordos e conveniências nem sempre declaráveis.
Com a crescente radicalização da ditadura, a oposição política a ela foi perdendo o fôlego e os grupos adversários, ligados aos movimentos sindicais, estudantis ou dos partidos de esquerda, foram sendo compelidos à aderirem à luta armada como única forma de resistência política.
O enrijecimento político do governo militar e o recrudescimento da resistência armada resultaram, no final de 1968, no campo da oficialidade, na publicação do Ato Institucional n.5 (AI-5), que esvaziava os direitos dos cidadãos, e no campo da repressão, à criação da OBAN, a Operação Bandeirantes, com o aumento da brutalidade das práticas de tortura, o crescimento dos assassinatos de militantes de esquerda e o aumento do número de desaparecidos políticos.
Boilesen e outros empresários, muitos dos quais liderados por ele, participaram do financiamento das atividades da OBAN, bem como emprestaram estruturas de suas empresas para a atuação dos agentes da repressão política para a captura e eliminação dos militantes da resistência política.
Henning Boilesen, além disso, foi visto por pessoas que sobreviveram às torturas e às prisões da época, participando das sessões de tortura, demonstrando um grau de sadismo surpreendente.
Aos poucos, os relatos sobre a presença daquele estrangeiro participando das sessões de tortura foram sendo transmitidos para a liderança dos partidos e movimentos de esquerda que deliberaram por sua morte, como forma de justiçamento, com o intuito de desestimular que outros empresários seguissem financiando a OBAN.
Boilsesen morreu, assassinado, em 15 de abril de 1971, por militantes do MRT e da ALN.
O documentário é excelente quando analisado do ponto de vista da pesquisa histórica para o levantamento de dados sobre a vida de Henning Boilesen. Ao levantar sua biografia, por outro lado, consegue inserí-lo perfeitamente no cenário político do período, permitindo vislumbrar que seu caso não foi isolado, mas representou um movimento de muitos empresários que deram apoio não apenas moral e político à ditadura, mas forneceram-lhe recursos financeiros e logísticos para que ela operasse a indústria da tortura em que se transformou.
A Comissão da Verdade, recém instalada, na apuração dos processos que provocaram o sequestro, o desaparecimento de muitos militantes dos grupos de oposição e a morte de outros tantos, não pode furtar-se de investigar também a participação de grupos empresariais no apoio à ditadura. A verdade exige que estas empresas sejam conhecidas pela população, para que ela possa produzir seu juízo sobre elas.
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