Archive for the ‘Ciência’ Category

Unesp testa eficácia e segurança de 20 plantas medicinais
09/05/2013

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Uma pesquisa em andamento na Universidade Estadual Paulista (Unesp) busca avaliar a segurança e a eficácia de extratos de 20 plantas medicinais no tratamento de doenças como úlcera, colite, doença inflamatória intestinal, dores crônicas, inflamação, câncer e diabetes.

Em uma primeira fase do trabalho, um Projeto Temático coordenado por Wagner Vilegas, foram extraídos os princípios ativos presentes nas espécies. As moléculas foram isoladas e tiveram sua estrutura caracterizada. Em seguida, foram feitos experimentos in vitro e em roedores para avaliar a ação terapêutica e possíveis efeitos adversos.

Com base nos experimentos, o grupo de pesquisadores selecionou extratos das seis espécies mais promissoras para uma investigação aprofundada.

A Serjania marginata e a Machaerium hirtum demonstraram ação gastroprotetora, analgésica e anti-inflamatória, sem efeito mutagênico ou tóxico. Já a Rhizophora mangle e a Hymenaea stigonocarpa mostraram potencial terapêutico para o tratamento de doença inflamatória intestinal. As espécies Myrcia bella e a Bauhinia holophylla apresentaram resultados experimentais promissores para tratamento do diabetes.

“Pretendemos investigar melhor os mecanismos de ação dos princípios ativos presentes nessas espécies. O interessante seria descobrir um mecanismo de ação diferente daqueles existentes nos medicamentos já comercializados”, explicou Vilegas, do campus da Unesp em São Vicente.

Listagem do SUS

O objetivo da pesquisa, de acordo com Vilegas, é ampliar as opções disponíveis na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao Sistema Único de Saúde (Renisus). Divulgada em 2009 pelo Ministério da Saúde, essa listagem traz 71 plantas com potencial para gerar produtos de interesse para a rede pública de saúde.

A finalidade da Renisus, segundo informações do ministério, é orientar estudos e pesquisas que subsidiem a relação de fitoterápicos disponíveis para uso da população. Atualmente, são oferecidos derivados de espinheira-santa, para gastrites e úlceras, e de guaco, para tosses e gripes.

“O problema é que algumas das espécies listadas pela Renisus ocorrem apenas em determinadas regiões do país e não há quantidade suficiente da planta para atender toda a população. É preciso incorporar novas opções terapêuticas a essa listagem, mas antes são necessários estudos para comprovar a eficácia e a seguranças dos fitoterápicos”, disse Vilegas.

Outro objetivo do projeto, conforme o pesquisador, é justamente estudar o efeito de plantas similares às existentes na listagem do SUS, como é o caso da pata-de-vaca (Bauhinia forficata).

“A B. forficata já é muito usada contra o diabetes. Nós estamos estudando uma espécie irmã, a B. holophylla, que apresentou resultados muito bons contra o diabetes em testes feitos in vitro e in vivo. Ela também é rica em flavonoides, que são substâncias antioxidantes”, contou Vilegas.

Outra planta famosa na medicina popular que mostrou bom desempenho no laboratório foi a jurubeba (Solanum paniculatum). Rica em alcaloides esteroidais, a espécie revelou nos experimentos efeito importante contra úlcera e outros tipos de inflamação.

Já a Terminalia catappa, popularmente conhecida como chapéu-de-sol, apresentou intensa atividade antimicrobiana e antiulcerativa – interessante para tratar doenças estomacais associadas à bactéria Helicobacter pylori. Os testes de segurança, no entanto, revelaram que as substâncias ativas presentes na planta podem induzir mutações nas células.

“Serão necessários mais estudos para descobrir se há meios de retirar as moléculas tóxicas do extrato e reduzir possíveis efeitos colaterais”, avaliou Vilegas.

Esse também é o caso da crotalária (Crotalaria pallida), que, apesar da potente ação imunomoduladora, apresentou alta toxicidade. “Essa espécie contém alcaloides pirrolizidínicos, tóxicos para o fígado. Foi por esse motivo, por exemplo, que o confrei ( Symphytum officinale) passou a ser contraindicado”, afirmou Vilegas.

Fornecimento regular

Na próxima etapa da pesquisa, serão realizados estudos para avaliar se há alterações sazonais ou geográficas nos extratos das espécies estudadas, ou seja, se a quantidade de princípios ativos varia de acordo com o local em que a planta foi cultivada ou de acordo com a época do ano em que foi colhida.

“Estamos fazendo o cultivo em campo dessas espécies, pois, para produzir extratos padronizados, é importante avaliar se a planta fornece matéria-prima para a produção dos fitoterápicos em quantidade suficiente ao longo de todo o ano. Se não for possível manter a regularidade do fornecimento, não será viável transformá-las em produtos fitoterápicos”, disse Vilegas.

A pesquisa é realizada no âmbito do Programa BIOTA/FAPESP e conta com a participação de cientistas de diversas unidades da Unesp, além de parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Londrina (UEL), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal de Alfenas.

02/05/2013

Por Luiz Paulo Juttel

Agência FAPESP – A anestesia bucal indolor e sem agulha é um desejo antigo dos profissionais de odontologia e considerada por muitos o “Santo Graal” da profissão. Afinal, há quase cem anos os anestésicos são aplicados na mucosa da boca da mesma maneira, por meio de dolorosas injeções. Será que existem alternativas menos invasivas?

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) acreditam que sim. A equipe coordenada pela bioquímica Eneida de Paula, do Instituto de Biologia, desenvolveu o Projeto Temático “Novas formulações de anestésicos locais de liberação sustentada: do desenvolvimento ao teste clínico odontológico”, apoiado pela FAPESP, que teve como um dos objetivos a criação de um gel ou creme anestésico a ser empregado pelos dentistas.

De Paula explica q ue a proposta não foi produzir novas moléculas anestésicas, pois isso exigiria pelo menos dez anos de desenvolvimento e testes clínicos. O propósito foi ampliar a eficácia dos sais anestésicos disponíveis no mercado ao encapsulá-los dentro de carreadores ou nanopartículas capazes de levar os princípios ativos ao lugar desejado e liberá-los de forma controlada.

A associação entre carreadores e anestésicos poderia, teoricamente, aumentar o tempo de anestesia, exigir uma concentração menor de princípio ativo e diminuir o risco de o composto entrar na corrente sanguínea e se espalhar pelo corpo de forma nociva.

A pesquisa teve início em 2007 com a escolha do carreador ideal para cada anestésico. “Ele não poderia causar reações adversas no organismo, teria de ser quimicamente estável e precisaria manter o anestésico no local aplicado pelo maior tempo possível”, disse De Paula à Agência FAPESP.

Os lipossomas, partículas feitas de lipídios e semelhantes a membranas biológicas, foram os primeiros carreadores testados pelo grupo. Segundo De Paula, os lipossomas são capazes de levar os anestésicos sem gerar reações adversas e já são empregados pela indústria farmacêutica em antivirais, antifúngicos e no desenvolvimento de vacinas e medicamentos anticâncer.

A pesquisadora conta que os lipossomas oferecem um ambiente molecular semelhante ao do local de ação do anestésico local. “Além disso, suas propriedades químicas atraem esses medicamentos, que ficam retidos em suas membranas, evitando que sejam rapidamente absorvidos para além do local de ação”, disse.

Testes em animais e humanos mostraram que o uso dos lipossomas como carreadores prolongou o tempo de ação dos anestésicos mepivacaína e prilocaína em três a quatro vezes, comparados aos medicamentos comerciais que agem por duas a quatro horas. Tal eficácia, entretanto, ainda dependia do uso de seringas na aplicação do medicamento.

É que, para eliminar a dor, o sal anestésico precisa ultrapassar a mucosa e o osso compacto da boca para bloquear a condução do impulso nervoso que transporta as informações de sensibilidade da região dental ao cérebro.

“Imaginávamos que o lipossoma passaria com mais facilidade pelo osso para, assim, chegar ao nervo a ser anestesiado. Só que isso não ocorreu”, explicam Francisco Carlos Groppo e Maria Cristina Volpato, pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da Unicamp.

Os cientistas envolvidos no projeto temático buscavam ampliar a ação anestésica para muitas horas, seja com ou sem o uso de seringas. Para isso, decidiram estudar carreadores alternativos.

De Paula iniciou os testes com ciclodextrinas, moléculas produzidas a partir da quebra do amido. “Umas das principais vantagens das ciclodextrinas é que elas aumentam a solubilidade aquosa dos anestésicos, fazendo com que maior quantidade do composto chegue ao nervo que precisa ser anestesiado. Grandes porções de anestésicos são necessárias para banhar a região do nervo e impedir a propagação do impulso doloroso”, explicou a pesquisadora responsável pelo Temático.

Testes em animais mostraram que anestésicos como a bupivacaína e a ropivacaína, complexados com hidroxipropil-beta-ciclodextrina, aumentaram o tempo de duração e a intensidade da anestesia para além de 6 horas após uma aplicação única.

Estudos também apontaram que anestésicos associados a carreadores necessitam de quantidades menores de princípio ativo para cumprir a sua função. Em animais, a mepivacaína a 2% encapsulada em lipossomas exerceu uma atividade anestésica semelhante à mepivacaína a 3% sem carreador.

A pesquisa liderada por De Paula gerou ainda uma patente que despertou o interesse de algumas indústrias farmacêuticas. Os pesquisadores aperfeiçoaram a composição de um gel que, em alguns casos, é aplicado sobre a mucosa da boca para diminuir a dor da injeção anestésica.

Lipossomas foram associados aos anestésicos de uso local benzocaína e mepivacaína. No caso da benzocaína, foi possível manter a eficácia do gel com a concentração do princípio ativo diminuída pela metade, de 20% para 10%.

“O gel preparado também apresentou propriedades reológicas interessantes que possibilitaram ao medicamento permanecer no local aplicado por mais tempo que o produto disponível no mercado, sem derreter e perder a atividade”, disse De Paula. Empresas interessadas em comercializar essa tecnologia podem entrar em contato com a Inova Unicamp.

A pesquisadora destaca que o Temático também teve um papel relevante na formação de mão de obra qualificada nessa área de pesquisa. Ao longo do projeto, foram publicados 46 artigos científicos em revistas internacionais indexadas, resultantes de 19 teses de doutorado e 22 dissertações de mestrado.

Além disso, três profissionais formados no âmbito do projeto se tornaram líderes de novos grupos de pesquisa, atuando no desenvolvimento de sistemas de transporte de medicamentos baseados em polímeros, para uso tópico ou na determinação farmacocinética da liberação sustentada, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), na Universidade Federal do ABC e na Universidade São Francisco.

Os avanços obtidos no projeto levam os pesquisadores da Unicamp a acreditar que é possível desenvolver uma anestesia bucal sem uso de injeção. “Entretanto, é necessário avançar a pesquisa com novos carreadores, como os polímeros, aprimorar a tecnologia de desenvolvimento dos lipossomas e reduzir o custo de produção desses compostos”, disse De Paula.

O apego à doença conduz ao comportamento obsessivo compulsivo

por Teresa Cristina Pascotto – [email protected]

Vou usar a palavra doença, para facilitar o relato, mas entendam por doença, todo e qualquer estado -físico, emocional, mental e/ou espiritual- de desequilíbrio, limitações, bloqueios, problemas que nunca se resolvem, questões que se mantém num padrão negativo, situações ou ideias fixas que não saem do pensamento, e vários outros modos de se criar doença. Mas vou reforçar o foco no aspecto das “doenças mentais/emocionais”, que se manifestam na forma de desequilíbrio, confusão interna e perturbação.

As pessoas têm uma tendência a focar excessivamente na doença e a lutar contra ela, ao invés de aceitá-la, para então poderem perceber que enquanto focam demasiadamente na doença, estão mantendo-se apegadas a ela. O apego intensifica a própria doença e leva as pessoas a buscarem alívio para as dores adicionais que o apego causa. Apesar de acreditarem que estão desesperadamente buscando a cura, isto é apenas uma ilusão criada pela mente para que a pessoa acredite que quer ser curada, quando, na verdade, está apegada não somente à doença, mas também aos benefícios que a doença lhe traz.

Somente quando a pessoa é capaz de aceitar que não quer abrir mão da doença porque ela lhe traz distrações, ocupações e benefícios, é que ela começará a ter consciência de que nada de verdadeiro está fazendo para ser curada e perceberá que todo o caminho que trilhou até agora na busca pela cura, apenas a levou a buscar paliativos para se aliviar e tentar se livrar dos sofrimentos causados pela doença, mas não para se livrar da doença em si. A doença continua ali, no seu lugarzinho de poder dentro da pessoa, sendo o centro das atenções.

Outra questão que leva as pessoas a sustentarem a doença, é que com o foco voltado para a doença, elas fogem do vazio e da falta de sentido que experimentam em suas vidas. Para não sofrerem com isso, encontram na doença e na falsa busca pela cura, algo com que se ocupar e se distrair. Porém, se esse mecanismo não for suficiente para aliviar as aflições, é porque as sensações de vazio estão também associadas a um profundo sentimento de solidão e à sensação de não pertencer, que traz uma profunda desesperança e uma angustiante vontade de “voltar para casa” – uma forma sutil de dizer: vontade de morrer.

Num caso mais extremo, como forma de se alhear à vida, usando como um entorpecente, é quando este quadro conduz à obsessão pela doença, criando ainda mais sofrimento. Digamos que a “doença adoeceu”. Dentro do quadro de obsessão, a pessoa está tão envolvida na questão que a atormenta -a doença-, que se torna um robô, mecanicamente vivendo sua rotina diária, mas tão ocupada na obsessão, que nunca está no aqui e agora de verdade; este mecanismo da obsessão é um grande anestésico para as dores que a consomem internamente. Mas, na obsessão, a pessoa sofre muito, pois acredita que está sofrendo e gosta disso. O sofrimento se intensifica, o que leva a pessoa a buscar o alívio. Ela acredita que está buscando a cura, mas na verdade, está só buscando alívio. No desespero pelo sofrimento e na busca pelo alívio, ela se torna compulsiva. A “doença dói” e ela compulsivamente corre em busca do alívio.

Nesta busca, ela sempre se alivia num primeiro momento, mas, inevitavelmente, fica apenas recuperada e pronta para voltar à obsessão que a atormentará intensamente e que a levará novamente à compulsão para buscar alívio. Enfim, a pessoa desenvolve um comportamento obsessivo compulsivo que se mantém firme, num círculo vicioso do qual, na verdade, ela não quer sair. Em casos mais extremos, isto chega à patologia, desenvolvendo o Transtorno obsessivo compulsivo.

Sair do mecanismo significa se curar de verdade e estar livre para… enfrentar o vazio, a falta de sentido na vida, o sentimento de solidão, de abandono e de não pertencer, e… voltará a sentir vontade de “voltar para casa”…
A cura para isso começa com a pessoa tomando consciência de que quando está na compulsão de buscar a cura, na verdade, não está querendo se curar de verdade. Com esta consciência ela será conduzida a descobrir -vivendo essa realidade interna, experimentando as sensações- que quando está apegada à doença e/ou ao comportamento obsessivo compulsivo, está apenas fugindo de seus sentimentos mais profundos de dor e desesperança. A pessoa deverá fazer esse trabalho de cura com apoio terapêutico, pois deverá ser conduzida amorosamente e com segurança a entrar em contato com esses lugares ocultos e dolorosos do seu inconsciente e de seu corpo emocional, em que irá “viver” a experiência dessa jornada interna, experimentando sensações, sentimentos e emoções, seguidos, talvez, de lembranças desta ou de outras vidas, onde sempre sentiu esse vazio doloroso e os sentimentos de solidão que a acompanham deste muito tempo atrás…

Como o foco fixo na doença é algo antigo na vida da pessoa e como o apego é intenso, este mecanismo está arraigado tão profundamente, que o caminho da cura, principalmente no caso do comportamento obsessivo compulsivo, será longo e delicado, será um processo na busca pela cura real. E para que esta verdadeira vontade de se curar possa se manifestar, a pessoa precisará “sentir e estar consciente” que está fugindo do vazio, quando cria a doença e do quanto tem vontade de “não existir” (ou morrer) por conta desse vazio. Após isto, vem a necessidade da tomada de consciência do quanto está apegada à doença, para depois aceitar que não quer se desapegar dela; em seguida, deverá desejar se desapegar da doença; depois deverá reconhecer que não aceita a cura, para então, desejar se abrir e aceitar a cura (simples assim). Então, e só então, é que o processo de cura realmente começa a fazer sentido para a pessoa e começa a acontecer a cura, aos poucos, passo a passo, mesmo porque, a pessoa precisará agora, se acostumar com a cura ao mesmo tempo em que vai sentindo a falta da doença, que se tornou um entorpecente e, como toda droga, intoxicou a pessoa, e o processo de desintoxicação leva às crises de abstinência. Será um caminho doloroso (mas muito possível) se desintoxicar da doença e se manter firme, sem voltar a usar esse entorpecente. A cura acontece, tenha certeza, mas tudo é um processo e deverá haver muito comprometimento e perseverança nesse caminho. É só confiar e dar os primeiros passos…

Fonte: http://somostodosum.ig.com.br/clube/c.asp?id=34382

26/04/2013

Muitos se tem perguntado que pelo fato de o atual Papa Francisco provir da América Latina, seja um adepto da teologia da libertação. Esta questão é irrelevante. O importante não é ser da teologia da libertação, mas da libertação dos oprimidos, dos pobres e injustiçados. E isso ele o é com indubitável claridade.

Este, na verdade, sempre foi o propósito da teologia da libertação. Primeiramente vem a libertação concreta da fome, da miséria, da degradação moral e da ruptura com Deus. Esta realidade pertence aos bens do Reino de Deus e estava nos propôsitos de Jesus. Depois, em segundo lugar, vem a reflexão sobre este dado real: em que medida aí se realiza antecipatoriamente o Reino de Deus e de que forma o cristianismo, com o potencial espiritual herdado de Jesus, pode colaborar, junto com outros grupos humanitários, nesta libertação ncessária.

Esta reflexão posterior, chamada de teologia, pode existir ou não pois pode não haver pessoas que tenham condições de exrcer esta tarefa. O decisivo é que o fato da libertação real ocorra. Mas sempre haverá espíritos atentos que ouvirão o grito do oprimido e da Terra devastada e que se perguntarão: com aquilo que aprendemos de Jesus, dos Apóstolos e da doutrina cristã de tantos séculos, como podemos dar a nossa contribuição ao processo de libertação? Foi o que realizou toda uma geração de cristãos, de cardeais a leigos e a leigas a partir dos anos 60 do século passado. Continua até os dias de hoje, pois os pobres não cessam de crescer e seu grito já se transformou num clamor.

Ora, o Papa Francisco fez esta opção pelos pobres, viveu e vive pobremente em solidariedade a eles e o disse claramente numa de suas primeiras intervenções:”Como gostaria uma Igreja pobre para os pobres”. Neste sentido, o Papa Francisco, está realizando a intuição primordial da Teologia da Libertação e secundando sua marca registrada: a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da vida e da justiça.

Esta opção não é para ele apenas discurso mas opção de vida e de espiritualidade. Por causa dos pobres, tem se indisposto com a presidenta Cristina Kirchner pois cobrou de seu governo mais empenho político para a superação dos problemas sociais que, analiticamete se chamam desigualdades, eticamente, representam injustiças e teologicamente constituem um pecado social que afeta diretamente ao Deus vivo que biblicamente mostrou estar sempre do lado dos que menos vida tem e são injustiçados.

Em 1990 havia na Argentina 4% de pobres.Hoje, dada a voracidade do capital nacional e internacional, se elevam a 30%. Estes não são apenas números. Para uma pessoa sensível e espiritual como o bispo de Roma Francisco, tal fato representa uma via-sacra de sofrimentos, lágrimas de crianças famintas e desespero de paisdesempregados. Isso faz-me lembrar uma frase de Dostoiewski: ”Todo o progresso do mundo não vale o choro de uma criança faminta.” \

Esta pobreza, tem insistido com firmeza o Papa Francisco: não se supera pela filantropia mas por políticas públicas para que devolvam dignidade aos oprimidos e os tornecidadãos autônomos e participativos.

Não importa que o Papa Francisco não use a expressão “teologia da libertação”. O importante mesmo é que ele fala e age na forma de libertação.

É até bom que o Papa não se filie a nenhum tipo de teologia, como a da libertação ou de qualquer outra. Seus dois antecessores assumiram certo tipo de teologia que estava em suas cabeças e se apresentava como expressões do magistério papal. Em nome disso se fizeram condenações de não poucos teólogos e teólogas.

Está comprovado historicamente que a categoria “magistério” atribuída aos Papas é uma criação recente. Começou a ser empregada pelos Papas Gregório XVI (1765-1846) e por Pio X (1835-1914) e se fez comum com Pio XII (1876-1958). Antes “magistério” era constituído pelos doutores em teologia e não pelos bispos e pelo Papa. Estes são mestres da fé. Os teólogos são mestres da inteligência da fé. Portanto, aos bispos e Papas não cabia fazer teologia: mas testemunhar oficialmente e garantir zelosamente a fé crista. Aos teólogos e teólogas cabia e cabe aprofundar este testemunho com os instrumentos intelectuais oferecidos pela cultura em presença. Quando Papas se põem a fazer teologia, como ocorreu recentemente, não se sabe se falam como Papas ou como teólogos. Cria-se grande confusão na Igreja; perde-se a liberdade de investigação e o diálogo com os vários saberes.

Graças a Deus que o Papa Francisco explicitamente se apresenta como Pastor e não como Doutor e Teólogo mesmo que fosse da libertação. Assim é mais livre para falar a partir do evangelho, de sua inteligência emocional e espiritual, com o coração aberto e sensível, em sintonia com o mundo hoje planetizado.Que o Papa deixe aos tólogos fazer teologia e ele presida a Igreja no amor e na esperança. Papa Francisco: coloque a teologia em tom menor para que a libertação ressoe em tom maior: consolação para os oprimidos e interpelação às consciências dos poderosos. Portanto, menos teologia e mais libertação.

http://leonardoboff.wordpress.com/2013/04/26/papa-francisco-e-a-teologia-da-libertacao/

Leonardo Boff é autor de Teologia do cativeiro e dalibertação, Vozes 2013.

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