Posts Tagged ‘compreensão mútua’

A comunicação humana é um fascínio porque encontra formas mil para que se expressem os sentimentos e os sentidos que se pretendem transmitir.

Começa-se com o diálogo e, nele, já se observam as combinações entre as palavras, os gestos, os olhares, os movimentos do corpo. Ainda que a ênfase esteja com a palavra. Mas, não apenas a fala comunica, todos sabem. Os gestos comunicam, e muito. Na fala, encontram-se formas diversas também, presentes muitas das quais nas figuras de linguagem, das alusões, das insinuações.

O que a fala conceitual diria com clareza, as figuras de linguagem dissimulam e dizem ao mesmo tempo em que parecem exprimir o diverso. Para o bom entendedor, entretanto, meio ponto é letra, diz o ditado popular.

Mas, toda esta variedade, ao mesmo tempo em que enriquece e explicita a complexidade da comunicação humana, impõe-nos um enorme desafio, de traduzir, mesmo o que o nos é dito em nosso próprio idioma, a todo instante. E a tradução também não se resume a uma identificação de significados precisos para os termos empregados na palavra alheia, mas é também um ato inventivo, uma “transcriação” (Haroldo de Campos), que ao mesmo tempo em que apreende o dito pelo outro representa a reorganização de sentido que fazemos. Observe que noto este fenômeno ocorrendo a todo instante mesmo entre os falantes do mesmo idioma. que ficam obrigados a um esforço obrigatório para que se compreendam mutuamente.

É por isso que o diálogo não representa muito se estiver desvinculado da história, da vivência comum. A soma gradativa e cotidiana dos pequenos gestos e das ações é capaz de permitir a compreensão do significado que se tentou produzir com a palavra, minimizando o risco da transcriação ser na verdade uma deturpação de sentido do que o outro tentou expressar.

Entramos, então, sob certo aspecto, no desafio de entender as precedências: a fala, o diálogo verbal, o pedido precedem a vivência em comum ou são aquisições cotidianas cada vez mais intensas de um processo que envolve as demais dimensões da vida, tais como a afetividade, o lúdico, a sexualidade, a partilha econômica e o trabalho?

Que o esforço para buscar esta resposta não signifique, em nossas vidas, o desprezo pelo viver, a única ressalva que faço, porque os dias, nem as noites, não voltam jamais, e não existem compensações para o que se desperdiçou enquanto oportunidade.

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