Posts Tagged ‘Carlinhos Cachoeira’

Ação típica de grupo de extermínio
Correio Braziliense – 18/07/2012

Investigação aberta pela PF ajudará a Polícia Civil a apurar as circunstâncias do crime, possivelmente cometido por vingança ou queima de arquivo. Segundo agentes, há indícios de que o assassino agiu sozinho e tinha conhecimento militar

A Polícia Federal abriu ontem investigação para apurar as circunstâncias do assassinato do agente Wilton Tapajós Macedo, morto com dois tiros na nuca durante visita ao túmulo dos pais, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Apesar de a apuração do crime ser de responsabilidade da Polícia Civil do DF, a PF atuará no caso. Isso porque, entre as hipóteses que motivaram o assassinato, estão vingança e queima de arquivo. “Determinei ao secretário de Segurança (Sandro Avelar) rigor nas investigações”, afirmou o governador do DF, Agnelo Queiroz, em viagem a Cingapura. Avelar disse ao Correio que dará prioridade ao caso e prometeu resolver o crime com rapidez. “A Polícia Civil vai comandar as investigações e já está dedicada a resguardar o local onde o crime foi cometido.”

Tapajós era agente do núcleo de inteligência da corporação e o seu último grande trabalho de investigação foi o monitoramento dos passos de integrantes da quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira, no âmbito da Operação Monte Carlo (leia Memória). Além dos criminosos investigados pelos policiais federais, os responsáveis pela apuração do caso farão entrevistas com familiares da vítima para elaborar uma possível “lista de desafetos”.

Agentes da Superintendência Regional da PF em Brasília informaram ao Correio que o resultado do exame de balística será uma das principais evidências para desvendar as circunstâncias do assassinato. Até a noite de ontem, a polícia ainda não havia chegado a uma conclusão sobre o calibre e o tipo de arma usada no crime. Após a perícia, os investigadores poderão saber qual é o perfil do criminoso e se o armamento do assassino é de uso restrito de policiais e militares.

O suposto profissionalismo do criminoso levantou a suspeita de “execução sumária” realizada por homem com treinamento militar, hipótese que pode ser confirmada no exame de balística — mas ainda não havia informações sobre a quantidade de pessoas envolvidas até o fechamento da edição. O fato de o criminoso ter se deslocado até o local do crime sem usar veículo próprio, fugindo com o carro do filho do agente, configurou o que os policiais chamam de simulação de latrocínio, método usado por integrantes de grupo de extermínio.

Na tarde de ontem, a polícia requisitou imagens da câmera de segurança que fica na saída do cemitério para tentar identificar os possíveis envolvidos.

Até agora, os federais acreditam que o responsável pela execução de Tapajós agiu sozinho. O esforço conjunto das polícias Civil, Militar e Federal ganhou o apoio da Polícia Rodoviária Federal, mobilizada para controlar a movimentação de veículos suspeitos nas vias próximas às cidades do Entorno. Os investigadores desconfiam que o assassino esteja perto de Brasília. Equipes estão fazendo uma varredura em áreas rurais e de pouca ocupação em busca do carro do filho da vítima, que, de acordo com os policiais, deve ter sido abandonado e pode servir de pistas para encontrar o criminoso.

Monitoramento

Relatórios de vigilância da Operação Monte Carlo indicam que o policial federal assassinado ontem era um dos principais agentes externos da equipe do delegado Matheus Mella Rodrigues. Ele e outros sete agentes são elencados nos documentos como os responsáveis por fotos e vídeos de encontros de comparsas de Carlinhos Cachoeira com policiais e donos de pontos de bingos.

Documentos da Operação Monte Carlo obtidos pelo Correio mostram que Tapajós monitorou, por exemplo, Lenine Araújo de Souza, apontado como um dos contadores e gerente da organização criminosa comandada por Cachoeira. Ele acompanhou um encontro com suspeitos na churrascaria Portal Grill, em Águas Claras, em 14 de abril do ano passado. O trabalho de monitoramento rendeu à operação um flagrante do encontro de Lenine com PMs de Goiás. No relatório, o policial descreve que os homens que se encontraram com o gerente da quadrilha de Cachoeira usavam carros da Secretaria de Segurança de Goiás.

Além de Lenine, o agente da PF morto foi o responsável pela investigação de Valmir José da Rocha. O comparsa do contraventor é apontado no inquérito como um dos operadores de Cachoeira. Laudos de movimentação financeira mostram que ele, assim como o contador Geovani Pereira da Silva, era um dos principais recebedores de recursos do esquema. As investigações apontam que ele emprestava sua conta-corrente para “esquentar” o dinheiro da contravenção. Relatório de investigação da ex-servidora da prefeitura de Luziânia Sônia Regina de Melo também foi de responsabilidade de Tapajós.

Memória

Organização criminosa

A Operação Monte Carlo teve início no fim de 2010, quando a Polícia Federal mobilizou uma equipe para apurar esquema de contravenção em Goiás que envolvia grandes empresários e autoridades públicas. A ampliação de casas de bingo ocorreria com a anuência da Polícia Militar e gente influente do Estado, de acordo com apurações iniciais.

No decorrer das investigações, a PF descobriu que Carlinhos Cachoeira era o chefe da organização criminosa. O bicheiro foi preso em 29 de fevereiro dando início a uma série de prisões que alcançou outros 27 envolvidos. Operação de busca na casa dos suspeitos levou à apreensão de pelo menos 22 veículos, milhares de dólares, euros e 18 relógios avaliados em mais de R$ 400 mil.

O vazamento de grampos revelou participação de Demóstenes Torres — ex-senador que perdeu na última semana o mandato graças à ligação com Cachoeira — deputados federais e prefeitos com o esquema de contravenção. Suposta participação do governador de Goiás, Marconi Perillo ainda é investigada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada no Congresso para apurar a atuação de Cachoeira com autoridades públicas.

Além das autoridades com cargo eletivo que caíram nos grampos da Polícia Federal, a investigação conseguiu encontrar participação direta de 35 policiais da Civil, Militar e da própria Polícia Federal que foram denunciados por formar a organização criminosa.

Após a criação da CPI do Cachoeira, o juiz Paulo Augusto Moreira Lima, que era substituto da 11ª Vara Federal em Goiás, e a procuradora da República Léa Batista de Oliveira afirmaram que sofreram intimidações por parte de acusados. O juiz foi afastado da 11ª Vara e perícia no computador da procuradora indicou que Adriano Aprígio, ex-cunhado de Cachoeira, teria enviado e-mail de intimidação à procuradora.

Dilma sanciona lei que reforça punição à lavagem de dinheiro
Autor(es): Por Maíra Magro | De Brasília
Valor Econômico – 10/07/2012

A presidente Dilma Rousseff sancionou ontem a nova Lei de Lavagem de Dinheiro, que incorpora exigências internacionais de combate a esse crime. Segundo o Ministério da Justiça, a lei 12.683 seria publicada sem vetos no Diário Oficial da União. A maior novidade é a expansão do conceito de lavagem, pela eliminação da lista de “crimes antecedentes” prevista na legislação anterior (Lei 9.613, de 1998). Outra mudança é a ampliação do rol de instituições obrigadas a comunicar operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

A lavagem de dinheiro é a ocultação ou dissimulação de recursos obtidos de forma criminosa. Tecnicamente, para acusar alguém de lavagem, é preciso apontar primeiro o crime que gerou os recursos ilícitos – o chamado “crime antecedente”.

O maior problema da legislação brasileira é que ela trazia uma lista de oito antecedentes à lavagem – tráfico de drogas e de armas, terrorismo, extorsão mediante sequestro, crime contra a administração pública e contra o sistema financeiro nacional, ou praticado por organização criminosa. Mas tudo o que estivesse fora da lista era excluído como hipótese para gerar a lavagem, o que restringia o combate a essa prática.

“Não era possível enquadrar recursos obtidos pelo jogo do bicho ou pela exploração de jogos de azar”, exemplifica o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Marivaldo Pereira. “A nova lei amplia as hipóteses em que o Estado poderá efetivar a punição.”

A nova lei não se aplica de forma retroativa, mas deve ser mencionada pelo Supremo Tribunal Federal durante o julgamento do mensalão, marcado para começar em 2 de agosto. Diversos dos 38 réus são acusados de lavagem. Outro caso em que pode ser debatida é o processo penal contra o grupo de Carlinhos Cachoeira, que envolve acusação de lavagem de dinheiro obtido por meio de jogos ilícitos.

Mais uma mudança da nova lei é a ampliação das instituições obrigadas a comunicar operações suspeitas ao Coaf. A Lei 9.613 incluía instituições financeiras, seguradoras, bolsas de valores, pessoas jurídicas que comercializam imóveis, joias, objetos de arte e bens de luxo. Agora entram na lista pessoas físicas, como corretores imobiliários, agentes que negociam direitos de atletas e artistas, além de empresas de transporte ou guarda de valores e de comercialização de bens rurais. “Fechamos algumas portas a mais”, diz o presidente do Coaf, Antonio Gustavo Rodrigues.

O teto da multa para quem deixar de comunicar movimentações suspeitas passa de R$ 200 mil para R$ 20 milhões. A nova lei admite ainda a venda antecipada dos bens usados na lavagem – bastando para isso uma ordem judicial. Pela lei anterior, a alienação dos bens só era possível após condenação definitiva, o que pode levar anos. “Até lá, os bens se deterioravam e não serviam mais nem para o Estado nem para o réu”, diz Ricardo Saadi, diretor do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), vinculado ao Ministério da Justiça. O DRCI coordena a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), onde se iniciaram as discussões da revisão legal.

As primeiras leis de lavagem tratavam da ocultação de recursos do tráfico de drogas. Uma segunda geração ampliou essas hipóteses. “O Brasil entra na modernidade com uma lei de terceira geração ao prever que qualquer crime possa ser antecedente à lavagem”, diz Saadi.

Fonte: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/7/10/dilma-sanciona-lei-que-reforca-punicao-a-lavagem-de-dinheiro

“Demóstenes é despachante de luxo de Cachoeira”, diz relator
Escrito por Daniela Novais 23:01:00 25/06/2012

Para o senador Humberto Costa (PT-PE), relator do processo contra Demóstenes Torres (sem partido-GO) no Conselho de Ética do Senado ele deve ser cassado, porque tinha um mandato focado nos negócios do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Em seu voto, favorável à cassação do mandato do senador por quebra de decoro parlamentar, ele afirmou que Demóstenes mentiu sobre as relações com Cachoeira, para quem atuava como um “despachante de luxo”.

Em seu relatório, Costa classificou como curiosa a justificativa de Demóstenes para o grande número de ligações telefônicas trocadas com Cachoeira, que teriam sido para discutir o problema conjugal que culminou com a separação da atual mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça, do suplente do senador, Wilder Morais, mas o assunto não constar nas interceptações da Polícia Federal.

Decoro – Costa sustentou que o colega mentiu ao afirmar desconhecer as atividades ilícitas de Cachoeira e afirmou que não considera possível Demóstenes não saber da “folha corrida” de Cachoeira, tendo sido secretário Segurança Pública e chefe do Ministério Público Estadual de Goiás e ironizou que Demóstenes teria dito que esqueceu de fatos recentes, portanto o senador estaria sofrendo de uma amnésia seletiva

O relator lembrou ainda que o envolvimento do bicheiro com máfias do exterior foi denunciado ainda na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos, em 2006 e da qual Demóstenes participou. “Tudo posto, é de se concluir que a vida política do senador Demóstenes Torres, desde 1999, gravita em tornos dos interesses de Carlinhos Cachoeira no ramo de jogos de azar”.

Defesa – Logo no início da sessão, a defesa teve 30 minutos para as considerações finais no processo. Demóstenes não compareceu à sessão e foi representado pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.

Ele buscou desqualificar as provas do envolvimento de Demóstenes com o grupo de Carlinhos Cachoeira. Ele negou que seu cliente tenha quebrado decoro. “Ele não praticou ato ilícito e não mentiu”, disse.

Quanto à cassação, Kakay disse que era uma atitude “desproporcional” atribuindo o julgamento ao fato dele ter recebido um telefone celular de presente.

Votação – O relatório foi aprovado por unanimidade. Agora o processo segue para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e de lá, segue para o plenário, onde o voto é secreto.

Os desafios da democratização dos meios de comunicação social no Brasil não são novos. E, cada vez mais, a sociedade brasileira se apercebe que o pequeno grupo das grandes empresas de mídia no país não apenas representam um empobrecimento relacionado ao cerceamento da expressão da grande diversidade das culturas no país nem apenas o risco do constrangimento político dos ideais de mudança social.

Somos impelidos, com pesar, a compreender que parte expressiva das empresas que monopolizaram a comunicação social no país a décadas compactuam com grupos e atividades criminosas, como se depreende, por exemplo, dos recentes diálogos transcritos das escutas da polícia federal neste trágico episódio de verdadeiro conluio entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres, o editor da revista Veja, da editora Abril, Policarpo Jr. e, pasmem, o ex-presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, juiz que agora devota-se em atacar o ex-presidente Lula para tentar criar um factóide que oculte o peso de seu comprometimento com Cachoeira e Demóstenes.

Com o acesso à internet e a difusão de novas tecnologias baseadas principalmente em códigos abertos no desenvolvimento de softwares, passar de consumidor de informações a produtor das mesmas tornou-se muito mais simples. Temos como exemplo as ferramentas de produção de blogs e as redes sociais, mediante quais milhões de pessoas puderam deixar o anonimato e converter-se em figuras publicamente conhecidas, criando novas esferas de convivência e difusão de opiniões.

Em consequência, os autores dos blogs, de modo especial, passaram a representar uma nova mídia, muito mais plural e democrática do que a velha mídia, representada pelas grandes empresas de comunicação. Outra consequência é a transformação desse grupo de autores de blogs em agentes de luta por uma nova ordem no mundo da comunicação social, num movimento que temos chamado de crescimento dos blogs progressistas.

Pois bem, os blogueiros progressistas já estão se encontrando em eventos estaduais, regionais ou nacionais e, abaixo, transcrevo as reflexões de um dos participantes do 3o. Encontro dos Blogueiros Progressistas, realizado recentemente em Salvador. Vale a pena ressaltar que a abertura desse encontro nacional contou com uma mensagem de apoio enviada pelo ex-presidente Lula, bem antes dos ataques desferidos contra ele por Gilmar Mendes.

Segue a reflexão, transcrita de um dos grupos do Yahoo em que sou participante:

O compa Antônio Fernando, que esteve presente no 3° Encontro Nacional de Blogueiros, em Salvador, me mandou esse e-mail e pediu para que repercutisse esse texto, com suas observações e reflexões sobre o caminho a trilhar a partir de agora. Apreciem, reflitam e compartilhem!

Oi Sérgio, tudo bem? abaixo uma proposta de reflexão a partir do IIIº BlogProg, uma contribuição ao BlogProg-Rio e caso v. considere adequado, do BlogProg-Rio à Coordenação Nacional. Deixo isso ao seu critério e encargo enviar-lhes, se for o caso, assim como ao AlterCom e ao Sem-Mídia. Qualquer comentário é benvindo. Abração e mais uma vez, obrigado pela oportunidade. Participar desse evento, me permitiu anotar coisas que nos podem ser úteis pro futuro.

29/05/2012 – “Nem mais, nem menos que a Constituição, uma proposta de reflexão a partir do IIIº BlogProg”
Antonio Fernando Araujo

Ninguém da companhia aérea nos socorreu, ansiosos que estávamos pra saber a razão de 4,5 horas de atraso. Um hábito que já se enraizou entre as nacionais e a Avianca – ex-OceanAir, que nos levaria a Salvador -, não fugiu a regra, e olhem, essa empresa, a rigor não é assim tão nacional, uma subsidiária da poderosa colombiana Avianca.

Por conta disso, a noite de sexta-feira, 25/05, foi perdida no Galeão-Tom Jobim e com ela o “ato político em defesa da blogosfera e da liberdade de expressão”, que inaugurou o IIIº Encontro de Blogueiros Progressistas, diante do mar de Tapamares, colado em Itapuã, Salvador, Bahia.

Os cerca de 300 blogueir@s que tiveram a sorte de estar presentes puderam testemunhar então o debate que se seguiu, do qual se destacou a fala de Franklin Martins, quando pareceu querer dizer que a produção de veículos impressos oriundos da mídia empresarial prescindiam da necessidade de regulamentação.
– Nada além da Constituição! disse naquele instante o ex-ministro das Comunicações do governo Lula. Foi algo que, inicialmente, talvez não tenha sido bem compreendido por alguns, quem sabe, por não terem percebido a tempo que a interpretação mais adequada dessa fala, no contexto em que foi pronunciada, significa apenas “nada mais, nada menos do que já consta na Constituição”.

Foi preciso o ministro Ricardo Levandowski, do seu assento no STF (Supremo Tribunal Federal), se apressar em desfazer esse mal-entendido, enviando aos blogueir@s aqui reunidos, através do jornalista Paulo Henrique Amorim (PHA), também presente, aquilo que logo pareceu uma espécie de recado histórico: “A Constiruição Federal, nos artigos 5º, incisos IV e IX, e 220, garante o direito individual e coletivo à manifestação do pensamento, à expressão e à informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, independentemente de licença e a salvo de toda restrição ou censura”, acentuando que tudo o que diz respeito aos direitos e deveres dos produtores de mídia impressa já está devidamente estabelecido na legislação em vigor, dela decorrente. Assim sendo, o que nos resta, é lutarmos para que o marco regulatório seja proclamado no âmbito dos veículos de comunicação que utilizam recursos eletrônicos e assim, assegurando-nos de forma inequívoca os mesmos deveres e direitos dos quais já goza a mídia impressa, à salvo portanto, de toda restrição ou censura. Isso tudo nos foi contado pelo PHA quando, na manhã chuvosa do sábado, 26/05, participou da Mesa da primeira atividade, ainda vinculada ao tema da noite anterior. E não apenas o ministro Lewandovski se pronunciara, acrescentou, mas outro ministro, também do STF, Ayres Brito, sabedor de nossas preocupações, cunhara uma frase para que não a esquecêssemos jamais: “a liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade”, sugerindo-nos que a mantivéssemos presente em todos os momentos do Encontro para que se tornasse recorrente na memória, tal como sucede com as tartarugas que, quando adultas, retornam a mesma praia onde nasceram e assim mantêm intacto o ciclo da vida.

Nem mesmo um eventual “excesso de liberdade”, prosseguiu PHA, porventura julgado presente em qualquer mídia, deve ser motivo de maiores preocupações. Dessa vez, se valendo de Alexis de Tocqueville, pegou carona em sua frase “o excesso de liberdade se corrige com mais liberdade”, para contrapô-la aos esforços que ora se verificam, provenientes da grande mídia empresarial, entre outros, que visam exclusivamente judicializar a censura, mas com o cuidado de ornamentá-la com um odioso e retrógrado amparo legal, ao mesmo tempo em que se constatam os esforços desses mesmos agentes, para limitar a liberdade de expressão da blogosfera, tirando do ar alguns sítios, bloqueando seus acessos, eliminando postagens, como se isso fosse uma grande conquista civilizatória e não apenas vestígios dissimulados de um período ditatorial quando alguns desses veículos empresariais de comunicação se juntaram aos esforços do militares no esforço de extinguir as liberdades.

Finalizou então deixando bem claro que diante dos termos da nossa Constituição, dos recados que, por seu intermédio, nos enviaram os ministros Lewandovski e Brito, da “palavra de ordem” de Martins e do que deixara escrito o historiador Tocqueville só restava a nós, blogueiros aqui reunidos, porventura processados por seus eventuais desafetos e condenados nas instâncias inferiores da justiça, levar seus recursos até o STF, de onde jamais se poderá supor que serão deixados ao desamparo da justiça.

Quando, finalmente, PHA conclamou a plateia no sentido de fazer dos próximos Encontros uma manifestação ampliada, fruto do alcance da blogosfera ficou claro que ele apontava para uma necessidade atual, sobre a qual reflito há algum tempo, do blogueiro se desfazer da ideia de que será capaz de sobreviver, mesmo que mantenha seu veículo à salvo de uma representatividade que obrigatoriamente lhe deve ser outorgada por uma sociedade na qual ele esteja inserido até o pescoço. Dois mil blogueiros ali presentes, “pobres, desdentados, índios e quilombolas”, ao invés de apenas trezentos, seria a expressão de um profundo diálogo que, aos meus olhos, se faz necessário e inadiável.

Talvez o ponto de partida se situe na compreensão mais aguda do papel do blogueiro como comunicador comunitário, desses interlocutores que estabelecem com uma porção social qualquer, uma relação tão abrangente que não raro se imagina ser ela suficiente para transformar o mundo. Como tal, nesta noite de sábado, não teríamos ficado tão “marginalizados, entregues à própria sorte”, numa cidade tão rica de manifestações artísticas e onde tantos blogueir@s mantem suas páginas com uma piedosa dedicação, perseverantes é verdade, mas tão isolados como se missionários fossem. Diante desses fatos, alguém terá dúvida quanto à oportunidade de uma reflexão sobre os passos vindouros direcionados para um entrelaçamento e um diálogo mais estreito com a sociedade como um todo?

Esses pontos acabaram permeando alguns dos debates que aconteceram, tanto no sábado quanto no domingo. Foram eles que, em parte, nos fizeram crer que se nossa luta “em defesa da blogosfera e da liberdade de expressão” pretende se tornar robusta não deve ficar circunscrita a cada blogueiro ou quando muito às ligações dele com outros ativistas. Muito pelo contrário, enraizado em seu meio social, torne seu veículo, também, um símbolo da expressão de desagrado de vastas e diversas camadas da sociedade, surfando pra valer na liberdade de expressão pela qual se empenha, “nada mais, nada menos”, ao sabor dos ditames da nossa Constituição. A certeza disso é que, embora estejamos mergulhados em um movimento de ideias que se manifestam através de uma grande variedade de blogs distintos, mas que, no entanto, participam de um “espírito” comum, a liberdade de expressão em suas denúncias críticas à grande mídia conservadora, só pontualmente somos capazes de repercutir com alarde e a cada instante o brado dos excluídos, dos sem-voz, dos sem-mídia, dos injustiçados enfim, dos 5.200 municípios deste país. Por conta disso não se percebeu um gesto sequer, originário dos 300 blogueir@os reunidos, solidário e alusivo à greve de mais de cinco dias, dos motoristas e cobradores de ônibus de Salvador. Coerente com essa convicção, PHA confessou-nos o quanto hoje se arrepende por ter, num passado recente e por ordem da primeira instância da Justiça, mandado retirar de seu blog algumas postagens.

Sem dúvida estamos diante de um baita desafio, posto aqui para que talvez possamos indicar um caminho para que todas as vozes se tornem audíveis, que se torne representativo o nosso blog e, talvez, até mais do que isso, legítima personificação de quem se propõe intérprete das necessidades, dos sentimentos, da ousadia, da criatividade, das esperanças de um agrupamento social. E quando aqui, limito-me a indicar um possível caminho, como se fosse um passo adiante, é porque alimento a convicção de que ninguém mais, além da cultura, pode proporcionar aos blogueir@s os espaços e os diálogos necessários para que essa caminhada comece sem mais tardanças, ao menos para que a gente não se pareça tanto com a Avianca e seus atrasos inexplicáveis, tão nefastos.

Sem menosprezar a complexidade das relações entre comunicação, cultura, produtores artísticos e de eventos culturais, veículos de comunicação (rádios, TVs e blogs comunitários), como parte de uma proposta de integração penso que assim podemos acenar para o advento de uma era em que blogueir@s não mais serão vistos apenas como especialistas em veicular ideias e posições políticas, não raro restritos a um círculo fechado de debates entre seus pares, mas ao contrário, ambicionando sair pelas ruas de sua comunidade consigam se posicionar com o que de mais essencial sua acuidade for capaz de capturar dos anseios da população, para que, “bem casados”, a robustez política e cultural que almejamos para os enfrentamentos com a classe dominante esteja ali, bem ao alcance da mão.

É evidente que não é aqui o espaço mais adequado para que esmiuçamos essa ideia, muito menos para proceder uma análise detalhada. Fica no entanto, a proposta para que esse tema possa ser visto e posteriormente estudado pela Coordenação e daí surjam iniciativas outras, indicativas de caminhos alternativos para o fortalecimento da blogosfera e, principalmente, das propostas políticas associadas a ela. O tanto que Franklin Martins, PHA, Ricardo Lewandovski, Ayres Brito, Alexis de Tocqueville e tudo o mais que palestrantes e blogueir@s presentes no IIIº Encontro de Blogueiros Progressistas contribuiram para a construção dessa trajetória, certamente nos servirá de muito.

Antonio Fernando

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