Obviamente, não conheci a Madre Maurina. Mas, tive contato com várias pessoas que conviveram com ela e li sobre a questão do estupro de pessoas sérias. Que a Comissão da Verdade examine o caso é plausível, mas a matéria me parece bastante mal intencionada.

O que está em questão não é saber se a pessoa era adepta ou não da guerrilha, nem se ela professava o ideário “esquerdista”. O caso é que trata-se de levantar os atentados contra a humanidade, a barbárie, que em nome do anti-comunismo, de uma moral católica conservadora, foram cometidos indistintamente, contra homens e mulheres, de todas as faixas etárias, comunistas, socialistas, cristãos, índígenas, acusados de que sua discordância quanto à legitimidade da dominação representava risco á “segurança nacional”.

Não podemos pautar a discussão sobre a ditadura militar no tema da correção ou do erro das ideologias e doutrinas filosófico-políticas. A discussão é do abandono da civilidade, da renúncia aos preceitos dos direitos humanos, do desrespeito à democracia e ao processamento dialógico e negocial das divergências.

A Folha não dá ponto sem nó. Como ela apoiou a ditadura, agora anda numa fase de tentar minimizar o que aconteceu. Primeiro foi o uso do neologismo “ditabranda”. Agora, essa matéria para atacar a “esquerda”. Ela quer fugir do que realmente importa, que foi a quebra da democracia, da legitimidade, para fingir que o problema estava apenas no campo das ideologias. Matéria vergonhosa.

05/08/2012 – 04h37
Análise: Madre Maurina não foi vítima só da ditadura militar

LUÍS EBLAK
EDITOR DA “FOLHA RIBEIRÃO”

Madre Maurina Borges da Silveira não foi vítima apenas da ditadura militar brasileira (1964-85), que a prendeu e a torturou. Ela sofreu também com a esquerda e com a elite ribeirão-pretana da época.

Por trás dessa história está o macabro boato de que ela foi estuprada na prisão. Dessa suposta violência, teria nascido um filho. Não há provas documentais nem de uma coisa nem de outra –e a freira sempre negou os boatos.

Não à toa, o brasilianista Kenneth Serbin, um dos maiores estudiosos das relações entre a Igreja Católica e o Estado no Brasil, disse a esta Folha na semana passada que o caso da freira deve ser investigado pela Comissão Nacional da Verdade. O ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Gilson Dipp estuda essa possibilidade.

A religiosa (1928-2011) era apenas a diretora do Lar Santana, um orfanato de Ribeirão Preto, quando foi presa acusada de subversão em outubro de 1969. Sua vida começou a mudar drasticamente e aí surgiram seus três algozes.

O primeiro deles foram os próprios policiais, que suspeitaram que a freira tivesse ligações com as Faln (Forças Armadas de Libertação Nacional), grupo guerrilheiro de Ribeirão Preto.

Madre Maurina não era guerrilheira –no máximo, simpatizante de alguns dos ideais da esquerda.

Apesar disso, o caso ganhou tamanha repercussão que até o delegado Sérgio Paranhos Fleury (1933-1979) –famoso agente da ditadura– se deslocou para Ribeirão Preto para interrogá-la.

Acabou indiciada por subversão e levada até o presídio Tiradentes. Só deixou a cadeia após ser incluída na lista de presos políticos trocados pelo cônsul japonês Nobuo Okuchi, sequestrado pela esquerda em 1970.

CAUSA REVOLUCIONÁRIA

Foi neste momento que a religiosa se tornou vítima da própria esquerda, embora o enunciado talvez seja forte demais para este caso.

Madre Maurina não queria estar na lista nem deixar o país. Queria, sim, provar sua “inocência” e que não tinha relações com a esquerda.

Naqueles tempos de ditadura militar, fazer parte dessas listas significava, por tabela, aderir à causa dos opositores.

A esquerda fez algumas ações como essa: sequestrava gente importante para trocar por presos políticos.

A mais famosa das ações desse tipo foi a do embaixador norte-americano Charles Elbrick (1908-1983), cuja história de sequestro posteriormente foi transformada em livro (de Fernando Gabeira) e até em filme (de Bruno Barreto) –ambos chamados “O que é isso, companheiro?”.

Assim, a esquerda soube usar a imagem de madre Maurina –religiosa da Igreja Católica e pivô da inédita excomunhão de dois delegados acusados de tortura em Ribeirão Preto– como propaganda revolucionária contra o próprio governo.

Mesmo não sendo esquerdista, a madre serviu aos opositores da ditadura. E eles sabiam das duas coisas: que ela não compactuava com a “causa” e que sua imagem era muito útil à propaganda revolucionária.

3º ALGOZ

Nesse mesmo episódio da prisão da freira, surge o terceiro carrasco na história da madre: a elite ribeirão-pretana –esta narrada pela própria religiosa.

Perguntada por este repórter, em 1998, por que existiram os boatos de estupro e do suposto filho, ela contou que, quando dirigia o tal orfanato, devolveu 15 crianças para “mães solteiras ricas” que deixaram os filhos na porta do Lar Santana.

Madre Maurina disse que explicou a essas famílias que o orfanato era “lugar para os pobres” e não para mulheres da alta sociedade querendo abafar um escândalo social.

Na versão da freira, os boatos sobre o estupro e o suposto filho foram uma vingança dos “ricos” de Ribeirão contra ela, que pagou a vida toda por isso.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeiraopreto/1131911-analise-madre-maurina-nao-foi-vitima-so-da-ditadura-militar.shtml