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Competências humanas para a sustentabilidade

25 de junho de 2012 / Edmar Roberto Prandini /

Em tempo de Rio+20, os temas ecologia e sustentabilidade instigam mais fortemente nossas indagações. Inevitavelmente, surgem questões: quais são as transformações esperadas? O que gostaríamos de ver acontecer a partir do evento? O que deveria mudar em relação aos diferentes atores da sociedade? Que compromissos serão assumidos pelo segmento empresarial? Durante a Rio 92, a participação das empresas foi bastante tímida. Ecologia e sustentabilidade eram questões basicamente governamentais. Naquela época, a dimensão ambiental era a principal preocupação.

O sociólogo e filósofo francês Félix Guattari preconizava, já na década de 1970, que a ecologia deveria começar com o indivíduo, passando pelas relações pessoais e sociais, para chegar ao meio ambiente. Ou seja, um movimento de dentro para fora, requerendo mudança de mentalidade. Assim, propôs o conceito de “ecosofia”, que vai além do conceito racional da ecologia. A ecosofia é questão filosófica, de sabedoria.

As empresas genuinamente orientadas para questões relacionadas à sustentabilidade buscam, por meio de processos educacionais, o aprimoramento do humano, de modo a tornar os sujeitos da ação mais preparados para nova mentalidade. Líderes empresariais comprometidos incluem na agenda temas relacionados ao desenvolvimento humano. Nesse contexto, a educação corporativa e a comunicação são os meios para o aprimoramento do indivíduo, da organização e da sociedade como um todo.

Em geral, há forte convergência quanto à necessidade de aprimoramento individual e social. Mas aprimoramento em quê? Quais são as competências humanas necessárias para as questões relacionadas à sustentabilidade? Qual deveria ser o perfil das pessoas orientadas por princípios, valores atemporais e visão de longo prazo? Como formar cidadãos genuinamente engajados com o que se entende como sustentabilidade? O termo sustentabilidade surgiu em 1987 e estabeleceu que desenvolvimento sustentável é o que “satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as próprias necessidades”. É preciso, portanto, considerá-lo como nova visão, que inclui a sustentabilidade ambiental, econômica e sociopolítica, por meio de trocas dinâmicas entre governo, empresas e sociedade civil organizada.

Para que a sociedade coloque essas definições em prática, é preciso criar riqueza, formando sólido capital. Entretanto, a sustentabilidade requer mais que o desenvolvimento do capital material, social e intelectual. É preciso evoluir para a formação do capital moral e espiritual de uma sociedade. Inspirados por Danah Zohar e Ian Marshall, entendemos capital espiritual como a riqueza que extraímos de nossos valores e princípios. É aquele que se faz necessário nas organizações, comunidades e culturas da sociedade global. É a nossa inteligência moral, que sabe distinguir o certo do errado e com a qual exercitamos a bondade, verdade e compaixão.

Desse modo, podemos considerar que os 12 princípios da transformação propostos por Zohar seriam a base para a formulação das competências humanas fundamentais para a sustentabilidade. São eles: autopercepção; espontaneidade; ser conduzido por visão e valores; capacidade de se ver dentro de modelos; compaixão; celebração da diversidade; independência; tendência para fazer perguntas fundamentais sobre o porquê; capacidade de reestruturar; uso positivo da adversidade; humildade; e sentido de vocação.

Esperamos que a Rio+20 seja verdadeira oportunidade para que os líderes empresariais possam assumir um profundo compromisso com a construção de outros capitais que não só o material. Que se possa ultrapassar o discurso do capital social e intelectual e que novas práticas organizacionais, norteadas pela formação do capital moral e espiritual, possam fundamentar as áreas de educação corporativa das empresas, ampliando o desenvolvimento de competências humanas para novas dimensões que privilegiem valores fundamentais e profundo sentido de propósito, que procura agir em prol do bem comum.

ELIANE LEITE
Vice-presidente da Affero

MARIA ISABEL BARRETO
Professora da PUC-Rio

Fonte: Correio Braziliense – 25/06/2012 – http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/6/25/competencias-humanas-para-a-sustentabilidade