Posts Tagged ‘conservadorismo social e político’
http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/arnaldo-jabor/2012/03/08/MULHER-NAO-E-UM-ENIGMA.htm
Como não poderia deixar de ser, tratando-se da Rede Globo, através da CBN, o teor do pronunciamento é assustador para todos aqueles que lêem criticamente a história e que posicionam-se favoravelmente aos avanços da democracia e dos direitos humanos. Arnaldo Jabor, com extremo requinte, embala sua peça retórica em elevada sutileza, capacidade que lhe é evidente, e conduz o argumento de tal modo que, seguindo sua lógica, fica plantada a semente da rejeição da celebração, no dia 8 de março, do Dia Internacional da Mulher.
Jamais eu havia visto, sequer nos anos do regime militar, alguém que tivesse a coragem e a disfaçatez de voltar-se contra a celebração do dia 8 de março.
Vejam a maestria sedutora dessa peça do conservadorismo social e político que só poderia resultar da esgrimia boçal de Arnaldo Jabor:
Ele começa trazendo para o discurso algo absolutamente inconteste: não existe “a” mulher, como peça de idealização abstrata do idealismo filosófico, claro, afirmação irrefutável. Existem as mulheres, cada uma com sua característica, sua trajetória, sua personalidade e seus ideais.
A essa afirmação inconteste, Jabor acrescenta uma afirmação que não encontra alicerce em nenhum estudo ou pesquisa sobre a construção do discurso acerca das mulheres: que, ao invés de referir-se às mulheres concretas, a referência à mulher “genérica” seria uma construção teórica dos “machos” para acentuar seu papel protetor!!!
Ele é realmente um gênio do marketing: começou atraindo a concordância universal dos ouvintes para nadando sobre ela inserir uma afirmação desprovida de qualquer fundamento e com isso convocar as mulheres à um sentimento subliminar de rejeição dessa suposta ardileza masculina.
Obviamente, ele não explicou quando foi que os homens reuniram-se em assembléia ultrapassando suas imensas divergências para deliberarem sobre essa estratégia de generalização da figura feminina para manter sobre as mulheres seu domínio.
Assim como ele também não explicou como foi que o dia 8 de março começou a ser celebrado, nem sua motivação. Lógico: alguém pago pela Rede Globo, utilizando-se de sua máquina de dissimulação e de difusão do conservadorismo, iria informar que a Celebração do Dia Internacional de Luta das Mulheres nasceu como decisão dos trabalhadores e das trabalhadoras de sindicatos de dezenas de países para homenagear trabalhadoras assassinadas pelos patrões no capitalismo dos Estados Unidos do século XIX?
Lógico que o Jabor não iria dizer que aquelas trabalhadoras entraram em greve dentro das fábricas para combater o regime de alta exploração do trabalho em jornadas fustigantes de 16 horas por dia de trabalho a que eram submetidas elas e seus filhos – as crianças eram usadas debaixo das pesadas máquinas por serem pequenas – no nascente capitalismo industrial americano.
Lógico que o Jabor não iria dizer que aquelas trabalhadoras foram trancadas na fábrica que depois foi incendiada por ordem dos empresários capitalistas para que, além de matar aquelas grevistas, deixar claro o tratamento que o capital daria a quem a ele se opusesse.
Omitindo a luta concreta das trabalhadoras e o sofrimento que suas mortes representou para todos os trabalhadores que desenvolviam sentimentos de solidariedade internacional de classe, Jabor pode dizer que não há o que se celebrar, uma vez que não existem mulheres “genéricas”.
Mas, para quem estuda o tema das relações sociais de produção, dos processos históricos, das conquistas dos movimentos populares e sociais, das lutas dos trabalhadores e das relações de gênero com respeito pelos acontecimentos e honestidade intelectual, não há como não se ofender com a boçalidade desse áudio de Arnaldo Jabor.
8 de março deve ser uma festa de homens e mulheres do mundo inteiro. Uma celebração do brio, da fibra e da dignidade. Do destemor ante a opressão. Não importa o nome que se lhe dêem os empresários e publicitários. É claro que eles vão tentar menosprezar a dimensão da luta anticapitalista da data. Vão acentuar a dimensão psicológica, o papel da mulher no lar, sua autonomia. Vão mostrar o espaço obtido por algumas empresárias ou executivas. Eventualmente, serão obrigados a citar a luta pelo direito ao voto.
Quando uma extraordinária mulher, Dilma Roussef, assume a Presidência da República, sucedendo a um extraordinário presidente operário, Lula, sem título universitário, estragando com a estratégia minimalista das empresas de comunicação reacionárias, serão obrigadas a reconhecer o papel das mulheres na luta contra a democracia, inclusive com o sofrimento da sevícia e da tortura, mas vão tentar fazer parecer que isso se tratou apenas de luta no campo das idéias, pura “ideologia” dos “revolucionários”, como se sua ideologia não se alimentasse dos processos de lutas sociais travadas em todos os campos da realidade do país, na discussão da posse da terra, da propriedade, do trabalho.
Jamais ouvi uma barbaridade tão grave e de tamanho desrespeito pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores que constróem a solidariedade e gestam no seu interior todos os direitos democráticos que hoje defendemos e lutamos para implantar.
Abaixo a Globo, abaixo a CBN, abaixo o Arnaldo Jabor!
Viva o dia internacional da mulher, o dia internacional das lutas das mulheres, o dia 8 de março!
Gostou deste Artigo?
Inscreva-se para acompanhar o nosso RSS feed!




