Pessoalmente, me identifico fortemente com essa data. Ainda aos 16 anos de idade, em 1982, enquanto vivíamos sob a fase final da ditadura militar, iniciei minha participação social, pastoral e política num bairro da periferia de Ribeirão Preto, o Conjunto Habitacional Adelino Simioni.
A qualidade das casas entregues pela COHAB, as regras do financiamento do extinto BNH – Banco NacionaL de Habitação, a ausência de asfaltamento no bairro, assim como de posto de saúde, escola ou creche, o número pequenos de ônibus para transportar para o trabalho e demais atividades as mais de 3 mil famílias instaladas no bairro, tudo isso motivou um rápido despertar da consciência das desigualdades sociais e das injustiças no tratamento dado pelos governos militares aos pobres.
Se na tradição americana ou francesa os direitos humanos tinham como pressuposto subjacente a afirmação dos direitos civis, para nós, moradores da periferia a ênfase maior estava numa questão menos política, mais social. Foi a partir da percepção dos problemas sociais que passamos a analisar a política e não a partir de alguma ideologia aprendida em algum teórico político, ainda que eles nos pudessem ensinar muito.
Mas, a consciência social e política se não encontra expressão na ação, causa desalento e desilusão. Então, aqui remeto minha reflexão para a importância das comunidades eclesiais de base que a Igreja católica cultivava naquela época. Em nossa comunidade, que sequer nome tinha ainda, começamos a enfrentar alguns problemas vividos pelas famílias que participavam das nossas reuniões e celebrações.
O desemprego era alto e crescente, ao contrário de hoje, os salários dos que tinham trabalho estavam achatados, as dificuldades eram altas, e em função disso, algumas famílias não conseguiam manter em dia suas prestações das casas. Nos ajudávamos como podíamos, dividíamos o pouco de comida que tínhamos, mas isso não pagava mensalidades da Cohab e do BNH. Começaram a acontecer alguns despejos.
Certo dia, por volta da metade do ano, eu chegava da escola, vindo de ônibus, que parava distante da minha casa. Ao passar pela esquina de uma rua, observei um caminhão desalojando uma família, cuja senhora participava na nossa “igreja”. Corri saber do que se tratava e em pânico, fui procurar minha mãe para pensarmos em como ajudar aquela mulher e sua família.
Obviamente, minha mãe também não tinha nenhuma carta mágica na cartola para saber como impedir aquele despejo, mas decidiu ir até o local, conversar com os “despejadores”, dentre quais o oficial de justiça, enquanto mandou-me ir chamar o maior número de pessoas da comunidade católica que eu pudesse. De bicicleta eu fui e a cada um dizia que chamasse mais um … lembro do sr. Sebastião, sapateiro, que estava no bar, levou todos os homens do bar…
Reunimos algumas dezenas de pessoas na frente da casa daquela senhora, e dado que minha mãe não havia conseguido convencer o oficial de justiça a desistir do despejo, subimos no caminhão onde estavam os móveis retirados da casa e começamos a devolvê-los à família. Os trabalhadores que faziam o despejo, surpresos com nossa reação, receosos até, imagino, interromperam a operação. O oficial de justiça foi procurar um telefone para chamar a polícia que ao chegar começou a bater boca com aquelas dezenas, quase centena de pessoas na rua, decididas a impedir o despejo.
Percebendo que seria inútil a discussão, a polícia deu ordem de prisão para um senhor, que eu chamava de “seu” Antelmo, por “desacato”, e o levou para a delegacia. Eu, preocupado com o que podia acontecer a ele, corri procurar o Padre Niltom, um dos poucos moradores do bairro que tinha carro, um fusca branco, para ele ir descobrir para onde haviam levado “seu” Antelmo. O oficial de justiça desistiu do despejo naquele dia e resolveu ir embora.
À noite, o Padre Niltom chegou trazendo o “seu” Antelmo. Não me lembro se ele foi indiciado por algo ou não.
Este fato foi o primeiro que nos levou, no bairro, a descobrirmos a importância dos direitos humanos. No final daquele ano, participamos da fundação do CEDHEP – Centro de Direitos Humanos e Educação Popular, que ainda hoje existe na cidade de Ribeirão Preto e que, em alguns momentos, teve destacado papel no apoio das lutas populares da cidade.
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