Posts Tagged ‘Steve Jobs’

Como já comentei anteriormente, lecionei filosofia em cursos de administração e contabilidade, o que me levou a pensar sobre o lugar da filosofia no ambiente corporativo.

Recentemente, estruturei uma exposição para um grupo de consultores que entitulei de Filosofia e Mundo Corporativo: da livre iniciativa à responsabilidade sócio-ambiental.

Antes disso, por ocasião do falecimento de Steve Jobs, o mago da Apple, já havia publicado outro artigo, sobre a Filosofia e Administração: as lições de Steve Jobs.

Hoje, trago um artigo que foi divulgado em 2009, pelo Canal RH, em que se evidencia a importância que algumas pessoas formadas em filosofia alcançaram nas empresas e corporações em que atuam. Texto bastante interessante.

Filosofia em alta no ambiente corporativo
12/03/2009
Fonte: Canal RH

A ascensão do filósofo Luiz Carlos Trabucco Cappi à presidência do Bradesco sugere a valorização da Filosofia no mundo corporativo. Ele não é o único executivo brasileiro a ter essa formação, seja em nível de graduação, mestrado ou por meio de cursos complementares. A questão, portanto, é saber o que mudou no mercado empresarial para trazer um conhecimento normalmente restrito ao ambiente acadêmico para o pragmatismo das empresas.

A coordenadora de projetos da Fundação Itaú Social, Isabel Cristina Santana, é outra filósofa atuante em uma área corporativa. Na sua avaliação, uma das principais contribuições dos filósofos para as empresas é a forma de pensar, própria dessa carreira, que valoriza a reflexão aprofundada dos conceitos e das situações, o que permite ter uma visão mais abrangente da realidade. Segundo ela, é atributo da Filosofia pensar coisas complexas e estabelecer relações entre fatos e conceitos. Por isso, esses profissionais têm condições de ajudar as companhias a burilarem a arte de pensar. O que é muito útil, porque “as complexidades do mundo só aumentam”, lembra Isabel.

Para ela, o que as empresas deveriam aproveitar melhor de seus funcionários filósofos – ou do conhecimento filosófico em geral – é a metodologia de investigação filosófica. “Essa metodologia envolve aspectos que muitas vezes faltam às empresas, como visão crítica, criatividade, busca de sentido e coerência de raciocínio”, explica.

No entanto, Isabel não acredita que a ascensão dos profissionais advenha unicamente de sua formação em Filosofia, mas de um conjunto de atributos desenvolvidos ao longo da carreira. A mesma orientação segue o diretor de Marketing e novos negócios da rede de farmácias Drogão, Nelson Luiz Guimarães de Paula, formado em Filosofia e Marketing e Comunicação. “Não acho relevante só a formação. Hoje há milhões de engenheiros que trabalham em Marketing, médicos em áreas promocionais e matemáticos que são vendedores de sucesso”, observa.

Na avaliação de De Paula, a entrada dos filósofos no mercado corporativo advém de um processo natural da sociedade. “O filósofo contemporâneo está imerso no mundo corporativo; não é possível separar o pensamento acadêmico do mundo real”, diz, e completa: “acredito no pensamento dentro do mundo, inserido no contexto”.

Analisando a possibilidade de maior empregabilidade para filósofos no ambiente corporativo, o professor da PUC-SP Eduardo Cruz, acredita haver uma mudança de paradigma operada no ambiente organizacional a partir dos anos 1990. Em sua avaliação, a chamada era da informação, instaurada a partir do início da década passada, fez com que as empresas demandassem profissionais mais pró-ativos, inteligentes, com habilidades mais sofisticadas e que precisam ser motivados. “A motivação não vem só do salário, mas inclui aspectos subjetivos e por isso a Filosofia entrou no vocabulário de gestão”, acredita.

Em um breve histórico, o professor explica que o processo de industrialização clássico do século XX perdurou até os anos 1950, quando as pessoas eram tratadas quase como robôs dentro das empresas. No período entre 1950 até 1990, houve a aplicação da visão neoclássica ao trabalho e os colaboradores foram compreendidos como recursos organizacionais, o que ainda não incluía uma valorização da subjetividade, como passou a ocorrer no final do século passado.

Na visão de Cruz, entretanto, não só a Filosofia é valorizada, mas todas as humanidades. Ele cita Psicologia, Arte e até Física, que embora seja uma disciplina exata confere a seus estudantes uma flexibilidade de pensamento que pode fazer diferença no dia-a-dia das empresas. “Hoje a empresa não quer mais um técnico titulado, mas alguém que tenha facilidade para transitar em várias áreas e pensar de maneira própria”, resume.

Para ele as principais contribuições que a Filosofia pode aportar ao mundo corporativo são uma compreensão maior da Ética, que pode contribuir para uma discussão ampla das decisões das empresas, e o raciocínio rigoroso desenvolvido por esses profissionais. “Quem estuda filosofia está atento a descobrir as lacunas do pensamento e encontrar respostas”, diz.

O filósofo e escritor Paulo Ghirardelli Jr., autor de vários livros, cujos mais recentes são “Filosofia e História da Educação no Brasil”, pela editora Manole, e “O Que é Filosofia Contemporânea”, pela Brasiliense, é ainda mais radical em avaliar a contribuição dos filósofos para companhias. Segundo ele, o filósofo autêntico é um bom administrador, bom negociador e bom homem prático porque, ao lidar com problemas do dia-a-dia, sabe aplicar os resultados das pesquisas em metafísica, epistemologia, ética, estética, pedagogia e política à vida cotidiana. “Caso não saiba, não é filósofo”, atesta. E pondera: “Caso saiba demais, também não é”.

Ghiraldelli ressalta, entretanto, que a Filosofia não é uma profissão, mas uma condição de vida, uma vez que os filósofos são pessoas que investigam o que há a seu redor, e que, em geral, colocam perguntas para aquilo que parece ser o banal e, assim, “desbanalizam o banal”. É por essa condição que ele acredita que muitos profissionais, ao descobrirem o saber filosófico, podem tirar da mesmice vários outros saberes profissionais.

No caso específico das áreas de RH, Ghiraldelli acredita que os filósofos têm muito a contribuir, pois tem um conhecimento melhor das vocações e dos desejos das pessoas. Em sua avaliação a Psicologia, que é a profissão geralmente demandada por essa área, se prende demasiadamente a questões particulares de cada pessoa, enquanto a Filosofia tem condições de inserir os profissionais que passam pelo RH no campo social, humano, existencial e, com isso, avaliar melhor suas potencialidades.

Já para o especialista em treinamento e educação para empresa Luiz Carlos Moreno, a Filosofia contribui amplamente para o desenvolvimento pessoal, o que também se traduz profissionalmente. “Administrar organizações é muito mais do que saber aplicar regras e técnicas; é ser capaz de pensar, decidir e agir”, comenta. Na sua avaliação, o estudo filosófico tem a intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade no sentido de aprendê-la na sua amplitude, buscando conceitos e classificações.

Embora considere muito pessoal a recomendação de leituras, Moreno sugere alguns livros essenciais na biblioteca de executivos que tenham interesse por Filosofia. Entre os pensadores ocidentais destaca “O Banquete”, de Platão; “Ética a Nicômano”, de Aristóteles e “Além do Bem e do Mal”, de Nietzsche. Entre as obras orientais, ele sugere: “Os Anacletos”, de Confúcio; “Tao Te King”, de Lao-Tse e “A Arte da Guerra”, de Sun-Tsu.

http://www.zap.com.br/revista/empregos/canal-rh/filosofia-em-alta-no-ambiente-corporativo-20090312/

Steve Jobs, o criativo empreendedor fundador da Apple, faleceu ontem, de câncer, nos Estados Unidos, aos 56 anos de idade.

O sucesso de Steve Jobs é reconhecido internacionalmente do mesmo modo que a corporação que ele criou, a Apple, é detentora de um dos mais altos valores de mercado dentre todas as grandes empresas do mundo.

Quando se observa para o alcance e o porte que Steve Jobs conseguiu alcançar com seus negócios, levando-se em conta todos os desafios que se apresentam para o desenvolvimento de qualquer empreendimento, torna-se inevitável lançar questões sobre quais foram os elementos que convergiram de modo favorável para Jobs superasse as adversidades, mantivesse a capacidade criativa e perdurasse com a força da liderança que levaram sua empresa ao patamar que ela alcançou no mundo dos negócios.

Evidentemente, não é fácil responder a este tipo de questionamento. Cada pessoa vai procurar explicar de uma forma própria e é provável que jamais consigamos chegar a um consenso absoluto a este respeito, assim como, jamais teremos absoluta convicção de que as tentativas de resposta que apresentamos tenham sido, de verdade, fatores determinantes para as conquistas de Steve Jobs.

Mas, ainda assim, temos todos o direito de emitir nossas opiniões, razão pela qual esboço aqui minha interpretação.

Há alguns anos, assumi como tarefa lecionar filosofia em cursos de administração de um Centro Universitário de Ribeirão Preto. A disciplina filosofia estava sendo introduzida nos cursos de administração por força de uma resolução do Conselho Federal de Administração, como disciplina obrigatória. Os alunos não entendiam bem o motivo e a literatura disponível no Brasil não tinha foco na atividade acadêmica, pelo que pecava em sua estrutura didática.

Mas, mesmo assim, aceitei as aulas e comecei a trabalhar, procurando aproximar a abordagem dos principais problemas filosóficos, como a ética e a lógica, por exemplo, da experiência vivencial dos gestores das mais variadas organizações, com o intuito de facilitar que meus alunos pudessem vislumbrar primeiro, quanto a administração é uma ciência humana, obrigada a lidar com a incerteza e as mudanças e, segundo, quão próximos os temas e os problemas filosóficos se colocam do cotidiano das organizações.

Lembro-me, perfeitamente, por exemplo, da abordagem sobre a felicidade, partindo do pensamento de Aristóteles, que no mundo dos negócios se apresenta sob as expressões da “agregação de valor” ou “oferta de benefícios aos clientes”, por exemplo.

Voltando ao caso de Steve Jobs, ele esteve em 2005 em Stanford, como paraninfo da formatura dos estudantes daquela que é considerada uma das mais importantes instituições de ensino dos Estados Unidos, nesta área. Ouvindo sua breve exposição, com que nos deparamos?

Jobs destaca, em primeiro lugar, que ele próprio não concluíra o ensino superior e que abandonara a faculdade para evitar que seus pais mantivessem um volume de despesas maior do que podiam suportar. Obviamente, com isto, ele não estava desmerecendo o valor do processo educativo, mas ele queria ressaltar que a força da inteligência e da criatividade não se submetem à exigência de diplomas e certificações, o que, para mim, sempre se evidenciou nos trabalhos comunitários em bairros da periferia ou na participação em diversos movimentos sociais e pastorais. Lembrei-me, ainda, do brilho da inteligência de Lula, que hoje é internacionalmente reconhecida, ainda que restem no Brasil pessoas que parecem se extasiar de denegrir a figura de nosso ex-presidente, por puro preconceito.

Destacar, como fez Steve Jobs, na sua fala, sobre a importância de manter a atenção aos detalhes que vão compondo o universo de informações ao nosso redor e de como “ligar os pontos” de todas as aprendizagens obtidas na vida é apontar para a principal capacidade que a filosofia nos facilita desenvolver: a visão de conjunto, a percepção da complexidade, a noção de totalidade de sentido que constitui a realidade em que nos inserimos.

Mas, Steve Jobs em seu breve discurso, foi além disso. Ele mostrou quão valiosa é a humildade, ao ressaltar um dos aspectos que mais ocupou o pensamento dos filósofos do século XX, a percepção da proximidade com a morte. Não pude deixar de lembrar-me dos pensadores existencialistas, por exemplo, de Heidegger, de maneira mais clara, quando afirma que o homem é o único ser que possui a consciência da morte e vive o cotidiano cercado por essa certeza da finitude.
Em Steve Jobs, entender que a morte é nossa vizinha permanente representou a oportunidade para enfatizar o direito de tomar decisões com a sensação da liberdade e a “rebeldia” de quem sabe que o único verdadeiro compromisso que devemos assumir é com as melhores decisões e aquelas que mais resultem em alegria e satisfação.

Ele fez questão de acentuar que as pessoas devem continuamente procurar fazer o que elas amavam e o que lhes dava prazer. É interessante ouví-lo narrar a dor que ele experimentou ao ser demitido da empresa que ele mesmo criou e de como amar seu trabalho e, em função disso, ser capaz de sempre inovar no desenvolvimento de novas soluções foi a alavanca que lhe permitiu retornar à Apple, impelindo a empresa para os novos caminhos que ela veio a seguir.

Os temas da fala de Steve Jobs, como se depreende, são aplicações diretas de questões de natureza filosófica no mundo da administração, não se pode negar. Que sua morte propicie que mais pessoas passem a acreditar no valor do amor, na possibilidade criativa que fugir aos “esquemas” pré-concebidos possui, na importância de manter a sobriedade mesmo quando as coisas parecem não dar certo e manter-se na luta para ser felizes.

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