Posts Tagged ‘relações sociais’
Os professores das universidades federais cresceram fortemente em número, na última década, dada a forte política de expansão do ensino superior público, promovido pelo governo Lula, sob a coordenação, especialmente, do ex-ministro Fernando Haddad, atual candidato a prefeito da cidade de São Paulo. Houve, inclusive, um esforço de recomposição salarial, mas que efetivamente não deram para a atividade docente o reconhecimento que ela efetivamente exige.
O governo federal, através do Ministério da Educação, precisa reabrir o canal de interlocução com o movimentos dos professores das universidades federais. A greve não pode prolongar-se mais, não apenas em função do prejuízo que produz sobre os estudantes de graduação e de pós-graduação, ou de suas pesquisas, mas porque tende a produzir uma leitura prejudicial ao governo da presidenta Dilma Roussef, com impactos duradouros na trajetória política do país.
Segue artigo da professora de pós-graduação em Política Social da UFMT, Dra. Marluce Souza.
Greve: lugar do conflito e da negociação
Para nós, a greve é, antes de tudo, um instrumento legítimo de defesa de direitos dos trabalhadores/as, e como tal deve ser fortalecida e não descartada, especialmente quando nos confrontamos com governos que não dialogam…MARLUCE SOUZA
Dificilmente, em qualquer situação, seja no efetivo exercício da atividade docente ou na paralisação, permanecemos indiferentes aos fatos que ocorrem em nosso derredor.
No momento da greve essa percepção deveria estar mais aguçada, visto que é tempo propício para refletir as relações sociais estabelecidas no cotidiano do trabalho. O que não ocorre.
Contudo, estamos preocupados com a valorização da docência, pois somos profissionais da educação e possuidores das competências necessárias para ensinar, o que parece não ser suficiente. Devemos entender e dar a entender aos outros, inclusive aos nossos gestores, que educadores/as precisam acreditar no belo, na utopia e na possibilidade de que a humanidade não permanecerá eternamente bestializada. Mas está difícil.
O tempo tem sido nosso maior inimigo. Vivemos com pressa, com peso e com o PIA nos ombros. Ninguém se enxerga, tampouco percebe que o outro/a, antes parceiro, vai se transformando em opositor de um pensamento construído coletivamente, comprovando a fragilidade das nossas relações. Estrategicamente os interesses políticos transformam os conflitos institucionais em confrontos pessoais, reafirmando a pesquisa realizada pela Profa. Dra. Margarida Barreto, da PUC de São Paulo que indica sérias dificuldades no dia a dia de nosso trabalho, e que “apesar do discurso forte de colaboração existente entre os docentes, predomina a Lei de Muricy (cada um por si)”.
Ainda assim, não negamos o conflito como mola propulsora das nossas realizações. É bom que exista, visto ser intrínseco à lógica da democracia. Anormal é o fenômeno que transforma tais conflitos em elementos desagregadores do projeto de uma universidade pública e de qualidade. Universidade que não mais conquista espaço político e autonomia, ao contrário, perde o pouco antes conquistado. Estamos reféns de órgãos que deveriam fortalecer o projeto de educação, mas que, incompreensivelmente, burocratizam as atividades e deliberam sobre questões que retiram a criatividade docente, delimitam as competências e impedem o pensamento critico.
O projeto governamental de universidade desconsidera que ensinar exige diálogo, paciência, tempo e reflexão.Estudar, pensar e conhecer? De forma nenhuma. O governo brasileiro precisa de dados estatísticos emergenciais, e a nós cabe apresentar resultados através de um “lattes” de extensão métrica, ainda que ninguém conheça o resultado da nossa “valiosa” pesquisa. Importa que haja no currículo uma quantificação de atividades que possa ser pontuada nos diferentes e divergentes instrumentos de avaliação: Formulário Coletas, Avaliação MEC, Formulário para Progressão Funcional, Relatório de Estágio Probatório, etc.
Esta é a lógica do produtivismo, favorecedor da replicação de artigos, de produção coletiva questionável, e de possíveis e arriscados plágios. Jogo perigoso. É esse o profissional que desejamos ser? Devemos jogar com estas cartas ou demonstrar nossa convicção de que a “atividade docente exige liberdade e moralidade, e que não podemos produzir conhecimento na perspectiva do mercado”. Mesmo porque o mercado tem interesses pontuais apenas sobre algumas de nossas áreas de conhecimento. Estaria ele desejoso por financiar uma pesquisa que possa denunciá-lo como destruidor da fauna, da flora e da vida na terra? Ou que demonstre o nível de corrupção existente entre os políticos e empregadores na gestão dos recursos da Previdência Social? Certamente que não.
Os recursos para financiamento das nossas pesquisas devem ser públicos, pois desejamos investigar e conhecer em prol do bem comum. Não podemos ser coniventes, tampouco aliar-nos aos propósitos duvidosos do poderio econômico, alegando, em nossa defesa, a necessidade de complementar salário docente, que é o sexagésimo pior dentre os servidores públicos do executivo (anexo). Tenhamos em mente nosso projeto de sociedade e lutemos contra a tentação de realizar pesquisas encomendadas, com resultados certos e objetivos incertos.
Precisamos de liberdade e valorização. Não podemos esquecer que amanhã ingressaremos na lista de aposentados do Sistema Previdenciário, e que estaremos na condição de “seres sociais inúteis”, quase “vagabundos” conforme afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nossa identidade será: beneficiários de proventos reduzidos e de necessidades aumentadas.
A “universidade da pressa” exige, agora, uma agilidade que consome nossa saúde. Fato é que estamos ansiosos, cansados, irritados, depressivos e entristecidos. E, ainda assim, ignorando o chamamento de nosso corpo e da nossa mente. O trabalho tornou-se ópio, pois ainda que estejamos adoecidos, não sentimos. Acordamos com dores, mal estares e indisposições, mas erguemos a cabeça, enxugamos as lágrimas e retomamos o nosso cotidiano laboral, pouco importando que tal reação resulte na degradação da aprendizagem, na desvalorização da instituição, e na destruição de nossa vida social útil.
Barreto, citada acima, revela que “está havendo uma deterioração da saúde mental dos professores em consequência das condições de trabalho. Na China há suicídios em consequência da jornada de 16 a 18 horas por dia”.
Eis, portanto, apenas alguns dos muitos fatores que nos levaram à greve, mesmo reconhecendo sua dureza e a força protelatória que exerce sobre os projetos de nossos alunos e familiares.
Para nós, a greve é, antes de tudo, um instrumento legítimo de defesa de direitos dos trabalhadores/as, e como tal deve ser fortalecida e não descartada, especialmente quando nos confrontamos com governos que não dialogam.
Devemos evitar que se repita o que aconteceu na Unifesp, onde “um professor se matou dentro da universidade e deixou uma carta denúncia em seu site: publicar ou perecer. Ele argumenta que, em 50 anos, tudo o que havia escrito estava apagado, indo para o lixo da história”. Lamentável.
Como demanda local precisamos refutar o PIA Eletrônico, a Resolução 158, e as distribuições de encargos que nos submetem à condição de máquinas. Plano individual de atividade que decreta o registro de apenas cinco dos nossos doze orientandos, que não garante horas necessárias à realização da pesquisa e da produção científica, e que marginaliza a extensão universitária, deve ser rechaçado antes que os conflitos inerentes ao trabalho se transformem em confronto e em destruição do nosso prazer de educar.
Importa, portanto, entender a greve como lugar do conflito e da negociação, enfatizando ainda sua função pedagógica.
(*) MARLUCE SOUZA E SILVA é Doutora em Política Social pela UNB e professora da UFMT.
Fonte: http://www.hipernoticias.com.br/TNX/conteudo.php?sid=174&cid=14865
Gostou deste Artigo?
Inscreva-se para acompanhar o nosso RSS feed!
Algumas vezes, ontem aconteceu novamente, ele me encaminha endereços de vídeos no youtube de um determinado pastor de quem ele é admirador e que gosta de ouvir.
O vídeo de ontem tinha cerca de 15 minutos de duração e se tratava de uma longa explanação sobre a possibilidade, que o pastor defendia, da pessoa selecionar os conteúdos de seus pensamentos. Segundo o pastor, “a pessoa é seu pensamento”, de modo que escolher os conteúdos do seu pensar, conformam-lhe a identidade que possuem.
É evidente nesta linha argumentativa, e chega a ser impressionante, a presunção de força da racionalidade intelectiva que seria capaz de expelir quaisquer conteúdos “inadequados” ou “improdutivos” da mente da pessoa. A pessoa detentora plenamente da seletividade dos conteúdos de seu pensamento poderia evitar a tristeza, o abatimento, o “materialismo”, o “erotismo”, todos os demais “pensamentos” provenientes dos influxos da realidade e dos sentimentos, que representariam, nesta interpretação, uma forma de submissão da pessoa que ainda não exerceria, desse modo, sua plena capacidade seletiva sobre os conteúdos de seu pensar.
Ao contrário, a pessoa plenamente seletiva de seus pensamentos poderia, prossegue o pastor, subordinar intencionalmente os seus pensamentos ao “espírito”, de modo que assim, conformar-se-ia o homem de fé, fiel à Palavra de Deus e ao seu Espírito. Então, diz o pastor, “dize-me o que pensas, que lhe direis quem és”.
Sou absolutamente crítico desse tipo de consideração.
Considero-me alinhado filosoficamente ao materialismo, o que quer dizer que importo-me com o que acontece no mundo exterior ao intelecto humano, ou seja, preocupo-me com a organização das relações sociais firmadas no convívio humano, preocupo-me com os processos de produção e distribuição dos benefícios gerados pelo trabalho humano, preocupo-me com a ação dos indivíduos e seus impactos tanto nos demais integrantes da sociedade quanto sobre a natureza.
Respeito que os seres humanos sejamos intelectualmente complexos, que nossas consciências vivenciem dilemas e dúvidas, que nossas interioridades sejam contraditórias, em muitos momentos. E, não pretendo eliminar essas realidades do campo de nossos sentimentos ou pensamentos, porque considero infrutíferos tais anseios.
Preocupo-me, isso sim, com o modo de agir, com as atitudes, com o posicionamento das pessoas nos processos objetivos da vida, da história, da ordem social. Assim, pouco me importa se a pessoa tem fala mansa ou um discurso mais inflamado, se usa um vocabulário mais elaborado ou um discurso simplório, se veste-se com requinte ou como um “jeca tatu” (minha mãe usava bastante essa expressão).
Importa-me, isso sim, se a pessoa investe na construção do grupo, da colegialidade, da democracia e da coletividade. Importa-me se a pessoa apoia os movimentos em favor dos direitos dos pobres, dos direitos humanos, da justiça social, da força do direito aplicada às elites econômicas e políticas, da inovação dos processos de vivência da democracia.
Eis, para mim, o que distingue o joio do trigo, para usar a alegoria bíblica, como o tal pastor a que me referi acima tantas vezes faz.
Importa-me a prática da vida e das relações sociais, importam-me os posicionamentos relacionados às lutas sociais. Importa-me a grandeza de interessar-se pelos bens alheios, que efetivem a justiça, sem interesse pessoal imediato, onde identifico a generosidade e o altruísmo.
Ao contrário do referido pastor, que interessa-se pela seletividade do pensamento, minhas epistemologia e axiologia selecionam pelo posicionamento social e político, porque possuem incidência direta nas condições de vida e de sua reprodução.
Minha máxima, então, é: “dize-me o que fazes e te direis quem és!”
Gostou deste Artigo?
Inscreva-se para acompanhar o nosso RSS feed!





