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Invasão de privacidade: jornalista da R7 é processada por insinuação de homossexualismo

3 de agosto de 2012 / Edmar Roberto Prandini /

A insinuação de que esteja havendo uma relação homossexual entre o ex-jogador e craque do São Paulo, Raí, irmão de Sócrates, com o apresentador do Fantástico da Rede Globo, jornalista Zeca Camargo, provocou a abertura de um processo contra a também jornalista Fabíola Reipertn e contra o site R7.

Este é mais um caso evidente de invasão de privacidade por parte dos veículos de imprensa que não possuem limites na sua busca por produzir informações sem qualquer relevância social apenas para produzir visibilidade.

Trata-se aqui de questionar não se o caso entre Raí e Zeca Camargo existe ou não. Não importa e nem interessa saber. Trata-se de questionar acerca do direito que veículos de comunicação de massa teriam de adentrar o universo das vidas pessoais para transformar em matéria o que constitui privacidade da vida das pessoas, sejam elas conhecidas ou não.

É óbvio que esse direito não pode existir. E preservar a intimidade e a privacidade das pessoas não representa nenhum tipo de censura ou de restrição à liberdade de expressão. Muito pelo contrário.

O que fazem as colunas sociais; os “reality shows”, como o BBB ou A Fazenda; os paparazzi com suas fotos e vídeos vendidos à mídia expondo as vidas pessoais e os relacionamentos de atores, atrizes e de jogadores? É, na verdade, um escândalo contra a dignidade humana dos “personagens” e, mais que isso, uma completa manifestação de desprezo pelo público.

Há poucos dias, o ator Pedro Cardoso, em programa conduzido pelo jornalista Pedro Bial, se insurgiu contra os paparazzi, atacando essa transformação da vida privada em produto comercial e de merchandising, dizendo que este é um procedimento cuja opção comercial tem como centro a venda da mentira para a população. E ele explicou o que quis dizer, afirmando textualmente, e de modo enfático, que muitos desses “produtos” de divulgação (fotos, vídeos, fofocas) são encomendados, tanto pelas empresas de comunicação quanto pelos “agentes” que tem por missão manter tais pessoas em evidência ou promover tais pessoas para que ganhem notoriedade cujo único intuito é produzir ganhos publicitários.

É assim que os corpos são explorados. É assim que as amizades, os namoros e os casamentos passam a ser vasculhados e vigiados. É assim que o lazer das pessoas é transformado em “acontecimento”. É terrível, mas a sexualidade das pessoas quase sempre é utilizada em apelo para atrair a atenção.

Observe-se, para não cometer injustiça, que este tipo de produção de “matérias jornalísticas” não é novo. As colunas sociais são práticas recorrentes na imprensa brasileira, quicá mundial, desde sempre. Mesmo nas pequenas cidades, existem lá os jornalistas que se apresentam como colunistas sociais, em geral bajulando empresários e políticos locais, com falsas entrevistas, premiações arranjadas, fofocas e destaques para o irrelevante. E o pior é que em geral, ganham bom dinheiro agindo assim.

Refutar este tipo de posicionamento das empresas de comunicação não tem como raiz nenhum moralismo, mas sim, baseia-se num pressuposto saudável do que seja a moralidade.

No caso em questão, além da invasão das vidas pessoais, o que de per si já seria extremante grave, há uma informação sem nenhuma base fática, uma vez que o texto é todo redigido usando-se dos verbos na condicional, mas o que é ainda pior é o fato de mobilizar estereótipos, quando aponta como centro da notícia e causa de curiosidade o tema do homossexualismo.

Invadir a privacidade é um procedimento antiético. Divulgar uma informação sem evidenciar os fatos é uma atitude antiprofissional quando se fala em jornalismo. E usar as pessoas para promover uma discussão enviezada sobre um tema como o do homossexualismo, sobre qual pesam tantos preconceitos, que incidem sobre milhões de pessoas, sem aprofundar as opiniões e o diálogo sobre ele, é uma irresponsabilidade social.

Está certo o jogador Raí, ao processar a jornalista Fabíola Reipert e o R7. Na verdade, todos os atores, atrizes, jogadores, cantores e cantoras, sempre deveriam agir como Raí. Se alguns usam este tipo de artimanha para ganhar evidência e dinheiro, como se sabe que existem, eles é que estão errados e não devem merecer do público nenhuma atenção nem reconhecimento.

O que você pensa a respeito dessas colunas sociais e desses programas tipo “reality”, que ganham dinheiro bajulando ou invadindo a privacidade das pessoas?

Veja a seguir o vídeo de Pedro Cardoso discutindo o tema com Pedro Bial.