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Os salários estão aumentando

6 de fevereiro de 2012 / Edmar Roberto Prandini /

O ciclo de crescimento econômico vivido pelo Brasil desde o início do governo Lula está produzindo, como efeito, o gradual crescimento do valor dos salários pagos aos trabalhadores.

Resumidamente, temos que na primeira fase do governo Lula, verificou-se um processo de expansão acentuada das políticas sociais, onde destacaram-se principalmente as medidas de incentivo ao acesso ao ensino superior, a correção gradual do salário mínimo e o Programa Bolsa Família. Na segunda fase, vieram as medidas de investimento na infraestrutura, por meio do PAC, e, no momento mais dramático da crise econômica internacional, o programa de acesso à casa própria, o Minha Casa, Minha Vida, que concomitantemente tinha impacto sobre o drama das famílias para morar e sobre o impulso para a expansão da atividade da indústria da construção civil. Nesta fase também destacaram-se as medidas de teor tributário, que do mesmo modo em que incidiram sobre a redução da carga tributária resultaram em ganhos de arrecadação.

Tais fatores, acumulando-se um sobre o outro, geraram um virtuoso movimento de queda dos índices de desemprego, aumentando a competição das empresas pelos trabalhadores, o que começou a resultar em ganhos salariais em todos os segmentos da economia. Em artigo anterior, publicado aqui no blog, já falávamos de uma janela de oportunidades para a elevação dos níveis salariais no país.

Este fenômeno, se é resultado desejado por aqueles que anseiam por uma democratização da sociedade brasileira com a redução dos níveis de pobreza e de desigualdade social, para certos segmentos é tratado como problema. Na matéria que publicamos abaixo, veremos uma exposição segundo qual o aumento dos salários e a redução dos níveis de desemprego são de novo apontados como fatores causadores da inflação. É uma opção interpretativa, infelizmente presente, e que encontra forte eco junto à mídia brasileira.

Reajuste real de salários sobe e põe pressão sobre inflação
Autor(es): Por Carlos Giffoni | De São Paulo
Valor Econômico – 06/02/2012

O reajuste salarial médio negociado em 163 convenções coletivas de sindicatos com data-base no último trimestre do ano passado voltou a subir na comparação com os outros trimestres de 2011, fechando em 1,81%, de acordo com levantamento realizado pelo Valor na base de dados do Ministério do Trabalho.

São três os fatores que mais influenciaram esse resultado, que gera preocupação, devido ao possível impacto sobre a inflação. Um deles é a proximidade da correção do salário mínimo, cujo aumento real foi de 7,5% em 2012. Outro fator é a força de mobilização dos sindicatos que negociaram acordos no fim do ano passado. Mas foi o recuo da inflação – do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que deflaciona a maior parte dos reajustes – que garantiu ganhos reais significativos.

Entre setembro e dezembro, o INPC recuou 1,22 ponto percentual, considerando-se o resultado acumulado em 12 meses. A média de aumento real conquistada em 193 convenções assinadas no terceiro trimestre foi de 0,86%. No último trimestre do ano, a média disparou, chegando a 1,81%.

“A queda na inflação explica boa parte do ganho real. O fim do ano foi um período mais difícil para a economia, no cenário nacional e no internacional, o que deve ter dificultado as negociações”, diz Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores. De fato, a média de reajuste nominal variou pouco desde agosto, atingindo o piso de 8,01% em dezembro e o teto de 8,62% em outubro.

Apesar do momento pouco favorável aos trabalhadores – durante o segundo semestre, eles ouviram dos sindicatos patronais que a situação econômica estava difícil e, portanto, não havia como conceder reajustes mais expressivos -, algumas categorias com data-base nos últimos três meses do ano acabaram puxando para cima a média geral de ganho real.

Esse é o caso dos metalúrgicos de São Paulo. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, cuja base é de 800 mil trabalhadores, conquistou 10% de aumento nominal no ano passado, o que representou 3,13% de ganho real. A data-base do sindicato é em novembro.

Se a mesma negociação ocorresse em setembro, o ganho real ficaria em 2,52%, devido ao elevado patamar em que o INPC se encontrava no mês. Foi o que aconteceu com os metalúrgicos do ABC, que conquistaram 10% de reajuste nominal e influenciaram os acordos da categoria em todo o Estado.

O pequeno número de sindicatos que conseguiu apenas a reposição da inflação comprova as conquistas salariais do último trimestre. Enquanto 21% das convenções só garantiram o INPC no terceiro trimestre, apenas 6% não tiveram ganho real no trimestre seguinte. Entre outubro e dezembro, em 56 convenções (34% do total) o ganho real foi maior que 2%. Entre julho e setembro, apenas 15 (7% do total) conseguiram reajuste igual.

De acordo com o levantamento do Valor, sindicatos em todo o país que atuam no setor de serviços conquistaram os maiores reajustes, ao lado de metalúrgicos e em pregados na construção civil. Os comerciários do Rio Grande do Sul, por exemplo, tiveram aumento real de 2,57% em outubro. Trabalhadores de hotelaria e turismo também se destacaram, principalmente em Minas (dezembro) e no Rio (outubro), onde as negociações renderam 3,7% e 4,07% de aumento real, respectivamente.

Trabalhadores da construção civil em pelo menos dez Estados conquistaram aumento real superior a 2,5% nos últimos três meses de 2011. “Na construção civil, o mínimo é importante indexador para boa parte dos trabalhadores, que recebem salários próximos do piso. Por isso o reajuste [de 14,13%] do mínimo baliza as negociações no fim do ano, quando a valorização do piso nacional estava mais definida”, afirma Borges.

O coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes Filho, aponta para a tendência de reajustes maiores em mercados de trabalho mais apertados. “A taxa de desemprego está caindo muito, o que reflete em disputa maior pelo trabalhador. O resultado é o aumento do salário.”

Em 2011, a média de ganho real apurada em 831 convenções foi de 1,4%. O índice preocupa, devido à pressão inflacionária que carrega. De acordo com cálculos de Borges, a taxa é maior do que o aumento de produtividade da economia brasileira no ano passado, estimado em 1,2%. “Quando o salário dos trabalhadores cresce mais que a produtividade, ou seja, o trabalhador recebe mais para produzir o mesmo, a empresa tem que repassar a diferença de custo para o preço”, explica ele. “O índice de 1,4% explica, em parte, a inflação ter atingido o teto da meta em 2011.”

Economista-sênior do banco Santander, Cristiano Souza destaca a herança deixada pelo último trimestre. “É preocupante haver alta de ganhos reais no patamar de 1,81%, quando a produtividade não se acelera. Isso implica aumento do custo de produção. Pagar mais para produzir o mesmo significa perda de competitividade.”

Para Menezes Filho, a tendência é que essa situação permaneça em 2012, uma vez que a taxa de desemprego atinge sucessivos níveis históricos de baixa. “Enquanto a economia estiver crescendo, ainda que pouco, e houver alta da demanda sem aumento da produtividade, a pressão no mercado de trabalho continuará aumentando.”

O coordenador de relações sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), José Silvestre, prevê que o ritmo de ganho real no início deste ano deve ficar abaixo do patamar de 1,8%, registrado no quarto trimestre de 2011. Segundo o Dieese, 2012 deve fechar com média de ganho real nas negociações próxima ao registrado em 2011 – na faixa de 1,4% -, já que os efeitos da crise financeira na Europa devem ser compensandos pela perspectiva de queda da inflação e da taxa básica de juros.