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A luta de classes que existe é dos ricos contra os pobres, diz Domenico de Masi

1 de maio de 2015 / Unipress /

Ainda que muitos não gostem da temática da luta de classes pelo fato de que foi Karl Marx quem a apresentou para a discussão da sociedade sobre a natureza do capitalismo, não há como evitá-la, ainda que mais de 150 anos já tenham se passado desde a publicação de sua obra principal, O Capital.

Em que pese o fato de que a realidade do capitalismo da era industrial observado e criticado por Marx tenha passado por inúmeras variações, é sua característica mais essencial que não sofreu alteração: a apropriação por poucos da riqueza socialmente produzida mediante as mais diversas formas de exploração do trabalho alheio, algumas sutis e outras violentas.

O Estado, na denúncia de Marx, era um agente de serviço à burguesia capitalista. No decorrer dos anos, após esta pesada acusação, tentou fazer-se avançar na direção de uma “era de direitos”, como dizia Bobbio, para fugir da submissão exclusiva à burguesia.

Este é o dilema com que se defronta a todo tempo na discussão sobre a democracia: o Estado é uma função da sociedade, que deve instaurar direitos universais mediante instrumentos legais e prover o seu exercício mediante redistribuição de riquezas e a prestação de serviços públicos extensivos a todos os cidadãos, ou persiste sendo uma função do capital, que preserva intocadas as estruturas de concentração de riqueza e privilegia, além de proteger, os seus detentores?

A “burguesia”, os ricos, para simplificar, que acumula o capital, quando o Estado tenta escapar-lhe da submissão, persevera agindo mesmo que por burla: a expatriação da riqueza, a lavagem de dinheiro, a sonegação fiscal, a composição de bancadas parlamentares mediante “incentivos” e propinas, a corrupção, em suas várias espécies.

Domenico di Masi, em breve entrevista para a Folha, cita a ladroagem de impostos, como uma de suas formas de ação. E, de maneira mais do que explícita, aponta o fato de que são os ricos que fazem luta de classes, e a fazem sempre, contra os pobres, obviamente.

Leia a entrevista, que vale a pena:

Intelectual brasileiro tem mentalidade de Terceiro Mundo, diz sociólogo

FERNANDA MENA
DE SÃO PAULO
01/05/2015 02h00

Se trabalho é vida e vida é trabalho, o sociólogo italiano Domenico De Masi, 77, que estuda atividades produtivas na era pós-industrial, paradoxalmente reitera como solução para o crescente desemprego no mundo a antiga reivindicação dos proletários: redução das jornadas.

O professor da Universidade La Sapienza, em Roma, se celebrizou por conceitos como “ócio criativo” (aliar trabalho, estudo e lazer a um só tempo) e “teletrabalho” (produção à distância facilitada por meios tecnológicos).

Fã do Brasil e da cultura brasileira, que já destacou como “exemplo” de produção criativa, De Masi esteve em São Paulo para um ciclo de palestras intitulado “Utopia e Realidade: trabalho produtivo e qualidade de vida”.

Em entrevista à Folha, ele diz os brasileiros têm complexo de vira-latas: o país coleciona posições de Primeiro Mundo, mas seus intelectuais só conseguem deixar de enxergar o país como Terceiro Mundo quando confrontados com dados. Leia a seguir.

*

Folha – Suas teorias sobre ócio criativo e redução das jornadas de trabalho são, em geral, encaradas como utopia. Essas ideias podem ser aplicadas?

À medida que a tecnologia avança, engole postos de trabalho nas mais diversas áreas. Mas suplanta principalmente os trabalhos executivos, físicos ou intelectuais, que são 77% das atividades laborais do mundo, restando os trabalhos criativos, que correspondem a 33%.

É como se tivéssemos uma mesma torta para dividir por um número crescente de pessoas. O que fazer? Dividi-la em pedacinhos menores para que todos possam comer. Assim funciona com o trabalho. Precisamos reduzir as jornadas de trabalho para que todos possam trabalhar.

Folha – Mas não se pode esperar que os setores produtivos estejam dispostos a reduzir jornadas para ter mais funcionários...

Não. Empresas são organizações conservadoras. Olham para trabalho como se fosse a era industrial. Só que apenas 33% da atividade produtiva hoje é braçal, o restante é trabalho intelectual.

Para produzir cem automóveis antes eram necessárias cem horas. Se hoje são necessárias 50 horas, ou o total de empregados trabalha metade do tempo de antes ou teremos metade dos funcionários. Os que ficarem sem trabalho não poderão mais consumir. E, se não puderem consumir, para quem vou produzir tantos automóveis? A conta não fecha.

É esse o motor de muitas das crises econômicas?

Não. Crise é algo transitório. Isto é uma reestruturação mundial da riqueza. Na Itália, dez pessoas têm a mesma riqueza de 6 milhões. No mundo, 85 pessoas, incluindo 12 brasileiros, têm a riqueza de 3,5 milhões de pessoas. Esses 85 bilionários podem ter duas, três, dez Ferraris, mas não vão comprar 3,5 milhões de calças, vestidos e sapatos. O consumo cai, a produção cai junto.

Como mudar essa reestruturação da riqueza?
Pagando impostos –e impostos altos. Na verdade, a maioria das 85 pessoas mais ricas do mundo é formada por ladrões de impostos. Eles sonegam impostos e, quando pagam, o fazem na Holanda, onde são mais baixos.

São pessoas que financiam campanhas eleitorais em barganha por leis que os favoreçam. E isso alimenta o ciclo da desigualdade.

Trata-se de uma luta de classes às avessas?

É uma vendeta. O neoliberalismo da era Thatcher inverteu as coisas: a luta de classes dos pobres contra os ricos se tornou a luta dos ricos contra os pobres.

Isso ocorre no Brasil também. Os oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso adotaram uma política social-liberal, estabilizaram a economia e iniciaram uma política social. Os oito anos de Lula redistribuíram parte da riqueza que FHC criou, com uma política social-democrata, que permitiu a muitos brasileiros ascenderem.

Hoje, Dilma é vítima de uma vingança neoliberal. Aécio Neves (PSDB) perdeu as eleições, e o movimento neoliberal se voltou contra Dilma, que não é pior que outros presidentes. A corrupção sempre existiu no país.

O Brasil tem mil outros problemas para resolver… Há um grande desencontro entre o Brasil real e o Brasil intelectual.

Que desencontro é esse?

O Brasil tem uma taxa de desemprego que é um terço da italiana ou metade da norte-americana…

Mas espera-se um aumento…

No Brasil é assim: se algo vai mal, vai mal; se algo vai bem, no futuro vai piorar (risos). Esse é um pensamento típico dos brasileiros. Confrontadas com a realidade, essas ideias não param de pé.

Terminei uma pesquisa com 11 intelectuais brasileiros sobre como estará o Brasil em 2025. Grande parte desses intelectuais é pessimista.

O PIB brasileiro é o sétimo do mundo, à frente da Itália e da Inglaterra. O Brasil está em quinto em produção industrial. Está em terceiro lugar em acesso à internet, atrás dos EUA e da Suécia. Ou seja, o Brasil ocupa posições de Primeiro Mundo, mas os brasileiros ainda se enxergam como Terceiro Mundo.

Quando esses mesmos intelectuais foram confrontados com dados reais, eles se mostram mais otimistas do que quando discutiram entre si. Os brasileiros têm complexo de vira-lata.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/05/1623474-intelectual-brasileiro-tem-mentalidade-de-terceiro-mundo-diz-sociologo.shtml