Em 2002 ou 2003, não tenho certeza, fui convidado para um debate no curso de Comunicação Social da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP). O tema era Religião na Mídia e possivelmente tenha surgido como tema em função de uma telenovela divulgada pela TV Globo, na época, sobre a história da origem do culto à Nossa Senhora Aparecida, no século XVIII. Como já se evidenciara que o chamado “tele-evangelismo” chegara para ficar e como ocorrera, pouco antes, um episódio de um bispo evangélico chutar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida na TV, a questão estava bastante candente entre os estudantes e os profissionais de imprensa.
Evidenciava-se, pela TV, a atitude pouco respeitosa de determinadas agremiações religiosas contra as crenças de outras agremiações. A agressão permanente aos símbolos religiosos que ao longo da história brasileira atentaram sempre contra as tradições afro-brasileiras agora começava a dirigir-se contra a mais tradicional religião cristã instalada no Brasil, o catolicismo, atacando desta vez não diretamente a Igreja, mas a cultura religiosa de teor devocional de grande parte do povo.
Compreender o papel da religião e de suas instituições na sociedade é algo acerca do que a sociologia, a e a antropologia ocuparam-se desde sua origem e com muita frequência. Estas são ciências sociais contemporâneas. Mas, a filosofia debate a temática religiosa também desde seus primórdios, podendo-se inclusive dizer que ela mesma, filosofia, decorre enquanto pensamento livre e crítico, de uma ruptura com os modelos teológicos e míticos do pensamento grego. Neste sentido, a afirmação de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas” tratar-se-ia de uma afirmação antropocêntrica capaz de caracterizar um tipo de “rebelião” sem qual o pensamento filosófico não poderia constituir-se.
Outra temática de elevada relevância é exatamente a que se refere à comunicação social, ou comunicação de massas. De um lado, ela é apontada como essencial no processo de constituição do mundo contemporâneo enquanto ‘aldeia global”, conforme exprimiu-se MacLuhan, isto visto tanto em seu sentido positivo quanto negativo. De outro lado, alguns apontam para ela um papel decisivo no contexto político. Sob a forma de entretenimento, a “mídia” teria o poder de influir sobre os hábitos culturais e difundir tendências. Sob a forma de imprensa, agiria no sentido de produzir seleções e orientar interpretações aos fatos segundo interesses claramente orientados, ora por motivações econômicas, ora por motivações políticas, ora por motivações ideológicas, no sentido amplo do termo, o que incluiria as motivações religiosas.
O televangelismo ter-se-ia originado nos Estados Unidos, como forma de reação conservadora a hábitos disseminados ao longo dos anos 70, por impulso dos movimentos de contestação do final dos anos 60, que caracterizavam-se por um processo de “dessacralização” ou “secularização” do mundo. Tais movimentos teriam orientado mudanças nos hábitos morais, com repercussões na vivência familiar, na esfera da sexualidade, mas também na leitura política dos acontecimentos. Por outro lado, opor-se-ia aos grupos que passavam a preocupar-se com o sentido da aplicação prática dos princípios de solidariedade, comunhão e partilha, que no final dos anos 60 e início dos anos 70, articulavam-se pela América Latina, por meio da elaboração da Teologia da Libertação. Para os grupos formuladores teóricos ou práticos da teologia da libertação, a coerência entre a fé cristã e a vida só existia de fato quando os cristãos assumiam laços concretos de apoio aos mais pobres em práticas de organização sócio-econômica ou política dirigidas à superação das desigualdades, das injustiças e da pobreza. O televangelismo reafirmando os princípios morais conservadores, também dedicava-se a combater a difusão desta elaboração teológica de libertação latino-americana, obtendo por esta razão forte apoio dos agrupamentos políticos conservadores, dentre quais o IRD – Instituto de Religião e Democracia, organização de movimentos neoconservadores norte-americanos que prestava assessoria política e ideológica à candidatura republicana de Ronald Reagan. Dentre os teólogos reunidos pela IRD, podemos citar Michael Novak, que publicou dentre outros, um livro denomina “O Espírito do Capitalismo Democrático”, em que afirma uma tese segundo qual o capitalismo seria a expressão da realização concreta do Reino de Deus na terra. Há uma tradução desta obra para o Brasil, publicada pela editora Nórdica.
Nos final do ano passado, alguns fatos chamaram-me a atenção novamente para a questão da religião na mídia no Brasil, e creio que o tema esteja merecendo acompanhamento e a formação de posicionamentos críticos a respeito.
Primeiro, a Rede Record de TV lançou um canal de notícias 24 horas, similar àqueles da TV Globo e da TV Bandeirantes, com o diferencial de que aqueles são canais de TV por assinatura, enquanto este da Record, opera em rede aberta. O evento foi presidido pelo proprietário da Rede Record, bispo Edir Macedo – cuja propriedade da TV é objeto de contestaão judicial, tramitando no judiciário brasileiro. O relevante é que na mesma cerimônia Macedo conseguiu reunir o presidente da República, Lula, o governador do Estado de São Paulo, José Serra, e o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab. Além da importância de reunir-se três autoridades das instâncias federativas de maior poder no país, a presença dos três reuniu também três correntes políticas de nítido recorte no cenário político brasileiro: o PT, o PSDB e o PFL/DEM. Por si só, tal feito já revela-se provocativo de muito esforço de interpretação, cabendo o exercício analítico sobre seu significado.
Segundo, uma repórter, Elvira Lobato, do jornal Folha de São Paulo, publicou uma matéria, em 15 de dezembro de 2007, sobre o império empresarial em que a Igreja Universal, presidida por Macedo, constitui-se. O link para a matéria é http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u37- 3561.shtml .
A reação sofrida pela repórter e pelo jornal é que chamam a atenção: em quase 50 cidades, pequenas e distantes dos grandes centros, iniciaram-se ações de supostos fiéis da Igreja Universal, todos com o mesmo teor e argumentação, criando algo que um juiz denominou “assédio judicial” contra a jornalista e contra o jornal. O efeito pretendido, ainda que possivelmente as ações em sua quase totalidade sejam perdidas pelos impetrantes, é criar a dificuldade das condições de exercício de defesa pela jornalista e pelo jornal, de modo a produzir condenações em função do julgamento à revelia.
Estes acontecimentos, mais a ciência de que uma bancada de deputados no Congresso Nacional articula-se em função da temática religiosa pentecostal, a eleição de vereadores e deputados diretamente vinculados às Igrejas, as disputas comerciais envolvendo bispos e concessões de tv e rádio, são todos elementos de um ambiente que exige a interpretação e o exame.
A questão religiosa ganhou o contorno de estratégia de poder econômico e político e deste ponto de vista precisa ser pensada e compreendida pela população.
Marcadores: Comunicação Social, Igreja, Igreja Universal, imprensa, Mídia, Política, Teologia da Libertação
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