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Qual é o campo político de uma “direita pura”?

Alguém que deliberadamente se apresentasse como uma organização defensora do capitalismo, dos grandes grupos econômicos, da concentração de renda? Da redução dos investimentos sociais e das políticas afirmativas de reparação de passivos sociais historicamente construídos?

Nenhum agrupamento político vai assumir esse papel, por evidente despropósito eleitoral e consequente aniquilação. Vão insistir em um discurso baseado na redução da carga tributária; na “modernização” da indústria brasileira; na qualificação profissional; na gestão “técnica” das estruturas do Estado, “sem influência política”; no direito à “liberdade de expressão”; no “fim da corrupção”. Entretanto, sabemos, por décadas de experiência e luta política no país, que os que se alinham com esses temas são absolutamente descomprometidos com seu conteúdo e que o utilizam como mera falácia porquanto sua práxis se caracterize pela apropriação da máquina pública de modo patrimonialista, nos precisos moldes da elaboração de Raimundo Faoro.

Não é razoável imaginar que esse instrumento da dissimulação discursiva seja abandonado uma vez que o regime democrático e a competição eleitoral exigem que não se neguem os direitos que se tem ampliado gradativamente à medida em que a história avança.

A única oportunidade para a apresentação de um discurso mais verossímel “de direita” seria o da instalação do pânico oriundo de uma forte crise econômica, como a que está vivendo a Europa neste momento e como as que experimentamos no decorrer das décadas de 1980 e 1990. Neste contexto, evidenciar-se-iam espaços para os discursos do “ajuste” e da “segurança” ou do “risco sistêmico”, que nada mais são do que a expressão nítida da expropriação pelo capital dos direitos dos trabalhadores e das demais conquistas sociais universalmente distribuídas.

Ocorre que o Brasil está vivendo um ciclo em que o desemprego tem taxa inferior a 5,5%, índice jamais alcançado em qualquer outro período de nossa história. E, com o agravante de que a tendência é de que essa taxa decline ainda mais, em função dos inúmeros projetos que se estão alinhavando para implementação nos anos vindouros. Com a consequente elevação dos valores médios dos salários.

De modo que não há oxigênio para dar fôlego a um discurso baseado nas categorias do ajuste, da segurança ou do risco, que caracterizam a verdadeira linhagem da “direita” no presente. Então, resta aos que se posicionam neste campo o discurso dissimulado que expus anteriormente. Que oculta sua verdadeira identidade como agrupamento ideológico.

Além do fato de que aos “de direita” pouco importa o discurso, o que lhes interessa efetivamente é a apropriação das riquezas tanto por meio do uso do Estado como mediação (vide a resistência à queda da taxa SELIC ou o enredo das privatizações e privatarias) quanto do assalto direto aos fundos públicos, mediante as práticas corruptas de que fazem uso, ainda quando assumem o discurso moralista (vide “mensalão do PSDB” ou a “Caixa de Pandora”, de Arruda e cia, no DF).

Penso, portanto, que prosseguiremos, por muitos anos ainda, com essa presença errática dos defensores do discurso “de direita”, esparramados por vários partidos, buscando alinhamentos momentâneos e corrosivos da possibilidade de uma política mais fortemente orientada para a democracia política e social, ainda que continuem sofrendo derrotas mais frequentemente do que tenham vitórias eleitorais, especialmente nas disputas nacionais. Razão pela qual se dedicarão à ocupação de espaços no âmbito dos municípios, de forma muito intensa.

Paulo Teixeira (dep.federal) e Simão Pedro Chiovetti (dep. estadual), por exemplo, ainda que sempre tenham dialogado com os diversos agrupamentos do PT em São Paulo, jamais foram parte do “núcleo duro” do partido e sempre conseguiram transitar muito bem junto tanto a entidades da sociedade civil quanto a movimentos sociais.

Acompanhei de perto seus movimentos desde o começo dos anos 2000, em que eles chegaram a estar em composição interna com a DS (Democracia Socialista) estadual, ainda que esta fosse uma corrente trotskista, de origem político-ideológica distinta da deles, portanto, que tem sua origem mais na militância vinculada às comunidades de base e pastorais sociais da Zona Leste da capital.

Com a crise pós-2005, trilharam o caminho que resultou no surgimento da corrente Mensagem ao Partido, que naquele momento de extrema dificuldade, discutiu a “refundação” do PT, nos termos empregados por Tarso Genro, que presidiu o PT nacional no meio do furacão que se instalou naquele momento.

Obviamente, houve sim uma migração interna, não apenas com forte sentido de renovação dos líderes, mas também com a emergência de orientações políticas distintas das predominantes até então. É importante entender que Haddad foi secretário de Tarso Genro no Ministério da Educação e participou com Paulo Teixeira, Simão Pedro, José Eduardo Cardozo, Nabil Bonduki, Sérgio Amadeu, para citar nomes da capital, desde o começo, daquele movimento da Mensagem ao Partido. Citei apenas expoentes jovens, mas para não deixar de fazer justiça a um extraordinário militante petista, Paul Singer também posicionou-se desde o princípio neste alinhamento.

Observem o que se seguiu depois: Tarso Genro assumiu o Ministério da Justiça, em que hoje está José Eduardo Cardozo. Deixou como sucessor Fernando Haddad no Mec, que hoje é candidato a prefeito da capital, com apoio de todos os nomes que citei desde o começo das disputas internas pela candidatura. Paulo Teixeira foi líder da bancada do PT na Cãmara dos Deputados e Simão Pedro foi líder da bancada na Assembléia Legislativa.

Lula endossou o nome de Fernando Haddad, sim, mas observem que não tirou do seu colete. Lula, o que fez? Uma ótima leitura do novo quadro interno: identificou na disputa interna do partido e, em meio à crise política que se instalou, pessoas tanto com extraordinárias qualidades humanas quanto com excelente cabedal intelectual como, além disso, com grande capacidade de mesclar em sua atuação uma excepcional intersecção entre a dimensão institucional da luta política e a mobilização dos movimentos sociais e entidades da sociedade civil.

Acho importante fazer essa consideração para que não achem que Haddad é meramente uma escolha aleatória de Lula, como se não resultasse de organização e articulação política, nem que tivesse currículo, militância e luta, para conquistar o espaço que hoje detém.

E termino ressaltando que há um papel extraordinário de Tarso Genro neste movimento, o que muita gente do PT paulista, até por terem perdido espaço com esse deslocamento de forças, jamais vai aceitar, porque fizeram contra ele uma campanha indecente, sob muitos aspectos, especialmente tentando defenestrar o conceito de “refundação”.

Concluo: há sim, no PT paulista, um movimento de sucessão de gerações e emergência de novas lideranças, mas há, mais importante do que isso, um deslocamento político, que está propiciando que se iluminem nomes valiosos.

Este artigo nasceu inicialmente como um comentário meu no blog do jornalista Luis Nassif

[sc:edm]

Acabo de ler um artigo de um jornalista de Mato Grosso, Onofre Ribeiro, tratando de um embate recente entre o senador Pedro Taques, do PDT-MT, e o Secretário incumbido de conduzir os projetos preparatórios do Estado para a realização da Copa do Mundo de 2014, em que que Cuiabá será uma das sedes. Ressalto que não quero situar-me quanto ao conteúdo em si desse debate. Quero analisar o jornalista e o papel da imprensa no país neste momento em que discute-se a necessidade de elaborar uma regulação das empresas jornalísticas que estão exorbitando seu papel, tentando direcionar os movimentos da sociedade e definir as suas pautas de mobilização, alegando o direito à liberdade de expressão, que, entretanto, não concedem aos que discordam de seus posicionamentos.

No artigo em questão, discordo completamente das premissas expostas pelo jornalista Onofre Ribeiro, no texto que publico abaixo, e explico:

a) o jornalista começa afirmando que há uma “briga doméstica”, no que já no primeiro parágrafo deprecia a importância do debate político no Estado, em especial no mais relevante acontecimento dos anos recentes e vindouros, a Copa de 2014.

Surge, obviamente a pergunta: essa desconsideração tem como causa o desprezo pela importância do evento, pelos debatedores, ou o habitual “deixa disso” que visa ocultar da esfera pública os movimentos de forças políticas, que conviveriam melhor fora dos holofotes da imprensa, postura estranha para um jornalista?

b) segue então seu argumento, tentando encontrar palavras que supostamente representem um juízo equidistante entre os contendores: “ambos têm razão”, “ambos passaram das medidas”; entretanto, trai-se, quando afirma que Taques acusa atrasos nas obras, algo que pode ser mensurado e conferido, por ter base fática; diversamente, afirma que Eder “enxerga no senador má vontade”, algo de caráter meramente subjetivo, correspondente a pura expressão de opinião de Eder contra Taques, algo que não depende da realidade para se alterar.

Já aqui, o jornalista revela que, menos do que uma análise equidistante, como tentou fazer parecer no início do texto, trata-se o artigo de um posicionamento favorável a Eder Moraes.

Observo: apenas estou analisando o conteúdo do texto e o posicionamento do jornalista, que não proferiu uma análise do conflito instalado, mas uma peça retórica direcionada.

Então começam a evidências do posicionamento tendencioso do texto:

* Taques “está indo além do necessário”, jogando “rasteiro” (o senador poderia sentir-se difamado?)

* vem então o mais esdrúxulo componente do texto: alguém teria dito que estariam arquitetando uma verdadeira bateria artificial de ataques desestabilizadores contra o governo pela ação de promotores de justiça de vários lugares! Trata-se da denúncia de uma ameaça hipotética! Não se diz quem e nem com que base material e documental, o que significa uma insinuação de que o Ministério Público seja uma instituição completamente manipulável por amizades e conveniências.

Então, ciente do absurdo dessa linha argumentativa, usa o adjetivo com qual quer proteger-se: “nunca escutei coisa mais irresponsável”.

Mas, eis porque tendencioso, é com base no juízo desigual sobre as críticas de Taques e Eder e com base na suposta ameaça “irresponsável” que não se sabe qual proveniência possui, que o jornalista dá um passo além, e, não mais atuando como um pretenso analista equidistante do cenário local, mas como um verdadeiro conselheiro do governador, aponta-lhe que ao governo falta um porta-voz e que Eder, nesta discussão com Taques, erigiu-se, olimpicamente, o defensor, de “coragem e ousadia”, que o governo ainda não fora capaz de constituir, até este momento.

Tenho visto da imprensa nacional jornalistas e veículos de imprensa usurpando o lugar dos partidos políticos e dos legitimamente constituídos pela via eleitoral para esta missão na tentativa de induzir os movimentos da sociedade.

Mas, não posso deixar de observar que neste texto encontra-se um legítimo representante deste modus operandi que está rebaixando a credibilidade de amplos segmentos da imprensa brasileira. Jornalista, filie-se a um partido e, então, poderá produzir e difundir suas orientações políticas, contribuindo para deixar transparente a distinção entre discurso político e análise de conjuntura, mais afeita à ciência política e à sociologia.

29.02.2012 | 09h28 – Atualizado em 29.02.2012 | 09h36

Surge um porta-voz do Governo
Críticas que surgem de todos os lados podem desastabilizar a administração

ONOFRE RIBEIRO

Desde o fim da semana passada, a mídia de Mato Grosso estampa uma briga doméstica entre o senador Pedro Taques e o secretário Eder Moraes, da Copa do Mundo.

Desinteligências entre pessoas que ocupam cargos públicos são muito frequentes. Mas precisam restringir-se ao nível do tolerável em relação às expectativas da opinião pública.

Ambos têm razão nas discussões. O senador enxerga atrasos nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e critica o secretário Eder Moraes. Este, enxerga no senador má vontade contra a Copa, contra Cuiabá e contra Mato Grosso.

Ambos usam adjetivos desnecessários e ambos estão usando munição pesada numa guerra de tico-ticos. Ambos passaram da medida. Porém, parece-me que o senador Pedro Taques está indo além
do necessário.

Sem querer ensinar Padre Nosso ao vigário, é bom recordar que em brigas desse tipo, usa-se um tiro só. Certeiro e definitivo. Como? Rebater a crítica de uma vez só. Pensada e fatal! Bate-boca arrasta o óbvio.

A Copa do Mundo está muito difícil em Cuiabá. A cidade vem sucateada há décadas e não oferece sequer condições de ser planejada. A Copa virá, de um jeito ou de outro, a menos que os representantes públicos se esforçarem pra que isso não aconteça. Mas aí, estaremos falando de outra coisa. Estaremos falando de política predatória do tipo “quanto pior, melhor!”.

A sociedade cuiabana não pode crer que o senador Pedro Taques jogue esse jogo rasteiro pensando numa derrota deste tamanho pra Cuiabá, pensando nas eleições municipais deste ano e
na de governador em 2014. Definitivamente não!

Ontem, escutei uma informação alarmante: a de que procuradores federais em Mato Grosso virão em socorro do senador Pedro Taques construindo uma enxurrada de representações contra o secretário
Eder Moraes, contra o governador Silval Barbosa e contra o governo do Estado. Nunca escutei coisa mais irresponsável, se for mesmo verdade. Tão irresponsável que não dá para acreditar.

Uma coisa, porém, acaba interessante nisso tudo. O Governo de Mato Grosso, que vem calado diante das críticas e das crises, criou a oportunidade de ter um porta-voz: o secretário Eder Moraes.

O governo e o governador têm recebido em silêncio críticas de todos os lados, desestabilizando gradualmente a administração. De repente, não está faltando um porta-voz com coragem e ousadia?

Se for, a crise entre o senador Pedro Taques e o secretário Eder Moraes lembra aquele ditado popular: atirou no que viu e acerto no que não viu. Deu chance de aparecer um indispensável porta-voz
do governo que há muito tempo está faltando.

ONOFRE RIBEIRO é jornalista em Mato Grosso.
[email protected]

Fonte: http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=262&cid=109512

As investigações promovidas pela Corregedoria do CNJ – Conselho Nacional de Justiça, que se se intensificaram depois da posse da Ministra Eliana Calmon, que causou celeuma entre os integrantes do poder judiciário brasileiro após a Ministra Eliana referir-se à existência de “bandidos de toga”, durante o ano passado, foram legitimadas, nesta tarde, pela votação no pleno do STF da tese de que sim, compete ao CNJ e à sua corregedoria, atuar de forma complementar às corregedorias dos tribunais de justiça ou mesmo substituí-las em caso de sua inoperância.

É verdade que o placar da votação do STF foi apertado, 6 x 5, mas isto não importa. O importante é saber que com esta vitória um passo enorme no sentido de romper com a “caixa preta” do Judiciário, como se referiu o ex-presidente Lula, quando da sanção da emenda constitucional que aprovou a criação do CNJ.

Um passo que assegura a definitiva instalação de uma instância de crítica no poder judiciário, um órgão verdadeiramente de controle externo, tal qual se desejava quando da aprovação da emenda 45, que quebre com o regime de acobertamento e conluio corporativista que vigorou no judiciário brasileiro por décadas, reforçado pela imposição do silêncio durante o regime da ditadura militar.

É uma noite para comemorar um passo que representa nossa oportunidade de assegurar um avanço institucional muito relevante. Comemorar que estejamos com uma Corregedora Nacional de Justiça como a Ministra Eliana Calmon, que já se converteu em uma das expoentes da democracia brasileira, pela sua firmeza, coragem e dignidade no enfrentamento do levantamento das corporações de juízes que pretendiam tolher-lhe os movimentos. Comemorar que o país segue emitindo lampejos de democratização, ainda que crimes como os cometidos no Pinheirinho, em São José dos Campos, reproduzam cenas da vigência da ditadura no país e de grupos de direção política perfeitamente alinhados com o uso das forças de repressão contra a população.

Mas, é assim mesmo: os avanços da democracia não são lineares e nem conferidos pelas classes abastadas, são resultados da luta social, da luta política, da conduta ética e da coragem daqueles que mantém vivos os ideais e as utopias de uma sociedade justa e livre.

Parabéns, Ministra Eliana Calmon.

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