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Correio Braziliense – 18/07/2012
Investigação aberta pela PF ajudará a Polícia Civil a apurar as circunstâncias do crime, possivelmente cometido por vingança ou queima de arquivo. Segundo agentes, há indícios de que o assassino agiu sozinho e tinha conhecimento militar
A Polícia Federal abriu ontem investigação para apurar as circunstâncias do assassinato do agente Wilton Tapajós Macedo, morto com dois tiros na nuca durante visita ao túmulo dos pais, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Apesar de a apuração do crime ser de responsabilidade da Polícia Civil do DF, a PF atuará no caso. Isso porque, entre as hipóteses que motivaram o assassinato, estão vingança e queima de arquivo. “Determinei ao secretário de Segurança (Sandro Avelar) rigor nas investigações”, afirmou o governador do DF, Agnelo Queiroz, em viagem a Cingapura. Avelar disse ao Correio que dará prioridade ao caso e prometeu resolver o crime com rapidez. “A Polícia Civil vai comandar as investigações e já está dedicada a resguardar o local onde o crime foi cometido.”
Tapajós era agente do núcleo de inteligência da corporação e o seu último grande trabalho de investigação foi o monitoramento dos passos de integrantes da quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira, no âmbito da Operação Monte Carlo (leia Memória). Além dos criminosos investigados pelos policiais federais, os responsáveis pela apuração do caso farão entrevistas com familiares da vítima para elaborar uma possível “lista de desafetos”.
Agentes da Superintendência Regional da PF em Brasília informaram ao Correio que o resultado do exame de balística será uma das principais evidências para desvendar as circunstâncias do assassinato. Até a noite de ontem, a polícia ainda não havia chegado a uma conclusão sobre o calibre e o tipo de arma usada no crime. Após a perícia, os investigadores poderão saber qual é o perfil do criminoso e se o armamento do assassino é de uso restrito de policiais e militares.
O suposto profissionalismo do criminoso levantou a suspeita de “execução sumária” realizada por homem com treinamento militar, hipótese que pode ser confirmada no exame de balística — mas ainda não havia informações sobre a quantidade de pessoas envolvidas até o fechamento da edição. O fato de o criminoso ter se deslocado até o local do crime sem usar veículo próprio, fugindo com o carro do filho do agente, configurou o que os policiais chamam de simulação de latrocínio, método usado por integrantes de grupo de extermínio.
Na tarde de ontem, a polícia requisitou imagens da câmera de segurança que fica na saída do cemitério para tentar identificar os possíveis envolvidos.
Até agora, os federais acreditam que o responsável pela execução de Tapajós agiu sozinho. O esforço conjunto das polícias Civil, Militar e Federal ganhou o apoio da Polícia Rodoviária Federal, mobilizada para controlar a movimentação de veículos suspeitos nas vias próximas às cidades do Entorno. Os investigadores desconfiam que o assassino esteja perto de Brasília. Equipes estão fazendo uma varredura em áreas rurais e de pouca ocupação em busca do carro do filho da vítima, que, de acordo com os policiais, deve ter sido abandonado e pode servir de pistas para encontrar o criminoso.
Monitoramento
Relatórios de vigilância da Operação Monte Carlo indicam que o policial federal assassinado ontem era um dos principais agentes externos da equipe do delegado Matheus Mella Rodrigues. Ele e outros sete agentes são elencados nos documentos como os responsáveis por fotos e vídeos de encontros de comparsas de Carlinhos Cachoeira com policiais e donos de pontos de bingos.
Documentos da Operação Monte Carlo obtidos pelo Correio mostram que Tapajós monitorou, por exemplo, Lenine Araújo de Souza, apontado como um dos contadores e gerente da organização criminosa comandada por Cachoeira. Ele acompanhou um encontro com suspeitos na churrascaria Portal Grill, em Águas Claras, em 14 de abril do ano passado. O trabalho de monitoramento rendeu à operação um flagrante do encontro de Lenine com PMs de Goiás. No relatório, o policial descreve que os homens que se encontraram com o gerente da quadrilha de Cachoeira usavam carros da Secretaria de Segurança de Goiás.
Além de Lenine, o agente da PF morto foi o responsável pela investigação de Valmir José da Rocha. O comparsa do contraventor é apontado no inquérito como um dos operadores de Cachoeira. Laudos de movimentação financeira mostram que ele, assim como o contador Geovani Pereira da Silva, era um dos principais recebedores de recursos do esquema. As investigações apontam que ele emprestava sua conta-corrente para “esquentar” o dinheiro da contravenção. Relatório de investigação da ex-servidora da prefeitura de Luziânia Sônia Regina de Melo também foi de responsabilidade de Tapajós.
Memória
Organização criminosa
A Operação Monte Carlo teve início no fim de 2010, quando a Polícia Federal mobilizou uma equipe para apurar esquema de contravenção em Goiás que envolvia grandes empresários e autoridades públicas. A ampliação de casas de bingo ocorreria com a anuência da Polícia Militar e gente influente do Estado, de acordo com apurações iniciais.
No decorrer das investigações, a PF descobriu que Carlinhos Cachoeira era o chefe da organização criminosa. O bicheiro foi preso em 29 de fevereiro dando início a uma série de prisões que alcançou outros 27 envolvidos. Operação de busca na casa dos suspeitos levou à apreensão de pelo menos 22 veículos, milhares de dólares, euros e 18 relógios avaliados em mais de R$ 400 mil.
O vazamento de grampos revelou participação de Demóstenes Torres — ex-senador que perdeu na última semana o mandato graças à ligação com Cachoeira — deputados federais e prefeitos com o esquema de contravenção. Suposta participação do governador de Goiás, Marconi Perillo ainda é investigada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada no Congresso para apurar a atuação de Cachoeira com autoridades públicas.
Além das autoridades com cargo eletivo que caíram nos grampos da Polícia Federal, a investigação conseguiu encontrar participação direta de 35 policiais da Civil, Militar e da própria Polícia Federal que foram denunciados por formar a organização criminosa.
Após a criação da CPI do Cachoeira, o juiz Paulo Augusto Moreira Lima, que era substituto da 11ª Vara Federal em Goiás, e a procuradora da República Léa Batista de Oliveira afirmaram que sofreram intimidações por parte de acusados. O juiz foi afastado da 11ª Vara e perícia no computador da procuradora indicou que Adriano Aprígio, ex-cunhado de Cachoeira, teria enviado e-mail de intimidação à procuradora.
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