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Dicas para iniciar a discussão sobre a ciência

15 de dezembro de 2012 / Edmar Roberto Prandini /

Quando eu lecionava nos cursos de graduação, sempre que surgia o tema da ciência: o que é a ciência?, quais suas fontes de legitimidade?, eu sugeria a leitura do excelente Rubem Alves (Filosofia da Ciência) e indicava que se atentassem às alegorias logo no começo do livro. Ali, encontrariam uma alegoria muito inteligentemente utilizada pelo teólogo, filósofo e educador Rubem Alves, que era a imagem do mecânico tentando decifrar os problemas do motor do veículo. Acho extraordinária essa escolha de R.Alves.

O que se depreende da leitura sobre a atitude do mecânico explicita o comportamento do cientista. Explico: não existe titulação que faça nascer o cientista. A ciência é uma atitude, um modo de ser e de agir, não é um título. O comportamento do cientista é o que o faz ser cientista ou não.

Então, qual a postura do cientista que Rubem Alves aponta na figura do mecânico. Primeiro, o homem atento. Atento e receptivo, que admite que o que não está visível à primeira observação pode estar presente e pode estar acontecendo. Ele ouve o cliente dizendo que está ouvindo um ruído diferente no motor de seu carro e então passa a verificar se tal diferença existe mesmo. E, ainda que no primeiro momento não confirme a informação, ele se mantém aberto à possibilidade de que o problema exista e, então, decide testar, testar, e desse modo checar se o possível problema existe ou não. Segundo, o homem que trabalha com a elaboração das hipóteses explicativas. Caso, no processo de exploração do problema do veículo ou de seu motor, o ruído diferente relatado pelo cliente seja captado, então, ele inicia o esboço intelectivo das alternativas explicativas: o que poderia ser? opção A, opção B, opção C… tantas quantas forem possíveis para aquele caso. E, então, passa a tentar reproduzir situações que permitam conferir tais opções, para que – aqui a terceira postura típica do cientista – caso uma delas se verifique, passar então aos procedimentos de ajuste e conserto do problema. Ou seja, o cientista não é apenas alguém que identifica problemas e idealiza explicações, mas é alguém que põe-se em busca de soluções.

Mas, além do brilhante livro de Rubem Alves, enquanto professor, ciente de que poucos alunos de fato iriam fazer a leitura do livro, eu também indicava a eles, com muito maior esperança de que o fizessem, que assistissem o filme O Náufrago, com Tom Hanks. Tirando o merchandising da Fedex, o filme é brilhante. E, um dos aspectos mais interessantes é exatamente o modo pelo qual o personagem passa a examinar o ritmo da natureza, marcar o tempo, as ondas do mar… ele faz uma exploração minuciosa do ambiente e desenvolve, com os parcos recursos de que dispõem, as ferramentas (tecnologia) necessárias para superar o desafio de escapar da ilha em que foi obrigado a viver pela tragédia que lhe acometeu.

Penso que sejam duas peças interessantes para iniciar essa discussão. Fica como sugestão para os professores, muito melhores do que eu, obviamente. Ou para aqueles que gostam de ler e assistir material de boa qualidade. Bem, na minha avaliação, é claro.

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