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Manifestações e Lava Jato vão eleger Bolsonaro presidente em 2018?

20 de Março de 2016 / Edmar Roberto Prandini /

A tragédia do atual momento da política brasileira fica mais do que evidente com a publicação das pesquisas de intenção de voto para presidente da República em 2018, do Datafolha.

A maioria dos leitores e os próprios analistas do Datafolha concentrarão a sua atenção para o fato de que Marina Silva aparece na liderança das intenções de voto, num patamar oscilando pouco acima de 20% a depender do rol dos candidatos elencados; para o fato de que Lula perdeu alguns pontos percentuais em relação às pesquisas anteriores e agora situa-se entre pouco acima de 17%; e que Aécio, Serra e Alckmin, representantes do PSDB, também não conseguiram agregar porcentagens de eleitores, apesar da crise econômica vivida pelo país e da intensidade da oposição política imposta ao governo Dilma, desde a sua reeleição, em outubro de 2014.

Minha observação destes números é de que, fundamentalmente, representam o chamado efeito “recall”, ou seja, indicam que a curta distância dos pleitos passados e a longa distância do pleito futuro está determinando que os eleitores consultados expressem basicamente sua memória dos principais nomes da política brasileira, com alguma contribuição de suas próprias decisões anteriormente tomadas. Assim, que nestes casos, o mapeamento dos sentimentos do eleitorado, com pouco mais de um ano de exercício do mandato presidencial vigente, não contém nenhuma surpresa e, dados os índices alcançados pelos candidatos, nenhuma alteração significativa de sentimentos da maioria dos eleitores.

Mas, no próximo patamar dos resultados da mesma pesquisa, abaixo dos 10% das intenções de voto, surgem duas surpresas que, ambas, revelam-se altamente preocupantes. Porque fogem da memória residual dos processos anteriores e expressam novas tendências de decisão política cuja natureza já é, de per si, devastadora e cujos efeitos, em caso de consolidação e crescimento, podem representar o fulminar das esperanças da democracia brasileira.

Refiro-me aos percentuais de intenção de votos oscilando entre 5 e 7% para Bolsonaro e de 8% para Sérgio Moro.

Bolsonaro, do PSC, não é propriamente um “outsider” na política brasileira, visto já ser deputado com vários mandatos eletivos exercidos. É, entretanto, a mais nítida expressão de viabilidade eleitoral para o discurso ultradireitista e conservador que sem nenhum recato já se apresentou à política brasileira.

Com alguma ousadia, eu diria que desde o AI-5, do final de 1968, nunca a política brasileira formulou um discurso tão retrógrado e truculento, que tenha tido a coragem de desqualificar por completo as políticas de direitos humanos e de investir contra as liberdades de gênero ou contra os direitos da mulher, por exemplo. Tudo isso, somando-se aos que se opõem aos direitos sociais ou que exigem a contenção dos aparatos militares à condição subordinada de obediência ao poder civil.

Entre 5 e 7% de indicações eleitorais podem não parecer muito, mas são. Considere-se o fato de que nenhum investimento econômico foi feito para organizar tal candidatura e que nenhum espaço sistematizado de divulgação nacional esteve à disposição deste deputado que já alcançaria índices para obter entre 7 e 10 milhões de votos.

Apenas em função da circulação dos seus desaforos políticos contra os ideais democráticos pelas redes sociais e pela oportunidade das manifestações pretensamente “anti-políticas” desde junho de 2013, em que o discurso pró-ditadura militar ganhou destaque.

Para ter dimensão do que isso significa basta ver que o nome de Ciro Gomes, que já foi Governador e Ministro de Estado, tanto de Fernando Henrique Cardoso quanto de Lula, além de candidato a Presidente da República, tendo tido ampla exposição para o eleitorado nacional, está na mesma faixa de indicações.

Ou, para prosseguir com as comparações, lembrar que o exótico candidato Enéias, ao final da campanha eleitoral que consagrou sua aparição política, com o slogan “Meu nome é Enéias”, alcançou perto de 5% das indicações, depois de aparecer em espaço televisivo durante toda a campanha.

Finalmente, lembrar que Bolsonaro não conta com apoio de qualquer uma dos principais veículos de imprensa do país, que o caracterizam nitidamente com a rudez do seu discurso. Mesmo os militares que ocuparam ilegal e violentamente o poder no Brasil mantinham-se preocupados em parecer modernos, civilizadores, progressistas. Até procuravam apresentar-se como criadores de uma institucionalidade democrática. Bolsonaro é mais rude que isso. Ele não tem essas preocupações.

Nestas condições, observar um nome como o de Bolsonaro ecoar como escolha predileta de 7% dos eleitores é surpreender-se negativamente com a obtenção de um número que assusta a quem já viu Collor eleger-se Presidente da República partindo de patamares bem inferiores de indicações ou àqueles que mantém a democracia como referência ética e política de sua reflexão, formulação e ação.

Os cenários do impeachment não são bons. Supondo-se a destituição de Dilma, com a posse de Michel Temer, não bastaria tirar Dilma do cargo. Michel Temer não possui densidade eleitoral. Foi um dos últimos dentre os 70 deputados federais eleitos por São Paulo. Não é um nome eleitoralmente expressivo. Trata-se de um mediador no interior do PMDB, mantido para evitar a dilaceração do partido pela disputa entre suas divergências regionais e políticas internas, cada vez mais acentuadas, que parecem indicar que o próprio PMDB como federação política de agrupamentos tão distintos aproxima-se do seu fim.

Michel Temer, apesar dessa condição política precária, teria que prosseguir com uma política orientada para a destituição de todo o PT de qualquer cargo no governo federal. Os vitoriosos do impeachment não se voltam contra Dilma só porque não gostam dela, até porque sabem que não há nenhuma acusação sustentável do ponto de vista de tipificação jurídica contra Dilma. O problema não é Dilma, mas as políticas dos governos liderados por Lula e Dilma. Aquelas em que o governo acertou e aquelas em que o governo errou.

Mas o PT não é o PRN de Collor. Quando Collor caiu, não havia PRN instalado no governo federal porque o PRN não era nada. No caso do PT, destituir Dilma vai significar desmontar a organicidade de vários ministérios, quebrar a espinha dorsal de diversas políticas públicas, mudar a interlocução com muitos atores sociais, em todos os segmentos e em todo o território nacional.

E se o domingo 13 de março viu grandes manifestações contra o governo, convocados ao longo dos meses de janeiro a março, com apoio da Globo, por exemplo e das próprias ações de condução coercitiva de Lula ou de seu pedido de prisão preventiva pelos promotores paulistas, a sexta feira 18 de março, em pleno dia de trabalho, viu grandes manifestações contra o golpe, no país todo, convocados praticamente em menos de uma semana.

Para os que acusavam os governos Lula e Dilma de chavistas e bolivarianos, as manifestações pró-impeachment parece que estão conduzindo o Brasil para cenários de confronto como aqueles vistos na Venezuela, em que multidões manifestantes enfrentaram-se nas ruas, nos anos recentes.

Nesta sexta-feira, por exemplo, um grupo pró-impeachment queria, de maneira provocativa e irracional, manter-se na Avenida Paulista, em São Paulo, para confrontar os manifestantes pró-democracia.

Assim, um governo Michel Temer, instaurado por impeachment com a finalidade de destituição do PT do governo, com a quebra da ordem constitucional, como seria, enfrentaria uma dificuldade enorme para se estabilizar e funcionar. Porque há uma crise econômica que o impeachment por si não pode debelar e porque a crise política não ficaria estancada, mas agravada com a fratura do andamento das políticas públicas em todas as áreas e com a resistência da sociedade.

Substituir Dilma e Temer, por meio da cassação da chapa eleitoral, como pretendem com a ação do TSE, desembocaria na posse de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, cuja cassação está em andamento, dado mentir para a CPI e não poder refutar a consistência de provas colhidas contra ele na própria Operação Lava Jato.

Convocar novas eleições, para breve, por sua vez, também não seria uma boa medida, caso não tenha havido condições de criar uma condenação ou prisão que tire de cena o nome de Lula, que poderia candidatar-se e vencer novamente as eleições.

Então, com certeza, lideranças conservadoras deve haver que cogitam conviver com o governo Dilma até seu final, se, em 2018, seja possível assegurar inaugurar um novo quadro. Mas, com a ausência do PMDB, a fraqueza dos lideres do PSDB, mesmo que protegidos de todo tipo de investigação, apesar da exuberância de acusações que existem contra eles, como projetar um novo quadro político alternativo frente ao cenário atual?

Assim, o que preocupa, neste caso, é que, frente à inaptidão dos líderes partidários da oposição política para capitalizar politicamente os efeitos da fortíssima campanha orquestrada contra o governo Dilma, os setores conservadores, mídia inclusa, começam a testar nomes alternativos para verificar em torno dos quais se unir e para onde direcionar seus investimentos.

É neste quadro, por sua vez, que o nome de Sérgio Moro, o juiz federal responsável pelo julgamento da Operação Lava Jato, surge na consulta do Datafolha, obtendo praticamente os mesmos percentuais de Bolsonaro. Sérgio Moro não é político e não deu a entender que pretenderia candidatar-se a algum cargo eletivo. Sérgio Moro é alinha-se bem à oposição.

Mas, Sérgio Moro também já passou a exorbitar suas atribuições, constrangendo possíveis apoios, fortalecendo a percepção do golpe em andamento, evidenciando que a ordem constitucional e que, com ela, os direitos e as liberdades fundamentais, mais do que apenas os governos petistas, é que está em risco. Gera a dúvida: será que é domável?

Será que a rejeição ao PT, aos governos Lula e Dilma; que as fraturas internas do PMDB; que a incapacidade do PSDB em formular propostas políticas agregativas ou as denúncias contra seus líderes, que se evita apurar, mas que são muito mais diretas contra eles do que aquelas contra Lula e Dilma, vão acabar criando espaço para o imponderável na política brasileira?

Será que a regressão política causada pelos movimentos oposicionistas de rejeição ao PT, pelos líderes do PSDB e pela mídia conservadora, vão nos conduzir a eleger Bolsonaro presidente em 2018?