Publicações Recentes

Governo age para enfrentar problemas causados pela queda do dólar

14 de maio de 2011 / Edmar Roberto Prandini /

A deterioração do valor do dólar, que vem se manifestando desde a crise internacional que se seguiu à quebra do banco americano Lehmann Brothers, em outubro de 2008, sobre qual me referi algumas vezes aqui no blog usando-me da expressão “derretimento do dólar”, vem trazendo grandes desafios ao governo, dentre os quais destaca-se um forte aumento das importações.

O crescimento da economia brasileira, acentuado desde 2007, ano do lançamento do PAC, o Programa da Aceleração do Crescimento, durante o segundo mandato do Presidente Lula, e as altas taxas de juros, muito superiores àquelas encontradas na grande maioria dos países, tem contribuído para aumentar a atratividade do Brasil para os investidores, que tem ingressado com capital para financiar parte das inúmeras novas iniciativas de infra-estrutura ou instalação de novas plantas industriais no país, e especuladores internacionais, que tem procurado extrair ganhos financeiros do diferencial de juros pagos pelo Brasil.

No campo financeiro, o governo adotou como medidas, determinar a incidência do IOF sobre os investimentos estrangeiros em Bolsa, e depois a sua elevação até a alíquota de 6% sobre o rendimento. No campo do comércio exterior, o governo começa a agir, com medidas que visam reduzir o ritmo das importações.

É curioso o tratamento que os veículos de imprensa dão às medidas. Cientes de que são iniciativas que contam com respaldo do setor empresarial nacional, a mídia tenta caracterizá-las como se fossem um gesto voltado contra o fortalecimento do Mercosul, dirigido a prejudicar a indústria argentina e ainda como se fosse um rompimento do Governo Dilma em relação às estratégias de relacionamento internacional do governo Lula.

Obviamente essa abordagem despreza que a dinâmica da crise internacional vem se desenrolando, tendo como exemplos novos, a dívida grega e portuguesa, os processos de renegociação das mesmas e os acordos de “ajustes” que devem agravar fortemente os problemas sociais naqueles países. Desconsiderando essa mudança de cenário, querem interpretar as ações do governo Dilma como se a conjuntura fosse a mesma do governo Lula, como se governar fosse apenas manter-se teimosamente aferrado a algumas idéias, sem preocupar-se em encontrar respostas e caminhos para os problemas que vão se apresentando no decorrer do tempo.

De minha parte, penso que seja correto o governo adotar medidas para conter as importações, mas ainda considero que haja um equívoco na manutenção das altas taxas de juros, especialmente da taxa SELIC.

Governo planeja novas medidas para conter importações

“Não podemos ficar parados assistindo a nossa indústria ser devastada pela taxa de câmbio”, disse ministro Fernando Pimentel

Reuters | 13/05/2011 20:28

O governo planeja novas medidas para proteger a indústria local da queda do dólar, incluindo a investigação sobre produtos chineses que entram indevidamente no país por outras nações, afirmou à Reuters na sexta-feira o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel.

Pimentel disse que a investigação da chamada “triangulação” de bens será a primeira do tipo no país. O primeiro caso envolverá cobertores vindos da China que chegaram ao Brasil via Paraguai e Uruguai, com mais investigações sendo esperadas para os próximos meses, afirmou.

As medidas ocorrem conforme a presidente Dilma Rousseff enfrenta grande pressão de manufatureiros, importante eleitorado, para desacelerar uma enxurrada de produtos importados.

O dólar está relativamente próximo das mínimas da década, graças à força da economia brasileira e à avalanche de capitais oriunda do mundo desenvolvido.

“Não podemos ficar parados assistindo a nossa indústria ser devastada pela taxa de câmbio, que não vai mudar no curto prazo”, afirmou Pimentel.

O ministro também se reunirá com uma nova equipe de autoridades da Receita Federal e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para monitorar as importações, um passo que, segundo ele, vai substancialmente melhorar a capacidade do governo de compartilhar informações e identificar “dumping” e outras práticas comerciais injustas.

Alguns líderes empresariais brasileiros têm pedido por ações como essa há meses.

As medidas, somadas a outras recentes ações incluindo novas barreiras para reduzir a importações de automóveis, ameaçam provocar uma nova onda de protecionismo na América do Sul, possibilidade totalmente descartada por Pimentel.

“Isso não é protecionismo. São os instrumentos de que dispomos”, disse o ministro, acrescentando que as medidas são autorizadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Pimentel afirmou que as medidas para o setor automotivo, particularmente, não visam um país específico –incluindo a Argentina, que protestou fortemente contra a iniciativa.

“Há gente que acha que (a medida de autos) tem a ver com a Argentina. Não é assim. É parte de uma grande estratégia para proteger a nossa indústria, não é uma guerra comercial com ninguém”, disse.

Ele considerou o setor automotivo “estratégico” para o Brasil e disse que o recente salto nas importações de veículos é um símbolo das dificuldades enfrentadas pela indústria local.

O real já acumula ganho de pouco mais de 42% desde 2009, sendo considerado pelo Goldman Sachs a moeda mais sobrevalorizada do mundo dentre as principais.

A economia brasileira também está lidando com outros sinais de possível superaquecimento, incluindo o salto da inflação, cuja leitura em 12 meses pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) alcançou em abril 6,51%, acima do teto da meta, que tem centro em 4,5% e tolerância de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

No início desta sexta-feira, a ministra argentina da Indústria, Débora Giorgi, enviou uma carta a Pimentel pedindo que ele reconsiderasse a decisão de atrasar a concessão de licenças para veículos importados, algo que, na prática, reduz o comércio.

A iniciativa da ministra alimentou tensões entre as duas maiores economias sul-americanas. Pimentel citou que cerca de apenas metade das importações brasileiras de automóveis vem da Argentina e que a medida atingirá importações de outros países, como Estados Unidos e Japão.

“Estamos querendo conversar”

Pimentel respondeu a carta da ministra argentina, convidando-a para ir a Brasília a fim de conversarem sobre as importações de automóveis e outras questões de comércio bilateral. “Estamos querendo conversar”, disse ele, sem dar mais detalhes.

A disputa comercial impõe uma dor de cabeça nada esperada à presidente argentina, Cristina Kirchner, que deve tentar a reeleição em outubro.

Uma briga prolongada envolvendo a indústria automotiva argentina, que exportou cerca de US$ 7 bilhões em veículos e peças ao Brasil no ano passado, poderia ser suficiente para prejudicar a economia, que já sofre com uma inflação de dois dígitos.

Ao todo, a conta de comércio entre Argentina e Brasil somou em 2010 cerca de US$ 32 bilhões, sendo superavitária em US$ 4 bilhões para Brasília.

Cerca de dois mil veículos produzidos na Argentina pela Toyota, General Motors e Mercedes Benz estão parados na fronteira com o Brasil esperando para adentrar em território nacional, de acordo com a mídia argentina. As unidades no país vizinho da Fiat, Renault e Ford também embarcam automóveis ao Brasil.

“O atual problema vai se complicar para nós no início da próxima semana, caso não haja uma solução rápida”, afirmou à Reuters nesta sexta-feira uma fonte da indústria automobilística argentina.

A postura de maior confrontação no comércio representa uma mudança para o Brasil sob o governo de Dilma. O antecessor da presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, preferia geralmente minimizar tais disputas com China, Argentina e outros países, em nome da unidade entre nações em desenvolvimento.

“A mensagem é: este é um novo governo e não há mais a paciência estratégica que houve durante o governo Lula”, afirmou Mario Marconini, consultor de comércio em São Paulo.

Fonte: http://economia.ig.com.br/governo+planeja+novas+medidas+para+conter+importacoes/n1596951348469.html