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Papa Francisco, a crise internacional e a teologia da libertação

28 de julho de 2013 / Unipress /

A Jornada Mundial da Juventude está chegando ao seu final. Trata-se do primeiro grande evento mundial de que participou o Papa Francisco, sendo, por isso, muito relevante para compreender o papel que o Papa quer cumprir neste momento da história e da Igreja.

Já comentei mais de uma vez que, apesar de algumas pessoas tentarem pensar a jornada mundial e os pronunciamentos papais em sua direta aplicação sobre a conjuntura brasileira, por causa das recentes manifestações iniciadas pelos jovens, considero que a melhor compreensão tenha expressa referência à conjuntura internacional e à dinâmica de intervenção que o Papa espera da Igreja neste cenário.

Assim, são relevantes suas declarações contra a desigualdade social e as injustiças. Do mesmo modo, sua contundente crítica ao capitalismo neoliberal e ao dinheiro como centro do sistema econômico e político. Tais posições apontam certeiramente para a reprodução do sistema econômico e revelam a disposição de eleger as políticas sociais e as políticas afirmativas como fundamentais para a construção do futuro da humanidade.

Por outro lado, há inúmeras manifestações de questionamento ao papel da Igreja. O Papa fez questão de romper com os padrões de segurança, ao requerer o papamovel aberto. Isso indica claramente que a Igreja deve mudar de atitude, saindo da suposta segurança doutrinal dos pontificados anteriores para a aceitação dos riscos da missão pastoral, que sai de seu ambiente protegido e vai às periferias, visitar as casas dos pobres, como ele mesmo o fez, na comunidade de Varginha.

Esses dois gestos foram absolutamente emblemáticos. Mas se completaram à medida em que o Papa aceitou usar colares e cocares indígenas, bem como recepcionou a bandeira da Pastoral da Juventude, toda vermelha.

Ou seja, traduzo isso como expressão acabada de que o Papa espera uma Igreja que não apenas vá à periferia, mas que assuma suas vestes, seus trajes, suas cores, suas alegrias, seus desafios, suas lutas. Que entre nas casas e no mundo dos pobres não apenas como quem tem algo “superior” para transmitir, mas como alguém humilde, que tem muito que aprender e que tem muito que acolher. Na teologia da libertação, chama-se a esta postura de “inculturação”, ou seja: é a Igreja que se deixa mudar no convívio com a realidade dos pobres e vive sua missão não como proselitismo, mas como colaboração, como solidariedade, como presença motivadora e esperançosa.

Nesta linha é espetacular que o Papa tenha ido rezar junto da comunidade evangélica, justamente lá, na periferia. Com isso, ele demonstrou que não importa uma disputa pelos fiéis, não se trata de disputar quem tem mais ou menos adeptos, mas de mudar a qualidade de vida das pessoas a partir de suas várias expressões religiosas, sem conflitos, mas unindo-se as forças e as energias para direcionar o mundo para mais justiça e fraternidade.

Teologicamente, em termos de eclesioloia, o Papa acentuou o modelo “bispo de Roma”, ao invés de evocar o chamado “magistério petrino”. Isso representa a valorização do modelo mais descentralizado com a valorização do colegiado e das Igrejas locais.

Dentre tantos aspectos, ressalto outro dado para mim mais do que relevante numa informação divulgada esta semana: que o Papa pretende acelerar a canonização de Dom Oscar Romero. Ainda que não tenha sido oficialmente divulgada na JMJ, indica um giro expressivo no posicionamento esperado dos bispos e do clero em geral, bem como do lugar da vivência do testemunho de fé.

Para compreender a que me refiro, sugiro que vejam o filme que aqui indico: http://www.youtube.com/watch?v=DrdALcdMRnU&list=PLfN5sCYAmL2TBeN05W5yiq1gug2U0TC0Q