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Esquerda, volver: a oportunidade da agenda política progressista

17 de junho de 2013 / Unipress /

Há muita gente se perguntando sobre o significado das manifestações que estão ocorrendo em várias partes do país protestando contra os aumentos das passagens do transporte coletivo, ônibus, trens e metrôs.

Com os veículos da mídia tradicional e conservadora focados na agenda de ataques ao PT, com olhos obviamente voltados para a eleição de 2014, há uma enorme concentração do olhar em São Paulo, pretendendo desmoralizar a administração petista de Fernando Haddad, com a esperança de que isso resvele na imagem do partido e contribua para impedir uma vitória em primeiro turno da Presidenta Dilma em sua probabilíssima tentativa de reeleição.

Um grupo de petistas evidencia estar com receio do enfraquecimento de Haddad e do êxito da estratégia da mídia tradicional e, por isso, têm se posicionado no sentido de dizer que o aumento é pequeno, que as manifestações na capital paulista foram marcadas pela violência, que não há como retroceder no reajuste das tarifas.

O que, entretanto, este grupo parece não compreender é que as manifestações atuais não são fenômenos isolados nascidos como que num passe de mágica de uma juventude que até ontem estaria em estado de letargia e que repentinamente teria decidido de uma forma meio que impertinente vir às ruas só para causar dificuldades à gestão petista.

O discurso de que devemos “defender os governos do PT” para “assegurar as conquistas” dos anos recentes sob os governo de Lula e Dilma é insuficiente para estancar com as atuais manifestações.

Faz-se necessário observar as manifestações sobre as tarifas do transporte coletivo dentro de um contexto bem mais amplo e compreender que elas estão inseridas num ambiente de apresentação de uma agenda política mais progressista e mais democrática, em que se se reconhecem avanços expressivos no esforço de inclusão social dos últimos dez anos, também se quer reforçar os canais para escoamento e tratamento de outras demandas de cidadania.

Em primeiro lugar, há o objetivo de reforçar o reconhecimento da dignidade e do direito inalienável de quaisquer manifestações e não apenas daquelas cujas agendas seja aquelas aceitas pelos governos. Se as “Marchas das Vadias”, da maconha, as Paradas Gays, por exemplo, podem ocorrer sem que sejam agredidas pelas PM porque são tratadas quase como “festa” ou “folclore”, por que as manifestações contra aumentos de passagens de transporte coletivo devem ser agredidas e reprimidas violentamente pela Polícia Militar ou rejeitadas pelos partidos “progressistas” como se representassem algum tipo de traição aos governos Lula e Dilma?

Em segundo lugar, há que se reconhecer que as manifestações trazem um componente de questionamento de coerência do PT que, segundo os manifestantes, não vem sendo fiel à sua história, na medida em que, no governo e nos processos eleitorais, tem, por um lado, se aliado a setores retrógrados da política nacional, tais como Sarney e Maluf, por exemplo, enquanto, por outro lado, viu suas lideranças afastarem-se dos movimentos sociais. Esta crítica sempre existiu dentro do próprio PT, sendo muitas vezes desconsiderada, especialmente pela corrente majoritária do partido, em nome das pactuações eleitorais e do pragmatismo, como se isso não afetasse a imagem do partido.

Nota-se, neste momento, que para os jovens manifestantes, o PT não tem credibilidade, como se fosse um partido como os demais, exclusivamente interessado em manter-se no poder, o que os leva a confundir as políticas sociais, como o Bolsa Família, com artimanhas que teriam exclusivamente o interesse em obter os votos dos eleitores empobrecidos. Ou seja, segundo esta leitura, a preocupação social do PT não seria constitutiva do próprio DNA partidária, mas ação de caráter meramente instrumental, visto que o partido, como todos os demais, visaria exclusivamente sua permanência no poder.

Obviamente, trata-se de um alerta importante para o PT, que precisa evidenciar que sua aliança com os movimentos sociais não se trata apenas de oportunismo eleitoral. É interessante notar como a questão indígena possui relevância e apelo junto a estes setores da juventude e que, para ela, a responsabilidade pelo que vêm acontecendo neste campo é do governo do PT.

É evidente que o governo está perdendo a luta pela comunicação, especialmente depois da posse de Dilma, e que a falta de uma adequada política de comunicação está arranhando a imagem do PT como o partido aliado das lutas populares, da ética na política e das transformações sociais mais profundas. Este é o sentido das críticas à Copa do Mundo, vista como uma prioridade que deveria secundária, enquanto temáticas como da saúde, por exemplo, deveriam ocupar muito mais a agenda governamental e alcançar resultados mais rápidos e efetivos.

Por fim, a força da luta pela redução da tarifa de ônibus é uma consequência direta da medida que promoveu a redução das tarifas da energia elétrica. Se se pode reduzir o preço das tarifas de energia, porque não se podem reduzir as tarifas do transporte público? Este questionamento explica de que modo o tema da tarifa de São Paulo se transformou num rastilho que levou jovens de cidades de todo o país às ruas agora.

Há pouco mais de um ano das eleições presidenciais de 2014, os movimentos e manifestações dos últimos dias devem ser pensados pelo governo e pelo PT, de modo especial, como uma oportunidade de fortalecimento de uma agenda política mais ousada e mais progressista, que reposicione o partido em suas linhas originais de atuação e militância social, de modo a construir pontes de comunicação com uma geração que não vivenciou as lutas que deram origem ao PT e que, por isso, não sente como esses compromissos políticos são profundos e sinceros para o partido.