Em consequência, inúmeros blogs e comentaristas passaram a acusar uma espécie de traição ou de capitulação da presidenta, considerando os acontecimentos e posicionamentos da mídia na campanha eleitoral do ano passado. Para estas pessoas, o clima de conflagração deve ser mantido e Dilma tem uma espécie de obrigação de vingar-se daqueles que tentaram usar de artimanhas completamente desleais no decorrer da campanha que ela venceu.
Alguns já estão tentando realizar “balanços” do governo, no campo econômico e político, identificando ou um alinhamento “à direita” ou, no mínimo, um movimento em direção ao centro, que não corresponderia aos compromissos selados durante a campanha e nas entranhas do processo pelos quais ela se elegeu.
Minha avaliação é de que tais posicionamentos equivocam-se por duas razões:
a) revelam enorme precipitação na tentativa de produzir avaliações de um governo que sequer completou 60 dias de mandato;
b) baseiam-se numa espécie de interpretação da realidade que exagera a relevância da imprensa e da mídia em geral na estruturação das relações sociais e políticas.
Se fosse para se admitir tamanha importância relativa à mídia, não se poderia compreender como foi possível que Lula se elegesse presidente em 2002. Muito menos, como ele pode se reeleger, em 2006, após a extraordinária campanha de difamação que se verificou em 2005, na chamada crise do “mensalão”, expressão que a meu ver não passa de um artefato retórico, sem conteúdo efetivo. Na mesma linha, não seria compreensível a própria eleição de Dilma.
Além disso, se já não bastassem os próprios processos eleitorais brasileiros, os recentes acontecimentos nos vários países muçulmanos (Tunísia, Egito, Líbia, Emirados Árabes, Iêmen, Marrocos, etc.) estão a demonstrar que a sociedade pulsa vibrantes energias em esferas que não se pautam pela pauta da imprensa, sendo ela “livre” ou “controlada”.
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