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O jogo mudou: Marina Silva em segundo lugar tira o PSDB do segundo turno

25 de agosto de 2014 / Unipress /

Acompanho e participo de eleições de modo muito ativo desde 1982. Já fiz todo tipo de trabalho em campanhas eleitorais, tanto em atividades mais braçais, como colagem de cartazes, fixação de placas, pintura de muros, distribuição de panfletos nos locais de concentração de populares e de trabalhadores, quanto em atividades mais intelectuais, como formulação de propostas e projetos, ou organizativas, como sistematização de agenda de eventos, definição de parceiros a agregar, etc. Em campanhas para vereador, deputados estaduais, federais, prefeitos, etc.

Aprendi, com isso, que eleição se vence com planejamento e organização, mas que o imponderável e o inusitado sempre estarão lá surpreendendo a todo tempo e compondo um cenário não controlável por nenhuma composição prévia, por mais que as principais forças políticas quisessem evitar.

Nesta eleição presidencial, o imponderável veio com a lamentável morte de Eduardo Campos, que possibilitou a Marina Silva voltar à disputa presidencial na qualidade de candidata a presidenta da República.

Conforme comentei dias atŕas, a mudança no cenário eleitoral fazia-se evidente, com consequências graves para o PSDB, especialmente, que, segundo minha avaliação, tende ao ocaso, caso (desculpe o trocadilho) se confirmassem os rumores de que Marina Silva estaria empatada com Aécio Neves em pesquisas internas dos partidos.

Pois bem, ao que parece, a situação da candidatura Aécio Neves e do PSDB é ainda mais grave. Segundo o Blog do Rovai, novas pesquisas internas já dariam conta de que Marina teria ultrapassado Aécio Neves em 10 pontos percentuais, uma vantagem muito consistente. E estaria a 8 pontos de Dilma Roussef, ganhando nas inquirições acerca do voto no segundo turno.

O que se observa no momento presente são mudanças drásticas dos competidores que não esperavam precisar voltar a discutir a situação e o nome de Marina Silva depois que seu partido, Rede Sustentabilidade, não obteve o registro oficial no TSE. A velha mídia, que rendeu todo tipo de homenagem a Marina enquanto ela rompia com o governo Lula, afastava-se do PT, e criticava o governo Dilma, agora, passou a atacá-la frontalmente. Até editorial o site do Estadão.com.br e o jornal O Estado de São Paulo dedicaram-se a atacar Marina.

Nas redes sociais voltam as discussões sobre o fato de Marina ser evangélica, do mesmo modo que o fato de ter o apoio de Neca Setúbal, herdeira do conglomerado Itaú pareça necessariamente uma açodada submissão ao financismo e ao rentismo. A temática do questionamento sobre quem paga os vôos que ela faz de jato ou a história do avião que matou Eduardo Campos não ter registro de posse também entram para tentar denegrir a aura de coerência de Marina Silva.

São argumentos tão consistentes quanto aqueles contra os quais Lula precisou sempre debater-se antes de chegar à Presidência. Quem não se recorda das acusações que pairavam contra Lula de que moraria numa casa cedida por certo empresário? De que Lula bebia cachaça? De que o filho de Lula teria sido beneficiado com vendas facilitadas de seus serviços de desenvolvimento de games para empresas de telecomunicações?

São argumentos obviamente desposados de qualquer significado político, porque a discussão política mais profunda não se quer permitir fazer. Discussão política, de economia política: qual é o modelo produtivo que o país deve adotar para rumar em direção ao seu desenvolvimento de modo a assegurar crescimento, qualidade de vida e inclusão social crescentes.

É importante compreender o que está em jogo no cenário da disputa entre Dilma Roussef e Marina Silva e compreender o porque da escolha do setor conservador da candidatura Aécio Neves e não de Marina.

Em fevereiro de 2013, postei aqui no blog o artigo Marina Silva a fundação do novo partido Rede Sustentabilidade . Naquele texto, explanei sobre as diferenças que eu observava entre Dilma Roussef e Marina Silva. E eram diferenças qualitativas, ou seja, essenciais, mas no campo da plataforma de economia política, onde estruturam-se as bases do modelo de desenvolvimento econômico de um país, e que definem afinal quem ganha ou quem perde dinheiro e poder nas relações sociais que se estabelecem.

Ainda que hoje o jornalista Kennedy Alencar expresse opinião de que Marina está buscando acercar-se de nomes confiáveis ao mercado financeiro, considero que os efeitos Marina Silva nesta eleição serão a completa “devastação tucana” do xadrez político nacional, ou seja, uma forte derrocada do PSDB, e uma aglutinação conservadora “grátis” de apoio a Dilma Roussef no segundo turno, para impedir a vitória de Marina Silva, que colocaria em risco o novo establishment forjado pelos governos Lula e Dilma ou o antigo establishment representado pelo PSDB e o DEM.

Isto porque Marina Silva não será considerada como merecedora de “credibilidade” pelos agentes econômicos e segmentos empresariais. As políticas de cunho ambiental do governo federal serão trazidas a tona como nunca na história deste país e receberão todo tipo de apoio dos setores mais arcaicos do empresariado nacional. Tudo para retirar de Marina Silva o rótulo da sustentabilidade ambiental ou pelo menos para arranhar-lhe a exclusividade.

Já me posicionei mais de uma vez quanto à minha predileção política pelo PT, pela candidatura Dilma, mas sinceramente, penso que a mudança de jogo que a candidatura Marina representa é um ganho enorme para o país, primeiro pelos seus efeitos sobre o quadro político partidário, mas principalmente, por recolocar o centro da discussão no modelo de economia política que o país deve adotar.

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