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Este conceito de que o PT se arvorou em paladino da ética é uma construção política que teve a imprensa como uma das principais defensoras.

Ora, o PT não nasceu com esse discurso. Afirmar isso é um equívoco. Quando se observam os documentos partidários do início dos anos 80, observa-se claramente um outro perfil de temas abordado. O conteúdo da discussão do PT era essencialmente político. Por exemplo, o PT tratava da temática da democracia e do socialismo. Por isso discutia que não seria um partido de perfil centralista e firmaria um modelo que simultaneamente o identificasse como partido de quadros e de massa, enfrentando via manutenção da ambivalência uma longa discussão dos partidos, organizações e intelectuais socialistas e comunistas em todo o mundo. Disso decorrerar as resoluções que discutiram a política de nucleação, de institucionalização das tendências internas, de formação política dos militantes, de cotização, de composição proporcional das direções em todas as instâncias, dentre outras. Vejam que a gama de temas centrados no conteúdo político era absolutamente fundamental na estruturação de seu perfil interno.

Ao mesmo tempo em que investiria em criar internamente o ambiente democrático, o PT investiu no reconhecimento e legitimação dos mecanismos da democracia representativa, diferentemente de muitas organizações existentes na história dos movimentos “de esquerda”. Então, o PT decidiu desde cedo ingressar na seara das disputas eleitorais, por meio das quais pretendia assegurar a oportunidade de ampliar sua interlocução com a sociedade e mesmo que nos parcos limites do capitalismo, introduzir inovações políticas que apontassem para rumos de transformação social.

O PT, depois de apoiar firmemente as greves gerais contra os decretos-lei que reduziam salários em 1982-1983, lançou em novembro de 1983 a primeira mobilização em torno da proposta das eleições diretas para presidente, que logo serviu de rastilho para incendiar a sociedade com as manifestações em torno das Diretas Já.

Após a posse de Sarney, em 1985, o PT encampou fortemente o movimento em favor da nova Constituição e lutou para que a Assembléia Constituinte fosse autônoma em relação ao Congresso, o que não se conquistou. Então, o PT participou ativamente da campanha pela eleição dos seus representantes para o Congresso Constituinte, elegendo, se não me falha a memória, 16 deputados federais constituintes. Militantes petistas empenharam-se em participar de toda a mobilização que se converteu no Fórum Pró-Participação Popular na Constituinte, na coleta das assinaturas para apresentar sugestões de projetos de lei à Constituição. Simultaneamente a isso, nas localidades onde possível, como Diadema (SP) ou Vila Velha, no Espírito Santo, à frente ou não de administrações municipais, militantes petistas que ao mesmo tempo exerciam papéis de liderança nos movimentos de associações de moradores, iniciavam as discussões em torno do orçamento público, chegando no caso de Vila Velha à criação de uma Comissão Municipal do Orçamento, que pode ser considerada um dos embriões do Orçamento Participativo.

Ao fim da Constituinte, o PT elegeu um grupo de prefeitos, dentre quais figuravam, por exemplo, a Luíza Erundina (SP) e o Olívio Dutra. Neste tempo, a discussão sobre a viabilização de formas democráticas de gestão pública valorizava a temática dos “conselhos populares”, cujas raízes teóricas estavam na luta pelas comissões de fábrica e, em certa medida, nos anseios da autogestão. Tais formulações e debates, como demonstra Luciano Fedozzi, estiveram subjacentes a toda a discussão que deu vitalidade à experiência do OP em Porto Alegre e que projetou a cidade como modelo de gestão pública democrática. É importante destacar que a afirmação desse modelo fazia contraponto àquele que apontava Curitiba como referência para um modelo “gerencial” que supostamente representaria a neutralização da politicidade.

Em 1989 veio a primeira campanha de Lula à presidência e os debates de teor econômico chegaram a tal intensidade que o representante da Fiesp chegou a proclamar a fuga dos empresários do país em caso de vitória de Lula.

O tema da ética na política ganhou evidência no decorrer da gestão Collor, mas não como um conteúdo de debate ético ou filosófico e sim como conteúdo inerentemente político: Collor mentira sobre o caso Lurian, para distorcendo os fatos, eleger-se; o debate fora radicalmente manipulado e distorcido pela Globo; Collor mentira sobre a temática da poupança. Ou seja, a eleição havia sido correta em seus procedimentos e proclamação de resultados, mas fraudada em sua legitimidade. A estes fatos, juntaram-se, logo depois, as informações de que o “caçador de marajás” mantinha sob sua alçada um grupo liderado por PC Farias, que fora tesoureiro de sua campanha, que aplicava-se à sua verdadeira caçada: o assalto aos cofres públicos.

Foi na CPI que resultou na cassação de Collor que a discussão da ética na política converteu-se em bandeira política, característica que manteve posteriormente. Note-se, entretanto, que não figurou como bandeira única. Surgiram inúmeras outras, discutindo as medidas de FHC: a crítica ao Plano Real; a rejeição das privatizações, incluindo as lutas contra os leilões; a discussão da valorização do funcionalismo público contra o modelo de terceirização adotado por FHC; etc.

Como se depreende, é ideológica e inadequada a interpretação de que o tema da ética na política ocupou a primazia da caracterização do PT para a sociedade. O PT foi muito mais associado às lutas populares, que merecia a crítica segundo qual isto fazia dele o partido da “baderna”, do que ao debate moral da ética na política.

Texto publicado originalmente no blog do jornalista Luis Nassif, como comentário, no dia 03/10/2012

Está difícil de acompanhar o ritmo das notícias sobre a eleição municipal em São Paulo. Ontem, a manhã começou com o receio de que Luiza Erundina rompesse a chapa majoritária com Fernando Haddad, em que fora convidada para ocupar o posto de vice-prefeita.

Pouco depois, no começo da tarde, Erundina declarava que, apesar de não sentir-se confortável com a aliança firmada com o PP, estaria na chapa, porque não era pessoa de recuar.

Mais algumas horas se passaram e surgiu a notícia de que o PSB reuniu-se e Erundina já não estaria mais na chapa de Haddad. Haja dinamismo.

Pesquisa reforça chance de novo duelo PT-PSDB
Autor(es): JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, DANIEL BRAMATTI
O Estado de S. Paulo – 19/06/2012

Segundo instituto Datafolha, intenção espontânea de voto é maior para José Serra e Fernando Haddad

A pesquisa espontânea do instituto Datafolha reforça a possibilidade de polarização da disputa paulistana entre o tucano José Serra e o petista Fernando Haddad.

Segundo a pesquisa, divulgada no domingo, Serra lidera com 30% de intenção de voto estimulada – quando o entrevistado vê o nome dos candidatos na cartela -, mas menos de um terço desses eleitores (9%) sabe dizer espontaneamente o nome do tucano. Serra lidera nos dois critérios, mas é também um dos líderes em rejeição: 32% não votariam nele de jeito nenhum.

Fernando Haddad multiplicou por quatro sua intenção de voto espontânea e chegou aos mesmos 4% de Celso Russomanno (PRB). Isso é metade da intenção de voto estimulada do petista. O potencial de voto de Haddad aparece nas outras respostas espontâneas dos paulistanos sobre em quem votariam se a eleição de prefeito fosse hoje: 6% em Marta Suplicy (PT), 3% “no candidato do PT” e 1% em Lula.

Para esses 10%, teoricamente, bastaria que soubessem que Haddad é o candidato do PT e de Lula para passar a declarar voto nele. Com isso, o petista chegaria a 14% na estimulada. Já Serra teria, além dos seus 9% declarados, outro 1% dos que dizem que votariam em Geraldo Alckmin (PSDB).

Celso Russomanno aparece em segundo lugar na estimulada, com 21%. O apresentador da Record vem se tornando mais conhecido a cada rodada de pesquisa, mas só 1 em cada 5 eleitores potenciais seus sabe dizer seu nome espontaneamente.

Gabriel Chalita (PMDB), que teve alta exposição em programas de televisão recentemente, apenas oscilou na pesquisa estimulada, de 7% para 6%.

A quatro meses da eleição, só 1 em cada 5 eleitores sabe dizer espontaneamente em quem votaria, se a eleição fosse hoje, segundo o Datafolha.

Isso significa que a eleição não está na cabeça das pessoas. Nessas circunstâncias, a intenção de voto estimulada é mais um indicador de conhecimento do que um sinal de voto determinado.

Se o eleitor não parou para pensar no assunto, é mais provável que ele mude de opinião. E isso tende a acontecer a partir do início do horário eleitoral no rádio e na TV, em agosto. Haddad e Serra terão o maior tempo de propaganda na TV.

A eleição municipal da cidade de São Paulo é absolutamente central em qualquer estratégia política que se pretenda traçar no país.

São óbvias as razões: São Paulo é a maior cidade do país, em termos populacionais; sua influência, é direta na vida de quase 25 milhões de pessoas que compõe a região metropolitana; todos os grandes grupos econômicos do país, com raríssimas excessões, estão sediados na capital paulista; a cidade reúne a grande maioria dos agentes financeiros atuantes no país; etc.

É por isso que influir em seu resultado é determinante e um anseio de todas as forças políticas que se movem no país, disputando palmo a palmo os centímetros do poder.

Na semana que passou, o grande e eloquente acontecimento político brasileiro foi a aceitação de Luiza Erundina ao convite para participar da campanha municipal como candidata a vice-prefeita, unindo-se, na composição política entre PT e PSB, à Fernando Haddad, como candidato a prefeito.

Luiza Erundina é uma grande mulher e uma militante cuja trajetória orgulha a qualquer pessoa de bem. Essa trajetória política e pessoal constituem seu patrimônio, tanto político quanto material. Mais do que uma militante, Erundina é um símbolo, representa a dignidade e o compromisso do agente político com os setores pobres da sociedade. Na capital paulista, mesmo passados 20 anos do término de sua gestão, a memória de seu posicionamento prossegue viva. Este é um cacife valioso na cidade. É forte a identificação de Erundina com o eleitorado paulista, portanto.

Fernando Haddad, ex-Ministro da Educação do presidente Lula e da presidenta Dilma, traz consigo o reconhecimento de sua extrema capacidade intelectual, mas também o resultado efetivo de sua gestão no Ministério da Educação. Sua força é proveniente, portanto, de uma brilhante síntese entre a capacidade teórica e operacional, em que ganha realce também o fato de que suas realizações sempre tiveram o recorte da promoção da inclusão social e da luta pela igualdade dos cidadãos. Apesar disso, Haddad enfrentará o desafio de jamais ter sido exposto às urnas e ao crivo do eleitor. É verdade que esta variável já foi objeto de uma maior valorização pelos analistas políticos do que hoje, depois da experiência exitosa da candidatura Dilma Roussef, em que se pode observar com clareza que outras determinações de teor muito mais políticos tinham maior influência da decisão do eleitor, o que revelou o crescimento da interpretação política do eleitorado brasileiro.

Como eu disse pouco antes, a união entre Fernando Haddad e Luíza Erundina, portanto, é facilmente compreendida em sua importância. Se pesa contra Haddad jamais ter sido candidato antes, a companhia de Erundina em sua chapa amortizará por completo esse problema. Neste cenário, consolida-se um campo progressista com grande força e muita energia para agregar o eleitorado paulista, fato que amedronta sobremaneira o bloco conservador encastelado tanto no governo estadual quanto municipal de São Paulo, que já declarou, muitos meses atrás, andar unido, novamente, pela candidatura de José Serra, em que pesem as dificuldades em sustentar Serra como candidato.

A mídia conservadora, por sua vez, não poderia deixar de tentar intervir na disputa, mesmo que ao custo de fabricação de embustes, como já viciou-se a agir nos anos recentes.

Neste caso, o falso problema que a mídia conservadora quer impor para a discussão é o da suposta adesão de Paulo Maluf à chapa Fernando Haddad e Erundina, que neste jogo baixo do diz-que-me-diz e da boataria política seria o desmentido da utopia de uma chapa política de alto comprometimento ideológico transformador. Ou seja, a aliança Haddad-Erundina, que teria por objetivo reativar o sonho do “velho PT” altamente militante, fortemente engajado nas lutas sociais e de nítidos posicionamentos de transformação social seria apenas uma ficção construída para enganar o eleitor paulista e ganhar dele a simpatia eleitoral.

O que a mídia quer que o eleitor paulista pense resume-se do seguinte modo: “se o “renascimento” do sonho do “velho PT” fosse verdadeiro, então seria de se esperar a rejeição de Paulo Maluf, inimigo declarado do PT desde sempre”.

Com isso, ela pretende inocular na veia do eleitorado paulista o vírus com qual pretende produzir a vacina contra o fortalecimento ideológico da disputa eleitoral. E essa estratégia explica-se facilmente: trata-se do velho vício de dizer que o PT e a demais forças de esquerda são absolutamente iguais aos demais partidos que primam pela fisiologia na hora de fazer política. A estratégia visa igualar todas as forças, eliminar as diferenciações, porque na geléia geral que a mídia pretende é mais fácil induzir o eleitor ao erro.

Em campanhas fortemente politizadas e polarizadas, a campanha eleitoral converte-se, ela mesma, em movimento social, gerando inovação cultural e política, de grande influência sobre as posturas seguintes do eleitor inclusive no pós-eleição. Eis o que a mídia teme.

Mas, os fatos em nada asseveram o que a mídia relatou. Como disse acima, o acontecimento da semana foi o ato em que a composição Fernando Haddad e Luíza Erundina se deu. Maluf, obviamente, não esteve presente. Maluf sequer pronunciou-se a respeito. Então, de que cartola a mídia tirou que Maluf entrou na mesma aliança?

Da decisão do PP nacional de compor a aliança em termos de cessão de tempo de Tv para a campanha Haddad – Erundina. Com o tempo de TV do PP, a candidatura de Fernando Haddad superará o tempo de Serra na Tv e vai converter-se numa força política ainda maior.

Maluf não esteve no ato da candidatura Haddad-Erundina, não se posicionou a respeito, não deliberou sozinho pela concessão do tempo de Tv à Haddad, que foi realizada pela instância nacional do PP, que ocupa o Ministério das Cidades do governo desde o governo Lula. Mas, para a imprensa paulista e nacional, o chamado PIG, segundo Paulo Henrique Amorim, nada disso importa.

Essa imprensa conservadora, acuada que está, continua tentando resistir à sua perda de credibilidade, tentando fabricar factóides para impedir a mudança da estrutura sócio-política do país. Esse jogo em torno de Maluf é apenas mais uma armadilha.

Que os eleitores não se deixem enganar.

6 de Março de 2012 – 19h41

Em decisão terminativa, por unanimidade, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado, aprovou nesta terça-feira (6) o projeto de lei da Câmara (PLC 50/11), que declara o educador Paulo Freire patrono da educação brasileira. Caso não seja apresentado recurso para votação da matéria em plenário, o texto seguirá diretamente para sanção da presidente Dilma Rousseff.

O projeto, que teve como relator na comissão o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), é de autoria da deputada Luiza Erundina, que nomeou Freire como seu secretário de Educação, quando foi prefeita de São Paulo, a partir de 1989. Segundo a deputada, Freire, falecido há 15 anos, provocou então uma “verdadeira revolução educacional na cidade de São Paulo”.

Paulo Freire nasceu em Recife em 1921, ficou órfão aos 13 anos e enfrentou uma “infância difícil”, como observa a deputada na justificativa de seu projeto. Formou-se em Direito, mas nunca exerceu a advocacia.

Foi em 1960 que desenvolveu um método “simples e revolucionário” de alfabetização de adultos. Durante o governo do presidente João Goulart, coordenou o Programa Nacional de Alfabetização, que tinha o objetivo de alfabetizar cinco milhões de pessoas.

O criador da “pedagogia da libertação” chegou a ser preso em 1964, exilando-se depois no Chile e percorreu diversos países, sempre levando o seu modelo de alfabetização, antes de retornar ao Brasil, em 1979, após a publicação da Lei da Anistia.

A partir da década de 60, observou o relator do projeto, a “pedagogia da libertação” passou a simbolizar a contribuição de Freire ao pensamento pedagógico mundial.

“Paulo Freire é um dos brasileiros mais conhecidos no exterior. Um brasileiro que tem bustos em praças e é nome de rua em países da África e América Latina. Seus livros foram traduzidos para diversos idiomas e se transformaram em clássicos do pensamento relacionado à educação em todo o mundo. Houvesse um Prêmio Nobel para a educação, Paulo Freire possivelmente teria sido agraciado”, disse Cristovam.

Fonte: Agência Senado

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