Ontem, partindo de um artigo escrito por Carmelita Rodrigues, psicóloga, no blog Psicopauta, publiquei um texto que chamei de A controvérsia da legalização da maconha.
Um dos assuntos aos quais Carmelita fez referência e sobre o qual não fiz nenhuma consideração ontem foi a afirmação de que o problema com as drogas, e por consequência, com a legalização da maconha, é que seu uso tem como consequência “tirar a pessoa da realidade”, obviamente, já que se tratam de substâncias às quais nos referimos como “alucinógenas”, ou seja, capazes de gerar alucinações.
Perder consciência da realidade e enredar-se no universo da imaginação e da alucinação seria então, na perspectiva de Carmelita, o mal principal causado pelo consumo da maconha ou de outras drogas, mesmo as lícitas, como a bebida, por exemplo.
Extrapolando o limite estrito da controvérsia sobre a legalização da maconha, a que me referi, o tema da consciência da realidade e da submissão a ela versus a opção por enredar-se nos caminhos da imaginação abre espaço para uma discussão de grande fecundidade no que concerne às posturas e práticas vivenciais, tanto com aplicação sobre o indivíduo quanto a coletividade.
É de costume usarmo-nos da expressão “está por fora” para nos referirmos a pessoas que consideramos estejam se comportando diferentemente dos padrõoes medianos de práticas que adotamos como aceitáveis. Esta é, portanto, uma declaração de que as ações e vivências com quais tais pessoas exprimem-se no tempo e no espaço, revelando suas decisões ou comportamentos acerca dos quais livremente deliberaram seriam algo de perfil exótico, histriônico, deslocado.
Importa aqui observar que se faz subjacente uma manifestação clara de que determinadas ações e práticas refletem, por oposição, o “estar dentro” e, mais que isso, que as ações e práticas adotadas pelo grupo ao qual pertenço, estas sim correspondem ao dentro enquanto as demais são o fora.
Obviamente, definir o “por dentro” e o “por fora” explicita, portanto, um sentido de tentativa de apropriação sobre a correção das práticas e um sentido de conflito de poder entre o convencional e o diverso.
Mas, o problema é, ainda, de maior profundidade, em dois sentidos. O primeiro, ao qual vou designar como viés negativo de análise, refere-se ao fato de que pensam enquadrarem-se como “de dentro” na verdade revelam ocultar à suas próprias consciências que assumir a agenda de tarefas e compromissos supostamente impositivas da vida, tais como o trabalho, as responsabilidade e as negociações cotidianas para sanar os problemas, não invalida o fato de que grande parte de seu cotidiano é ocupado por vivências que remetem exatamente a produção de caráter imaginativo ou lúdico, como as festas, os encontros afetivos ou familiares, os esportes e o lazer.
A segunda dimensão, refere-se ao viés que vou designar de positivo< que vislumbra o fato de que a capacidade criativa e de inovação são dimensões especificamente humanas da racionalidade e que impulsionam mudanças e tem, em geral, como consequência, alterações expressivas no ambiente econômico. Decorrem delas tanto a expansão da produtividade, quando se mantém em uso a mesma tecnologia, quanto o desenvolvimento de novas tecnologias, que quando ocorrem, produzem, como efeito, novas realidades, novas fisionomias para a realidade e novas relações sociais, inclusive com a alteração das classes sociais hegemônicas e das relações de poder.
Quer dizer: pelo viés "negativo", os que se pretendem "por dentro" omitem que uma parte considerável de suas práticas e ações não são tão responsáveis e comprometidas quanto eles imaginavam, além de que por vezes exercitam a liberalidade da imaginação e da alucinação.
Pelo viés "positivo", os que vivem "por fora" são os responsáveis por grande parte do desenvolvimento da tecnologia e da inovação, capazes de impelir as transformações mais significativas e desejadas do mundo e da "realidade".
Não bebo, nõa fumo, não uso drogas. Mas, é comum que as pessoas me considerem estar "por fora". Concordo que vivo de modo diverso daquele da maioria das pessoas ao meu redor, mas me pergunto com frequência de que lado estou: de "dentro" ou de "fora" da realidade?
E tento, sinceramente, escolher o que há de valor na realidade e o que há de valor na imaginação e na inovação para trilhar meus passos.
Mas, como definir se estou por dentro ou por fora da realidade?
E você, onde está?
O que tem mais valor?
Leia também:
Gostou deste Artigo?
Inscreva-se para acompanhar o nosso RSS feed!




