Desde os tempos da minha juventude, quando tive a oportunidade de integrar vários tipos de organizações e movimentos sociais, dentre os quais a Coordenação Arquidiocesana da Pastoral da Juventude, em Ribeirão Preto, um dos temas que mais mereceram minha atenção, debates e leituras, foi sobre os diversos estilos possíveis para a formação de lideranças e o modo de exercer a liderança de forma a estimular o fortalecimento dos grupos e seu desenvolvimento coletivo.

Muito já se discutiu, inclusive em obras acadêmicas, sobre esse tema da liderança. Há pessoas que entendem que a liderança resulte de uma espécie de traço de personalidade com o qual a pessoa nasce e que, no decorrer da vida, vai explicitando. A liderança, nesta perspectiva, seria como que um carisma, uma espécie de graça divina, um dom. Outras pessoas, entre quais me incluo, consideram que a liderança é uma capacidade que pode ser apreendida, mas que jamais se torna definitiva propriedade do líder, de modo que este precisa continuamente cultivá-la, inclusive para exercê-la de modo apropriado nas diferentes conjunturas em que seja necessária, nos diferentes ambientes em que o líder se insere.

O que, a meu sentir, diferencia de forma definitiva os padrões do exercício da liderança, é o seu grau de comprometimento com a democracia entendida aqui não apenas enquanto obediência às decisões coletivas, mas mais que isso, enquanto pedagogia e investimento no fortalecimento grupal e no amadurecimento homogêneo da consciência coletiva, pelo processo contínuo de diálogo e elaboração coletiva das decisões.

Obviamente que este é um processo que possui alguns ônus. É frequente que algumas pessoas participantes dos grupos, movimentos ou organizações sociais desrespeitem os processos coletivos de diálogo e elaboração das decisões, não por outras razões senão a própria ansiedade ou a percepção de oportunidades que julgam não poderem ser deixadas de lado e que não puderam ser objeto de discussão grupal.

Mas, este é um desafio que se impõe no processo de formação de uma liderança com o perfil que destaquei: elevado grau de compromisso com a formação grupal e com a democracia. Saber renunciar à ansiedade e mesmo às oportunidades. Valorizar o grupo, o crescimento homogêneo da consciência, desenvolver as habilidades de todos os integrantes do grupo para dar respostas às demandas cotidianas, tudo isso é dependente de um despreendimento do líder, que só é efetivamente possível se ele tiver como valor primeiro não os resultados imediatos dos processos em que atua, mas a maturação e a capacitação de todos os membros do seu grupo.

Por isso, em palestras e cursos sobre liderança em que fui convidado a atuar, passei a defender que existia uma prova dos nove para verificar se determinada liderança correspondia ou não a esse perfil que expus. O bom líder, dizia, seria aquele que estivesse sempre acompanhado pelos seus liderados. Citava o exemplo dos presidentes de associações de moradores, que costumavam ir sozinhos a reuniões com secretários municipais, vereadores ou os prefeitos e confrontava-os com aqueles presidentes que quando marcavam algum tipo de reunião com essas autoridades, mobilizavam os membros da associação e os moradores do bairro para estarem presentes nos encontros.

Os primeiros, dizia eu, não seriam capazes de reunir nove pessoas, pelo menos, para empreender com as autoridades públicas as negociações que considerassem necessárias. Os segundos, ao contrário, com o passar do tempo, propiciariam que se multiplicassem diversos líderes para o bairro, para o desenvolvimento de ações e iniciativas de diversas naturezas: culturais, ambientais, assistenciais, etc.