Declaração do Fórum das Teólogas Indianas 2013

Publicamos aqui a Declaração do Fórum das Teólogas Indianas 2013, que se reuniu entre os dias 2 e 4 de maio, em Bangalore.

O texto foi publicado no sítio Catherine College, 14-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Fórum das Teólogas Indianas (IWTF) se encontrou entre os dias 2 e 4 de maio de 2013, no Centro de Espiritualidade Montfort, em Bangalore, para refletir sobre o tema “Mulheres e Liderança”. A partilha da nossa experiência pessoal como mulheres líderes em várias esferas revelou o traço comum da experiência das mulheres do divino interior e a sua capacidade de responder com fé e coragem.

A injunção bíblica “Ele te dominará” (Gn 3, 16) parece ser a sanção religiosa que legitima o controle masculino sobre as mulheres dentro das esferas da família, da Igreja e da sociedade em geral. Hoje, o mau uso desse poder assumiu proporções violentas, como visto na criminalização da política, no deslocamento dos pobres através da usurpação de suas terras e recursos, na corrupção em que a política é usada para proteger a riqueza, a fraude, o estupro, o crime, a cultura da impunidade e do status quo. A pobreza está caindo para o nível de indigência que não pode ser capturado pelas porcentagens ou descrito pelas estatísticas.

O abuso de poder se reflete em questões de governança, de lei e de ordem que estão assumindo um significado crucial e crítico nos nossos tempos. A principal preocupação é o aumento da violência contra as mulheres que está se intensificando em grau e extensão em termos de brutalidade. Essa violência contra as mulheres está ocorrendo em novas categorias e dimensões em todas as idades. As instituições existentes da lei e da justiça não estão conseguindo lidar com a situação das vítimas e promover a justiça. Precisamos olhar criticamente para as raízes da violência contra as mulheres nas estruturas de poder patriarcais que continuam marcando a vida das mulheres.

Como mulheres líderes comprometidas com o bem-estar da sociedade, em particular das mulheres, condenamos fortemente:

– a escalada dos casos de agressão sexual brutal de meninas e mulheres;

– o assédio das vítimas por parte da polícia e durante o processo judicial;

– os procedimentos legais que causam tortura mental às sobreviventes de estupro, especialmente às de conflito comunitário.

Embora apreciemos a aprovação da emenda ao Criminal Law Act 2013, que garante um julgamento rápido para as vítimas de agressão sexual, esperamos que ela também seja aplicável aos casos pendentes.

Vemos a liderança feminista como o exercício do poder transformador. O poder transformador está conectado à ética do cuidado, da compaixão e da conectividade. O poder transformador escuta as vozes das pessoas nas margens ou nas periferias, e vê através dos olhos daqueles que não têm voz, esperança e poder.

A liderança transformadora exige que demos as mãos às pessoas, as acompanhemos e facilitemos a mudança, não pelo controle, mas sim pelo amor. A justiça deve ser restauradora da dignidade das pessoas e reconciliadora, em vez de vingativa e retributiva.

A liderança feminista trabalha pelo bem-estar das pessoas, colaborando com fins comuns, criando ambientes que promovem o crescimento dos indivíduos, das comunidades, empoderando-os e libertando-os para a missão.

Temos esperança assim como reconhecemos que as emendas 73 e 74 à Constituição criaram espaço para mulheres líderes na base, muitas das quais têm sido capazes de provocar uma mudança dos jogos de poder políticos para abordar as necessidades centrais das suas comunidades, como a água, a educação e a saúde. Essas lideranças romperam o mito de que as mulheres são incapazes de lidar com o poder e a responsabilidade fora das suas casas.

No entanto, estamos preocupadas com o tipo de liderança que está sendo projetada nas próximas eleições, que ameaça o tecido secular da nossa nação e marginalizaria ainda mais as grandes massas de pobres em nome do chamado desenvolvimento. Gostaríamos de ver lideranças que sejam comprometidas com a ética do cuidado e a compaixão pelas pessoas e pela terra.

Observamos que a Igreja do centro prega a mensagem, e a Igreja da periferia a vive, apesar do fato de que a Igreja da periferia tem uma mensagem importante para compartilhar com o centro, que não consegue recebê-la. Apreciamos e endossamos o apelo do Papa Francisco por uma Igreja dos pobres que “pregue o evangelho em todos os momentos, se necessário usando palavras” (São Francisco de Assis). Isso levaria o centro para a periferia para realmente viver a mensagem do evangelho.

Estamos preocupadas com o vínculo acriticamente sustentado entre jurisdição e ordenação, e a consequente exclusão das mulheres da liderança na Igreja, especialmente quando elas têm tanto a contribuir para uma “Igreja dos Pobres”.

É hora de reconhecermos os dons uns dos outros e unirmo-nos juntos para ver com novos olhos a visão feminista, que é igualitária, inclusiva e compassiva, para abordar essas diversas formas de violência contra as mulheres e os pobres.

Inspiramo-nos em modelos de liderança das mulheres na tradição bíblica, particularmente nas comunidades paulinas, em que redescobrimos que as mulheres eram líderes dinâmicas que atuavam como diaconisas investidas de autoridade para ensinar, pregar, administrar e evangelizar. A palavra grega diakonos refere-se tanto a homens quanto a mulheres. E, a partir da menção de Paulo a Febe como diakonos (cf. Rm 16, 1-2), de Priscila como mestre (Rm 16, 3) e a Júnia como apóstola (Rm 16, 7), fica óbvio que Paulo reconheceu a liderança das mulheres nos âmbitos da oração, do ensino, da administração e da evangelização. Inspiradas por esses exemplos, urgimos as mulheres a reivindicar o seu espaço legítimo, como modelado pelas mulheres na Igreja primitiva.

Em conclusão, reconhecemos que fazer teologia é uma tarefa política que critica e profeticamente chama todas as mulheres líderes a desenvolver uma nova visão e imaginação, e a exercer o poder que permite, encoraja e empodera as pessoas nas margens, particularmente os que não têm voz, a exercer o seu direito de viver a vida em toda sua plenitude (Jo 10, 10).

Comprometemo-nos a fazer evoluir a liderança das mulheres que tem suas raízes nos Evangelhos e é vida que se dá a todas e a todos.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520407-declaracao-do-forum-das-teologas-indianas-2013