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A vivência da ética no mundo real

18 de outubro de 2012 / Edmar Roberto Prandini /

O segredo da ética não está em discernir entre o bem e o mal. Isso seria de uma facilidade tacanha. Ocorre que no mundo real, onde é o lugar preciso em que a ética deve estar, diga-se de passagem, as decisões são sempre entre opções eivadas de dificuldades, debilidades e consequências.

Ético é aquele comportamento que não foge destas dificuldades, debilidades e consequências, mantendo-se atuante, de tal modo que a AÇÃO, a práxis – e não o discurso ideológico ou poético (que, em si mesmos, não operam e, portanto, nada produzem) – direciona as situações vivenciais, fáticas, para avanços na dignificação das pessoas, na redução das desigualdades, na proteção do meio ambiente, na democratização das esferas públicas ou políticas, na redução das assimetrias e das violências, etc.

Ético não é aquele que veta a interlocução e o diálogo, mas que o processa nas condições adversas sempre presentes, tanto pelos limites dos meios quanto pelas restrições do campo hermenêutico, lutando para assegurar-lhe melhor qualificação, ampliação no número de participantes, clarificação dos pressupostos e visibilização das verdadeiras motivações, ampliando a transparência e, por básico que possa parecer, a honestidade e a sinceridade.

Estão falando de ética como se ela fosse o acirramento da intransigência, dos pretensos impolutos cercando-se de muralhas contra os impuros e infiéis.

Nem a mais primitiva teologia do cristianismo ensina algo desse tipo, muito pelo contrário: nos ensinamentos do Novo Testamento, o convívio entre Cristo e seus discípulos com os “pecadores”, infiéis e desobedientes da Torá é apontada como a precisa superação do farisaísmo e sinal salvífico do Reino de Deus, cujo sentido se revelava no atendimento das necessidades dos pobres e na rejeição da opressão.

A ética não é derivação dedutiva de conceitos abstratos, firmados na compreensão de alguns que por ocuparem lugares proeminentes na ordem institucional, equivocam-se por supor que esses seus universos categoriais e intelectivos sejam supremas valias para a obediência de toda a sociedade, que sequer foi informada de quais sejam tais universos.

A ética é o empenho cotidiano e o impulso permanente pela construção do mundo melhor, que precisaria de maiores caracterizações, mas que aqui considero suficiente como “fórmula” para a compreensão do que pretendo exprimir.

O juízo penal não deveria ser lugar para os eminentes, eminentíssimos, como eles gostam de se proclamar a todo tempo, elocubrarem sobre discussões para quais não receberam nem da sociedade nem de nenhuma divindade ou entidade sobrenatural ou metafísica nenhum mandato deliberativo.

Publicado originalmente como comentário no blog de Luis Nassif.
http://www.advivo.com.br/node/1100600