Houve um esvaziamento absurdo na política de seleção de pessoal nos governos, mediante a contratação volumosa de terceirizados, em nome de uma suposta melhoria gerencial.
Agora, o pêndulo do discurso mudou de lado. O Ministério Público e o Ministério Público do Trabalho tem afrontado os governos repletos de trabalhadores comissionados e terceirizados exigindo que sejam realizados concursos públicos para substituir os terceirizados que seriam trabalhadores selecionados por acomodações de interesses espúrios, compromissos de campanhas eleitorais, aproveitamento da estrutura do poder público para beneficiar pessoas sem competência, etc.
Muitos sindicatos de trabalhadores no serviço público passaram a exigir que os cargos comissionados sejam ocupados por servidores de carreira e o que se vê é uma avalanche de críticas aos trabalhadores terceirizados.
E, para piorar, políticos quase nem um pouco compromissados com a ética, fazem verdadeiras campanhas de chantagem política contra os governos, usando-se do slogam da obrigação de realizar concursos para impor desgaste político aos governantes, que, se não realizam concursos, estariam comprovadamente emitindo um atestado de estarem comprometidos com o oportunismo.
No blog do jornalista Luis Nassif, de ontem, foi publicado um comentário de que 1/3 das demissões no serviço público ocorrem por ilícitos realizados por ocupantes de cargos comissionados não concursados!
Eis a prova dos excessos e a inconsistência absurda dessa linha de argumentação. Me assusto com a falta de cuidado com os excessos.
Vejamos: se essa informação estiver correta, então, do mesmo modo ela significa que 2/3 das demissões no serviço público, dentre os cargos comissionados, por ilícitos, são de servidores concursados. Óbvio! Mas, o comentarista em questão não se deu conta do que disse.
O discurso contra a livre nomeação nos cargos comissionados é exagerado e tem nitidamente o perfil de ser corporativista, ou seja, pretensão de reserva de mercado pelos servidores.
O problema é que a democracia exige que o Estado seja receptivo às determinações da sociedade quanto às forças políticas escolhidas para governar o Estado e aplicar à condução do mesmo sua orientação política. Sem poder nomear os responsáveis pelas funções e cargos de comando, como se faria isso?
Eu fiz vários concursos públicos nos anos recentes e aguardo nomeação em concurso estadual. Compreendo a valia do concurso como mecanismo de seleção pública, mas destaco, inclusive, que a estabilidade no emprego é um privilégio concedido pela Constituição ao servidor, mas por uma razão extremamente relevante: para que o servidor possa opor-se às investidas oportunistas e patrimonialistas dos governantes de plantão.
Ocorre que os servidores públicos pouco aceitam que a estabilidade no emprego seja um privilégio constitucional – costumam pensar que seja um direito gerado por seus méritos pessoais, e, com isso, esquecem que a contrapartida que lhes exige a Constituição seja o zelo pelo bem público como bem da res pública. Isso é evidente. Enquanto o conceito do privilégio teria como consequência fortalecer uma espécie de mística do servidor público como “servidor” da sociedade e do bem público, o que vemos, em muitos casos, é a ênfase na detenção excessiva de direitos, que converte o privilégio socialmente necessário em um conjunto de privilégios muitas vezes odiosos, quando comparados às condições de trabalho a que se submetem os trabalhadores da iniciativa privada. Nesta hora, ao invés de pensar na obrigação constitucional de zelar pelo bem público enquanto público, os servidores tendem a explicar que obtiveram os benefícios por sua competência e dedicação. Ao invés de um “ethos” do bem público, um “ethos” da concorrência dos “melhores” contra os “piores”.
Não acho, portanto, que seja o caso de mitificar os servidores públicos, nem para o bem, nem para o mal.
Mas, movidos por este “ethos dos melhores”, muitos servidores públicos sentem-se no direito de se apropriarem do Estado, pretendendo-se, inclusive “superiores” intelectualmente àqueles que chegam às funções de comando por canais politicos, como se os governos devem-se ser governados pelos “mais sábios” (numa linha que alude ao antiquíssimo ideário de Platão, na Grécia antiga), “mais competentes”, enquanto que a dimensão política deveria ser desprezada. Vejam o risco que isso representa para a democracia.
Movidos por este espírito, é frequente que os servidores públicos atuem de modo equivalente a verdadeiras sabotagens contra seus chefes, creio que ninguém se surpreenda com essa afirmação.
Encerro, afirmando que defendo o serviço público e a estabilidade dos servidores públicos, mas sou absolutamente adepto de uma orientação a compreenda como serviço ao bem público enquanto público. O serviço público e o privilégio da estabilidade são necessários para dar validade à democracia, não para opor-se a ela nem para menosprezar outros trabalhadores.
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