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Eleições 2010: entre a democracia e a barbárie

17 de abril de 2010 / Edmar Roberto Prandini /

Estamos assistindo a um embate entre políticos, jornais e entre os próprios institutos de pesquisa, no que diz respeito às suas metodologias e credibilidade, em função das pesquisas sobre as opções eleitorais para a Presidência da República.

Em torno deste embate, um comportamento belicoso e rancoroso se está manifestando via internet. Comportamento que não difere em nada do que poderíamos chamar de “instintos primitivos”. Trata-se de uma ética perversa, aguerrida, grosseira, que se nutre da ofensa aos oponentes, da afirmação de que os que não compactuam com ela não possuem nenhum valor. É uma ética da eliminação do diferente.

O jornalista Luis Nassif referiu-se àqueles que tem estimulado a difusão deste tipo de comportamento chamando-os de irresponsáveis. O adjetivo “irresponsáveis” nada tem a ver com o sentido e a orientação fascistóide que tem sido dada à guerra virtual em torno das eleições.

Pelo contrário, e isto sim é o mais preocupante, estamos observando que certo segmento social está investindo na exacerbação política para arregimentar adeptos, o que em si mesmo não possui nenhuma novidade, para quem se lembra de como sempre foram violentas as disputas por mando no interior do país, de como constituiu-se o centrão durante a Constituinte e da origem da UDR. Estamos lidando, portanto, com um tipo recorrente de conduta de um segmento social que sempre ocupou os espaços de decisão na sociedade brasileira.

Ocorre que se a democracia se constitui em um conjunto de processos institucionalmente elaborados pelos quais se pretende estabelecer canais de mediação e negociação dos conflitos, distintos da violência, da barbárie e da guerra, ao segmento social que alimenta esta postura, ela, a democracia, não interessa.

Ao longo da década que está terminando, alguns fatos confirmam isso: a tentativa de golpe da Venezuela; a ameaça de secessão na Bolívia; o golpe em Honduras… Foram sintomas de um movimento de reação contra a democracia se ela amplia não apenas o consumo dos pobres, mas o direito que eles possuem de ir e vir: pobres não podem entrar na universidade; pobres não podem compartilhar dos mesmos vôos; pobres não podem possuir canais para a interlocução pública nem pretender deliberar sobre as políticas de saúde, comunicação, transportes, educação, segurança alimentar, cultura, meio ambiente, etc.

Estamos lidando, portanto, com oponentes da democracia, defensores de um modelo que pressuponha a manutenção de uma espécie de gueto, de apartheid social.

A pergunta que devemos nos fazer refere-se a quais serão os meios pelos quais estes, enfraquecidos eleitoralmente, como provavelmente terminarão o ano, pretenderão ecoar sua representação política e sua raiva. Temos que nos manter atentos e articulados para evitar que a derrota que a eles se anuncia não seja motivo para que invistam claramente na opção pela barbárie.