Fiquei um pouco surpreso com o teor radicalmente conservador dos pronunciamentos do referido padre, que eu não conhecia. De tão radicais suas afirmações, cheguei a pensar que não se trata-se realmente de um padre, mas cogitei a hipótese de ser algum ator, o que poucos dias depois, verifiquei que não era: tratava-se mesmo de um padre, e pasmo, descobri que ele era daqui mesmo, da Arquidiocese de Cuiabá, e, pior, que tinha atribuições importantes no seminário diocesano.
No primeiro vídeo que assisti, o padre Paulo Ricardo, desferia ferozes ataques ao PT, usando-se de um argumento do autor italiano, Antonio Gramsci, ex-dirigente do Partido Socialista, morto na prisão do regime fascista de Benito Mussolini, na Itália. Segundo o padre Paulo Ricardo, Gramsci reintrerpretará o escrito de Nicolau Maquiavel, pensador italiano do Renascimento, que escrevera o famoso livro “O Príncipe”, de tal modo que, nesta interpretação de Gramsci o partido socialista seria o novo Príncipe, posição que no Brasil seria ocupada pelo PT.
Até aí, nada demais. Ocorre que para o padre Paulo Ricardo, este novo príncipe, o partido socialista e, no caso, o PT, teriam como objetivo agredir a fé cristã em seus preceitos e a sociedade cristã em seus fundamentos, uma interpretação que se distancia enormemente de qualquer base fática, uma vez que não pode ser verificada em nenhum documento emitido pelo PT, em nenhuma de suas instâncias, em qualquer momento dos seus 32 anos de história, nem na ação de qualquer líder partidário nos parlamentos ou na ação de qualquer governante petista, nem nos municípios, nem nos estados e nem no governo federal.
Mas, ao padre Paulo Ricardo, parece que não importa que não hajam fatos quaisquer a alicerçar suas críticas. Ele se julga imbuído de uma espécie de capacidade de enxergar além das aparências que lhe permite saber o que não foi dito e entender os supostas maldades daqueles que ele erige como adversários. E com base exclusivamente nisso, ele faz uso de vários meios para desferir suas críticas inclementes contra esses que escolheu como adversários.
Eu tentei comentar no youtube que divergia do modo como ele se manifestava sobre o PT naquele momento, mas verifiquei que ele configura o youtube para não aceitar comentários. Ou seja, não bastasse o fato de proferir seus ataques sem nenhuma base nos acontecimentos, julgar-se capaz de ir além das aparências e detectar os interesses supostamente malévolos daqueles contra os quais ele se volta, ele ainda não aceita que ninguém se manifeste contrariamente às suas afirmações, numa atitude avessa ao diálogo e à democracia.
Verificando que nada poderia fazer, não me preocupei muito com o referido padre, ao ver seu vídeo contra o PT, pensando que se tratasse de algum padre adepto da Opus Dei ou de algum outro movimento conservador.
Só que, poucos dias após, soube que um discurso proferido pelo padre Paulo Ricardo durante o carnaval, numa cerimônia realizada aqui em Cuiabá, nestes dias, chamada de Vinde e Vede, que reúne alguns milhares de pessoas, causara um mal estar tão grande no clero local que 27 padres diocesanos e religiosos encaminharam ao Arcebispo local uma carta pedindo punição ao padre Paulo Ricardo.
Fui então assistir ao vídeo de sua pregação no Vinde e Vede e observei que ele não apenas possui uma linha inclemente de ataques ao PT mas também a seus irmãos no clero. Sem precisar quem, o padre Paulo Ricardo ataca duramente aos padres que não vestem-se com batinas, algo que data ainda dos anos 1950 e 1960, que começou com os movimentos do padre Lebret e padre Lombardi, “Por um mundo melhor”, bem anteriores sequer ao Concílio Vaticano II. Mas, na crítica do padre Paulo Ricardo, a opção de não usar batinas dos padres representa uma sinalização de que a fé teria morrido em seus corações, olhem o exagero, mais que isso, que os padres teriam matado o espaço para a presença da fé em suas vidas.
Sem batinas, estes padres estariam se deixando contaminar pelo “mundão”, com casos até de bebedeiras… o discurso moralista contra os padres segue grosseiramente sua argumentação.
Algumas coisas o padre Paulo Ricardo despreza intencionalmente ou ignora, por puro alheiamento que inclusive pode revelar alguma especie de desvio psicológico:
a) neste discurso, ele estava falando para alguns milhares de cristãos leigos, o que significa dizer que, enquanto “pastor” deveria ocupar-se de guiar suas ovelhas; traduzindo, estes leigos vivem suas vidas no trabalho, nas escolas, nas famílias, nos grupos sociais: seria de se esperar que uma oportunidade em que alguns milhares de pessoas se reunem deveria ser aproveitado para orientar aos leigos sobre como eles deveriam agir nestes espaços em que atuam. O padre Paulo Ricardo não apenas perde a oportunidade de orientar aos cristãos leigos como ainda faz com que estes passem a ter que debater-se e posicionar-se sobre os problemas internos ao clero e numa espécie de cruzada inquisitorial em que padres e leigos vão julgar a dignidade moral e de fé dos demais clérigos;
b) de novo, a única base fática de suas acusações contra o clero é pífia: reside no uso ou não das batinas;
c) apesar dele informar ter mestrado em direito canônico, parece desprezar que o direito canônico concedeu às Conferências Episcopais de cada país aprovar quais as vestes canônicas aceitáveis para o uso pelo clero e que, usufruindo dessa autorização canônica, a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dispensou a obrigatoriedade das batinas, dizendo, por exemplo, que em momentos de maior oficialidade e protocolo institucional, aos clérigos bastaria o uso do clergiman. Então, o padre desfere um ataque contra o código canônico, em certa medida, aprovado ainda em 1983, e contra toda a CNBB, em decisão que precede aos anos 90. Como é que ele se arvora o direito de julgar que apenas ele é fiel e que tem razão e que todas as instâncias oficiais da Igreja estejam erradas em decisões tomadas há tanto tempo?
É evidente que faltam ao padre Paulo Ricardo a humildade, o respeito às pessoas, o gosto pelo diálogo. Ele é habilidoso no uso das ferramentas de comunicação para propagandear suas opiniões, mas não permite que a comunicação se complemente, porque não aceita ouvir as opiniões diferentes e não considera que as pessoas procurem agir com honestidade em seu cotidiano.
Ele é um bom orador, não nego, mas um orador presunçoso, prepotente e que está motivando pessoas a um conflito que em nada exprime o que seja a espiritualidade verdadeira ou o amor.
Triste episódio de radicalismo conservador, promovendo conflitos entre os cristãos e no interior do clero.
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