Pelo Facebook, alguns dias atrás, eu disse que não estava mais suportando saber dos acontecimentos trágicos ocorridos no domingo, dia 22 de janeiro, no Pinheirinho, em São José dos Campos, por ocasião da brutal intervenção da Polícia Militar do Estado de São Paulo para realizar a desocupação do bairro pelos moradores e promover a reintegração de posse do terreno em favor da massa falida da empresa Selecta.

De fato, as cenas disponíveis que podem ser encontradas no Youtube e em diversos sites pela Internet, geradas por celulares e máquinas fotográficas digitais, na sua maioria, são aterrorizadoras para qualquer pessoa que possua um mínimo de sensibilidade e mais ainda para quem possui algum conhecimento acerca dos problemas de natureza fundiária que se fazem presentes nos processos de urbanização e ocupação do solo urbano vividos no Brasil.

O ataque contra os moradores pobres e o desprezo pelo fato de que em todas aquelas casas residiam mulheres, crianças e idosos que não estavam indefesos ante a força da tropa de choques produziu cenas cujo impacto consiste na comoção e na repugnância pelas autoridades constituídas que determinaram aquela ação.

O bairro foi cercado por todos os lados, bombas de gás foram despejadas em grande quantidade pela tropa de mais de 1.800 soldados e pelos helicópteros, tiros com balas de borracha foram dirigidos produzindo dor e ferimentos àquelas milhares de pessoas que estavam sendo vitimadas, também, pela grande humilhação de terem que sair sem ter condições mínimas de carregar seus pertences em direção ao lugar nenhum.

Ao ver essas imagens não há como não compará-las aos procedimentos nazistas da Gestapo contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Mas, há ainda mais: a PM não apenas obrigou as famílias a abandonar suas casas como também destruiu as casas com tudo o que as pessoas tivessem dentro, desconsiderando as dificuldades pelas quais aquelas pessoas passaram para gradativamente adquirirem o pouco que tinham.

E agora? Desalojados, sem quaisquer pertences, roupas ou móveis, para onde irão essas quase 8 mil pessoas? Se era tão firme a disposição de proceder a desocupação dessa área, por que não se patrocinou um processo organizado de migração das famílias? No próprio período da ditadura militar, em Ribeirão Preto, moradores de favelas foram transferidos de suas casas na favela para casas em conjuntos habitacionais, o que gerou tristes histórias para muitas das famílias envolvidas, mas mesmo assim, haviam casas para que se alojassem… no caso do Pinheirinho, não há nada!!!

As famílias ficaram dormindo no chão em galpões e ginásios de esporte da cidade de São José dos Campos! Por quanto tempo poderão aturar essa situação? Não existem estruturas de banheiros, cozinhas, oferta de água, nada! É como se as pessoas tivesse sido vítimas de uma catástrofe da natureza, mas neste caso produzida por ordem das autoridades oficiais do Estado de São Paulo, governo do Estado e poder judiciário.

No último domingo, dia 29 de janeiro, voluntários e integrantes do Conselho Estadual de Direitos da Pessoa do Estado de São Paulo estiveram nos alojamentos improvisados ouvindo as pessoas e recolhendo depoimentos e outras informações que possam permitir a denúncia dos crimes que estas autoridades paulistas cometeram. Esses depoimentos, junto com exames de corpo delito e outras provas servirão, tenho certeza, para instruir processos contra estas autoridades criminosas que não possuem nenhuma consideração pela vida dos pobres e por suas histórias e sentimentos.

Mas, as cenas chocantes e a solidariedade daqueles que valorizam a vida humana e a democracia não vão se encerrar enquanto esses criminosos persistirem sem condenações. Os crimes cometidos contra os pobres do Pinheirinho não ficarão impunes.