O episódio de ontem, em que uma quantidade enorme de panfletos contra Dilma Roussef foi encontrada numa gráfica de São Paulo, sendo confeccionados a mando do bispo de Guarulhos, Dom Luis Bergonzini, para serem distribuídos antes do segundo turno das eleições, obriga-nos a uma reflexão sobre a atuação da Igreja no campo da política.

Historicamente, no Brasil, a Igreja se viu subordinada ao poder da coroa portuguesa, por força do regime do Padroado. Essa subordinação foi determinante para que a presença institucional da Igreja no imenso território brasileiro fosse mínima, com a instalação de poucas dioceses e a absoluta ausência de estrutura até a independência.

Esse fato só foi compensado pela presença dos religiosos, especialmente jesuítas e franciscanos, que atuaram durante o período colonial em regime de missão, muitas vezes sem a guarida da coroa portuguesa. Tanto é verdade, que em 1759, os jesuítas são expulsos do Brasil, por uma determinação da corte portuguesa, por estarem se opondo aos interesses da corte, na defesa da missão jesuítica no sul do Brasil.

Com a chegada do Brasil Império, o regime do padroado é mantido, mas agora sob o comando do imperador brasileiro. Cresce o número de dioceses, o clero liberal se aproxima relativamente da Coroa, apesar da persistência de uma tensão em função da Coroa dialogar também com a maçonaria.

A proclamação da República foi seguida de uma ruptura entre a Igreja e o Estado: chegava ao fim o regime do padroado e o Estado se desimcumbia de envolver-se com os problemas religiosos. Setores da Igreja, entretanto, mantiveram-se pensando ter direito de influir nas decisões do Estado em nome de assegurar a obediência aos preceitos cristãos por toda a sociedade. Chegaram a formar uma Liga Eleitoral para poder indicar os nomes dos candidatos preferidos da hierarquia católica para compor o parlamento ou chegar ao comando do executivo.

Os movimentos de renovação eclesial que envolveram o Concílio Vaticano II, nos anos 60, levaram ao surgimento de uma reflexão teológica e pastoral sobre a autonomia da realidade política, de tal modo que a influência cristã sobre ela teria que ser fruto da escolha consciente dos cristãos engajados nas organizações sociais e nas instituições políticas e não mais um acordo de cúpula entre a hierarquia católica e o poder. O principal papel da Igreja seria o de estimular processos de formação que permitissem o surgimento de lideranças comprometidas com os valores do Evangelho e com a causa de um mundo mais justo e melhor.

Desde então, e já são quase cinquenta anos de uma nova tradição, o episcopado passou a não se pronunciar mais sobre o nome dos candidatos em quem os eleitores deveriam votar, mas apenas indicar princípios sobre quais eles deveriam pensar no momento de selecionar seus preferidos para atribuirem os votos.

A atitude de Dom Luiz Bergonzini é um retrocesso que abandona, portanto, toda essa tradição. Desrespeita não apenas o processo político-eleitoral pelo qual estamos todos passando, mas a própria formulação teológica e pastoral da Igreja pós-conciliar, regredindo a um tipo de posicionamento que fora adotado pela última vez nos anos 30 do século passado.

Não é de se estranhar que a atitude dele tenha causado divisão no episcopado, que na sua imensa maioria não partilha mais desse tipo de compreensão sobre o papel da Igreja. É o que explica que a CNBB tenha se manifestado retirando a legitimidade do panfleto e desautorizado o uso de seu nome e símbolos no documento.