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Alguns princípios em finanças solidárias

3 de março de 2014 / Unipress /

Há um número crescente de pessoas sensíveis à ideia de avançar rumo a uma sociedade mais justa, solidária e humana, que empenham-se em torná-la uma realidade através do seu trabalho em vários campos, que percebem que um dos meios disponíveis para realizar essa transformação, sua poupança, é utilizada justamente para reforçar e consolidar os valores opostos de modelo social, econômico e cultural, contrariando esse anseio de transformação.

Quando se analisam ​​em profundidade os principais fluxos econômicos e suas conseqüências vemos como sistematicamente fortalecem o modelo econômico e social predominante em detrimento de países ou de pessoas de menor poder econômico, com consequências negativas óbvias.

O sistema financeiro tradicional não responde aos desejos e necessidades de um segmento dos poupadores e das poupadoras.

Não é nenhuma novidade que o sistema financeiro é conservador e que, por reger-se quase exclusivamente por critérios de lucros e tamanho, contribui para aumentar as diferenças de renda e riqueza, incentiva o consumo irresponsável e reforça a exclusão social dos setores desfavorecidos.

Tradicionalmente, tem sido reconhecida como a função da moeda unidade de câmbio (tudo, ou quase tudo, está avaliado em termos monetários), bem como uma reserva de valor. A combinação destas duas características leva a outra, que não é geralmente abordada nos tratados de economia: o dinheiro, ou melhor, a capacidade de decidir seu uso, é uma fonte de poder, e esse poder, que pertencria, em uma boa lógica, a seus proprietários(as), ou seja, os poupadores, é exercido pelas instituições financeiras, de acordo com seus próprios interesses, sem levar em conta os poupadores(as), sem que estes possam exercer qualquer controle sobre tais decisões.

Isso significa , em suma, que o sistema financeiro não só se apropria de uma parte significativa do retorno puramente econômico sobre a poupança, mas que usa para seus próprios fins o poder que traz consigo a gestão desses recursos.

O sistema financeiro convencional não contempla a possibilidade de financiar alguns tipos de empresas e projetos.

Quando examinamos o comportamento do sistema financeiro, do ponto de vista daqueles que o procuram, os resultados não são melhores.

Existe agora uma ampla gama de crédito e empréstimos. No entanto, os critérios de concessão são geralmente baseados principalmente na existência de garantias próprias (propriedade de bens ou recursos ) ou de avais, o que torna muito bem explicativa a frase bem conhecida de que “os bancos apenas dão dinheiro a quem não mostra que não precisa dele”.

No que se refere ao financiamento de projetos de economia social e solidária, o uso desses critérios, muitas vezes, funciona como uma barreira intransponível para um número de empreendedores que por sua própria caraterísticas (iniciativas de inclusão social, auto- emprego, etc) ou pela natureza ou tamanho de seus projetos (atividades alternativas e inovadoras, ou que não visem lucros) não possuem os recursos iniciais disponíveis para investir.

A palavra crédito, o que tem a ver com acreditar em alguém, confiar, no contexto de uma relação humana, perde completamente o seu significado, e, como resultado, uma série de iniciativas e de atividades socialmente úteis são excluídos do circuito bancário de financiamento.

Em resposta a este tipo de reflexões de diferentes grupos surgiram diversas experiências com diferentes características e graus de eficácia e especificidade, mas que têm em comum o objetivo de tentar expandir o leque de possibilidades de poupança e investimento a vários novos modelos de operacão, partindo de outras bases conceituais, buscando uma forma mais social do que finalidades meramente monetárias, e proporcionar canais alternativos para todos aqueles que discordam dos usos que se fazem de suas poupanças.

Neste sentido, acreditamos que um modelo de financiamento solidário deve basear-se nos seguintes princípios básicos:

• O poupador deve ter o direito de saber como seu dinheiro está sendo usado, quais projetos está financiando, que idéias ou empresas que estão sendo atendidos;

• Os recursos financeiros devem ser utilizados com algum benefício ou retorno social: a criação de postos de trabalho, ajudando a integração profissional de pessoas excluídas, oferecendo produtos ou serviços de utilidade social, apoiando os processos de produção mais limpos, etc.

• As instituições financeiras que promovem fórmulas alternativas não devem apenas se concentrar na recuperação dos valores emprestados ou investidos, mas também apoiar o trabalho com o melhor de sua capacidade.

• Os recursos financeiros devem ser investidos em projetos viáveis​​, de modo que haja prejuízos que gerem desconfiança dos poupadores quanto à reutilização de tais recursos.

• Pensamos que, em suma, em uma gestão financeira que não persiga objetivos lucrativos, mas que expressem uma forte vocação social.

Portanto, é necessário propor novas formas de instituições financeiras, que respondam às preocupações de todos aqueles que acreditam em uma economia diferente, e que querem utilizar suas economias em linha com suas abordagens éticas e vitais.

Autor: Javier Mateo
Tradução: Edmar Roberto Prandini

Fonte: http://economiasolidaria.org/finanzas_eticas