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Da falsa delação de Delcídio à atrevida condução coercitiva de Lula

5 de março de 2016 / Edmar Roberto Prandini /

Esta semana encerra uma das mais trágicas sequência de acontecimentos da história brasileira.

Começou com a divulgação pela revista Istoé de uma suposta delação premiada do senador Delcídio do Amaral em que ele faria acusações diretamente contra Dilma e contra Lula, de modo a envolvê-los em ilicitudes e em condutas incriminatórias, no exato dia em que Dilma estava promovendo mudanças no Ministério da Justiça e na Advocacia Geral da União.

Poucos dias depois, veio o golpe ainda mais agressivo: por determinação do juiz federal Sérgio Moro, a Polícia Federal foi ao apartamento de Lula em São Bernardo do Campo, para realizar sua “condução coercitiva” para depoimento em São Paulo.

A publicação da Istoé baseia-se em uma documentação que seria cópia da delação premiada de Delcídio do Amaral que se tivesse origem em documentos verdadeiros teria de ter sido feita na Procuradoria Geral da República, pelo fato de ele ser Senador da República.

Além dos desmentidos do conteúdo das acusações, pelo ministro José Eduardo Cardozo, que deixava o Ministério da Justiça para assumir a Advocacia Geral da União, o próprio Delcídio Amaral declarou desconhecer aquela documentação e o Procurador Geral da República afirmou desconhecer que Delcídio Amaral tivesse feito uma delação premiada.

Por sua vez, o advogado de Delcídio, Gilson Dipp, afirmou que não teria sentido em defender a inocência de Delcídio, como está fazendo, se ele tivesse feito uma delação premiada, porque, para isso, ele precisaria assumir culpas, afim de negociar redução de penalizações, atitude que Delcídio não tomou.

Assim, está correta a Presidenta Dilma ao afirmar que a suposta delação premiada de Delcídio Amaral é apócrifa, ou seja, trata-se de invencionice e de fantasia mentirosa da imprensa para incendiar a cena política nacional contra o governo Dilma e contra o ex-presidente Lula. Pode parecer impossível considerar que um veículo de imprensa atue deste modo, mas quando se recorda da edição do debate eleitoral entre Collor e Lula na eleição de 1989 ou da falsa ficha criminal construída anos atrás contra a própria Dilma Roussef pela Folha de São Paulo, sabe-se que há precedentes de manipulação e baixarias inimagináveis que as empresas de comunicação brasileira são capazes de veicular quando lhes interessa sair do campo da informação para o campo da militância política ideologicamente conservadora.

É por esta razão que a mídia brasileira recebeu a alcunha de PIG – Partido da Imprensa Golpista anos atrás, pelo jornalista Paulo Henrique Amorim: porque ela se comporta como um partido político direitista procurando não apenas noticiar os acontecimentos da política brasileira, estadual ou regional, mas interferir na criação de fatos políticos que possam ser explorados pelos atores políticos conservadores para desestabilizar os governos, se suas políticas não lhes atendem.

Assim, a finalidade da publicação da Istoé foi reabrir espaços para a oposição, representada, por exemplo, pela voz do senador Aécio Neves, voltar à carga com a temática do impeachment de Dilma, escondendo o fato de que a trama pelo impeachment havia sido montada considerando a condução do processo por Eduardo Cunha, o que já não se sustenta mais.

Na verdade, a publicação da Istoé cumpriu o papel de salvar tanto a pauta do impeachment praticamente enterrada desde o fim de 2015 quanto esconder o próprio Eduardo Cunha dos danos políticos e de imagem causado pelo julgamento de admissibilidade da abertura de processo judicial contra ele, pelo STF, com votação unânime dos ministros do Supremo pela conversão de Eduardo Cunha em réu de processo criminal.

Afinal, a imagem dos líderes da oposição, Aécio principalmente, estava tão associada à de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, que havia necessidade de fabricar algum artefato capaz de manter espaço para a expressão política de Aécio e dos líderes do PSDB, dissociando-a de Eduardo Cunha. Uma espécie de divórcio forjado. Eduardo Cunha sai de cena, entra a falsa delação de Delcídio, e o Aécio volta a ter um discurso a proferir, ainda que tão fajuto quanto o ataque ao Serra por uma bolinha de papel na campanha eleitoral de 2010.

O que torna mais grave o momento atual é que além da imprensa jogar esse jogo sujo em articulação com representantes políticos que se desqualificam cada vez mais ao fazer parte deste tipo de enredo,
é o fato de que um juiz federal preste-se a povoar a cena política com arbitrariedades jurídicas apenas para ajudar a insuflar este mesmo movimento oposicionista.

Afinal, não havia nenhuma informação objetiva a ser obtida mediante depoimento de Lula. Todas as acusações contra ele foram feitas, resumindo-se em besteiras como preço fixado por palestras, o uso emprestado de um sítio e reformas por uma empresa em um apartamento, todas recebendo os devidos desmentidos e esclarecimentos inclusive por meio de documentos, de depoimentos do próprio Lula e de testemunhos, cabendo agora a quem queira manter as acusações provar de que os desmentidos e testemunhos não são verdadeiros, não ao contrário. Então, nada havia que motivasse a necessidade de novo depoimento, muito menos sob condução coercitiva.

Este foi um expediente usado para criar cena para imagens televisivas: informada do acontecimento, veículos de imprensa estavam na porta do edifício onde Lula reside gravando as viaturas da polícia federal que o levariam para depor. Ora, isso nada tem de procedimento jurídico. Trata-se de show de mídia orientado para a destruição da imagem pública do maior líder político e popular da história brasileira. Por isso, tanta ênfase fora dada dias antes às pesquisas de opinião pública que detectaram arranhões à imagem de Lula no imaginário popular.

É esta arquitetura da narrativa golpista: compõe-se por empresas de mídia interferindo na criação de fatos políticos mediante documentos apócrifos, coadjuvantes dentre os representantes políticos, como o Aécio, para transformar em discussão parlamentar o que é um manobra torpe, e um juiz que prescreve medidas judiciais em desconformidade com a lei para criar pirotecnia contra o ex-presidente Lula e, deste modo, abalar as bases de sustentação política do governo Dilma.

A oposição acredita que, juntando-se tais movimentos, com mais alguns atos públicos, como os previstos para o dia 13 de março, com as dificuldades econômicas e fiscais do governo, criem-se as condições para a deposição de Dilma de seu mandato, ou a deposição completa de sua condição de governabilidade, além da erosão de qualquer capacidade de reação do PT ou de Lula.

A oposição quer, com isto, forçar a migração do poder, resgatando para a elite conservadora o que ela considera que seja de sua propriedade, ocupado temporariamente, pelos governos de liderança petista.

Atingir Lula, entretanto, pode ter sido um erro crasso. Porque sua capacidade de reação é impressionante. E, porque, segue sendo enorme o número daqueles que não apenas devotam-lhe respeito e admiração, mas que identificam-se com ele, e dos que nutrem por ele verdadeiro amor ou gratidão.