Steve Jobs, o criativo empreendedor fundador da Apple, faleceu ontem, de câncer, nos Estados Unidos, aos 56 anos de idade.

O sucesso de Steve Jobs é reconhecido internacionalmente do mesmo modo que a corporação que ele criou, a Apple, é detentora de um dos mais altos valores de mercado dentre todas as grandes empresas do mundo.

Quando se observa para o alcance e o porte que Steve Jobs conseguiu alcançar com seus negócios, levando-se em conta todos os desafios que se apresentam para o desenvolvimento de qualquer empreendimento, torna-se inevitável lançar questões sobre quais foram os elementos que convergiram de modo favorável para Jobs superasse as adversidades, mantivesse a capacidade criativa e perdurasse com a força da liderança que levaram sua empresa ao patamar que ela alcançou no mundo dos negócios.

Evidentemente, não é fácil responder a este tipo de questionamento. Cada pessoa vai procurar explicar de uma forma própria e é provável que jamais consigamos chegar a um consenso absoluto a este respeito, assim como, jamais teremos absoluta convicção de que as tentativas de resposta que apresentamos tenham sido, de verdade, fatores determinantes para as conquistas de Steve Jobs.

Mas, ainda assim, temos todos o direito de emitir nossas opiniões, razão pela qual esboço aqui minha interpretação.

Há alguns anos, assumi como tarefa lecionar filosofia em cursos de administração de um Centro Universitário de Ribeirão Preto. A disciplina filosofia estava sendo introduzida nos cursos de administração por força de uma resolução do Conselho Federal de Administração, como disciplina obrigatória. Os alunos não entendiam bem o motivo e a literatura disponível no Brasil não tinha foco na atividade acadêmica, pelo que pecava em sua estrutura didática.

Mas, mesmo assim, aceitei as aulas e comecei a trabalhar, procurando aproximar a abordagem dos principais problemas filosóficos, como a ética e a lógica, por exemplo, da experiência vivencial dos gestores das mais variadas organizações, com o intuito de facilitar que meus alunos pudessem vislumbrar primeiro, quanto a administração é uma ciência humana, obrigada a lidar com a incerteza e as mudanças e, segundo, quão próximos os temas e os problemas filosóficos se colocam do cotidiano das organizações.

Lembro-me, perfeitamente, por exemplo, da abordagem sobre a felicidade, partindo do pensamento de Aristóteles, que no mundo dos negócios se apresenta sob as expressões da “agregação de valor” ou “oferta de benefícios aos clientes”, por exemplo.

Voltando ao caso de Steve Jobs, ele esteve em 2005 em Stanford, como paraninfo da formatura dos estudantes daquela que é considerada uma das mais importantes instituições de ensino dos Estados Unidos, nesta área. Ouvindo sua breve exposição, com que nos deparamos?

Jobs destaca, em primeiro lugar, que ele próprio não concluíra o ensino superior e que abandonara a faculdade para evitar que seus pais mantivessem um volume de despesas maior do que podiam suportar. Obviamente, com isto, ele não estava desmerecendo o valor do processo educativo, mas ele queria ressaltar que a força da inteligência e da criatividade não se submetem à exigência de diplomas e certificações, o que, para mim, sempre se evidenciou nos trabalhos comunitários em bairros da periferia ou na participação em diversos movimentos sociais e pastorais. Lembrei-me, ainda, do brilho da inteligência de Lula, que hoje é internacionalmente reconhecida, ainda que restem no Brasil pessoas que parecem se extasiar de denegrir a figura de nosso ex-presidente, por puro preconceito.

Destacar, como fez Steve Jobs, na sua fala, sobre a importância de manter a atenção aos detalhes que vão compondo o universo de informações ao nosso redor e de como “ligar os pontos” de todas as aprendizagens obtidas na vida é apontar para a principal capacidade que a filosofia nos facilita desenvolver: a visão de conjunto, a percepção da complexidade, a noção de totalidade de sentido que constitui a realidade em que nos inserimos.

Mas, Steve Jobs em seu breve discurso, foi além disso. Ele mostrou quão valiosa é a humildade, ao ressaltar um dos aspectos que mais ocupou o pensamento dos filósofos do século XX, a percepção da proximidade com a morte. Não pude deixar de lembrar-me dos pensadores existencialistas, por exemplo, de Heidegger, de maneira mais clara, quando afirma que o homem é o único ser que possui a consciência da morte e vive o cotidiano cercado por essa certeza da finitude.
Em Steve Jobs, entender que a morte é nossa vizinha permanente representou a oportunidade para enfatizar o direito de tomar decisões com a sensação da liberdade e a “rebeldia” de quem sabe que o único verdadeiro compromisso que devemos assumir é com as melhores decisões e aquelas que mais resultem em alegria e satisfação.

Ele fez questão de acentuar que as pessoas devem continuamente procurar fazer o que elas amavam e o que lhes dava prazer. É interessante ouví-lo narrar a dor que ele experimentou ao ser demitido da empresa que ele mesmo criou e de como amar seu trabalho e, em função disso, ser capaz de sempre inovar no desenvolvimento de novas soluções foi a alavanca que lhe permitiu retornar à Apple, impelindo a empresa para os novos caminhos que ela veio a seguir.

Os temas da fala de Steve Jobs, como se depreende, são aplicações diretas de questões de natureza filosófica no mundo da administração, não se pode negar. Que sua morte propicie que mais pessoas passem a acreditar no valor do amor, na possibilidade criativa que fugir aos “esquemas” pré-concebidos possui, na importância de manter a sobriedade mesmo quando as coisas parecem não dar certo e manter-se na luta para ser felizes.